Investidores estrangeiros querem matar a empresa de telefonia para refastelarem-se na sua carniça; estão de olho em possível rentabilidade com a massa falida
O capitalismo tem muitas virtudes, mas permite também muitas distorções. Controlar estas distorções é uma das principais funções do estado. De fato, não fosse a imprescindível intervenção do estado na economia, o planeta jamais teria chegado ao atual estado de desenvolvimento econômico, ainda que, em alguns países, como no Brasil, esta intervenção tenha sido distorcida e incompreendida pelos últimos governos, fato que conduziu à atual recessão.
Uma destas distorções do capitalismo moderno é visível atualmente no processo de recuperação judicial da Oi, a mais importante prestadora de serviços de telefonia do Brasil, devido à sua imprescindível atuação na telefonia fixa.
A empresa possui geração de caixa e somente está em recuperação judicial por conta das fraudes que vitimaram sua saúde financeira. Tem tudo para se recuperar e emergir como um exemplo de sucesso entre as malfadadas recuperações judiciais brasileiras. Mas uma ameaça ronda a empresa: os credores abutres que estão interessados na sua falência.
E qual a razão desta ameaça? Como ela se formou? Como pode haver interessados na falência de uma empresa tão importante para a economia nacional? É isso que veremos agora.
EMPRESA E CREDORES
A empresa, como qualquer outra, para manter sua atividade conta com recursos próprios e de terceiros. Estes terceiros são os credores, de quem a empresa tomou recursos emprestados prometendo pagar juros. Estes credores recebem, como prova do empréstimo, títulos. São os chamados bonds, em inglês.
Estes títulos são negociáveis, então, aquele que empresta para empresa em um primeiro instante pode não ser aquele que vai receber. Por exemplo: José empresta R$ 100 e recebe um título que tem o valor de resgate de R$ 130 em 5 anos. Passados 3 anos, José precisa de dinheiro e vende este título para Antônio por R$ 115. Este, dois anos depois tem o título resgatado pela empresa que paga os R$ 130. Tanto José quanto Antônio detiveram os bonds por um período, então ambos foram o que se chama em inglês de bondholders. Pois bem, vamos supor agora que depois de 3 anos José percebesse que a empresa estava em sérias dificuldades e que dificilmente teria condições de resgatar o título pelos R$ 130 prometidos. Sem caixa para honrar e sem crédito para rolar a dívida, Antônio somente topasse pagar R$ 5 pelo título cujo valor de resgate é R$ 130. Com medo da situação, José aceita e vende para Antônio por R$ 5 o título que vale R$ 130 na data de resgate.
A OI possui geração de caixa e somente está em recuperação judicial por conta das fraudes que vitimaram sua saúde financeira
Repare que foi José que acreditou na empresa e investiu pesado nos títulos, emprestando grande soma de seu próprio bolso. Antônio, quando comprou por R$ 5 de José não colocou nem um único centavo na empresa. Por que motivo Antônio comprou por R$ 5 o título de José? Porque Antônio é um oportunista, ele vai agora criar todos os embaraços para receber os R$ 130. Quando a empresa entra em recuperação judicial, para que seja possível a sua recuperação e continue prestando sua função econômica e social à nação, os credores devem dar abatimentos em seus créditos, portanto, se Antônio comprou por R$ 5 o título da empresa, seria natural que aceitasse receber R$ 25, pois teria um lucro de 400%, muito maior do que os 30% prometidos inicialmente a José, que comprou por R$ 100 para receber no futuro R$ 130.
Acontece que Antônio, apesar de não ter colocado um centavo na empresa, ao comprar os títulos de José se tornou credor. É um “credor abutre”, que não está satisfeito com 400% de taxa de retorno. Ele sabe que para a empresa ter o plano aprovado judicialmente, os credores precisam concordar com os descontos e condições propostas. Se os credores não concordarem, a falência será automática e a empresa destruída. E o que Antônio ganha com isso? A divisão da massa falida! A massa falida será dividida entre todos os credores da empresa, a divisão da massa falida será muito mais vantajosa ainda para Antônio do que os 400% de lucro. Antônio quer a morte da empresa para poder lucrar o máximo possível com a “carniça” proveniente de seu espólio. Por este motivo que
Antônio é conhecido como “credor abutre”, ele não está preocupado com o enorme impacto econômico e social causado pelas centenas de milhares de empregos diretos e indiretos espalhados por toda economia nacional, não está preocupado com a destruição dos indispensáveis serviços prestados pela empresa. Ele quer apenas engordar ainda mais seu rico bolso à custa da desgraça de toda a sociedade.
É isto que está acontecendo com a nossa Oi. Credores abutres, especialmente um grupo europeu de credores, que se auto intitula “European Bondholders”, mente quando diz que investiu na companhia. Nem um único centavo destes “abutres” entrou nos cofres da Oi. Querem se passar por cordeiros, mas são harpias extremamente mal intencionadas. Compraram os títulos de terceiros pagando míseras quantias e agora cobram o valor integral, chantageiam com a ameaça de não concordarem com o plano de recuperação e com isso seja decretada a falência. Ou a empresa concorda em resgatar seus títulos pelo valor que pedem em detrimento da própria viabilidade da recuperação, bem como em detrimento dos outros credores, ou optarão pela destruição da empresa para se apossarem da massa falida. São “carniceiros” que se aproveitam das dificuldades de uma empresa para destruí-la e lucrarem com seu espólio.
Como vimos, esta “carnificina” vai muito além da metáfora, ela literalmente irá matar milhares de brasileiros, destruindo centenas de milhares de empregos diretos e indiretos, impactando negativamente toda a dinâmica macroeconômica nacional, justamente em um momento em que o país se esforça para sair da crise. Estes credores europeus não estão preocupados com nada disso, apenas pensam no lucro fácil para alimentar ainda mais o bolso de seus ricos cotistas.
Como disse no início, o capitalismo traz em seu âmago sérias distorções, a recuperação judicial da Oi! e os credores abutres estão expondo as vísceras de uma delas. É necessária, e premente, a intervenção política do estado brasileiro para que impeça a destruição da mais importante empresa de telefonia nacional, maior operadora de telefonia fixa, não só pela importância dos serviços que presta, mas pelo enorme impacto econômico, e consequentemente social, que teria sobre esta enorme nação.








