Famílias de crianças autistas, adolescentes com deficiência e pacientes acamados denunciam dificuldades para conseguir atendimento especializado no distrito de Travessão, em Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense. A falta de terapias, transporte, fisioterapia, fornecimento regular de insumos e acompanhamento domiciliar tem levado moradores a buscar apoio em iniciativas comunitárias para garantir cuidados básicos.
A situação foi mostrada em reportagem especial do Direto da Redação, com relatos de pais e mães que afirmam enfrentar anos de espera por atendimento. Entre as principais queixas estão a ausência de terapia ocupacional no distrito, dificuldades para deslocamento até a área central de Campos, falta de transporte adequado para pacientes com mobilidade reduzida e interrupção de tratamentos após a pandemia.
Travessão é o 7º distrito de Campos dos Goytacazes e aparece na reportagem como uma das regiões mais populosas do município, com cerca de 25 mil moradores. A distância até a sede municipal aumenta o impacto da falta de atendimento especializado, especialmente para famílias que dependem do SUS e não têm condições financeiras de custear transporte particular, consultas, medicamentos, fraldas, sondas e alimentação especial.
Diante da ausência de suporte regular, moradores criaram o Centro Social Maria, projeto comunitário que oferece atendimento gratuito, acolhimento e apoio a pessoas com deficiência. Segundo representantes da iniciativa, o espaço atua há anos sem apoio financeiro do poder público, sendo mantido por doações, rifas, bazar beneficente e trabalho voluntário.
Um dos casos relatados é o de um pai idoso responsável por dois filhos autistas adolescentes. Ele afirma enfrentar dificuldades para conseguir transporte, remédios e apoio contínuo. De acordo com o relato, a família obtém fraldas por decisão judicial, mas ainda sofre com a falta de estrutura para levar os filhos aos atendimentos necessários.
Outra família ouvida pela reportagem relata a situação de um adolescente acamado, dependente de cuidados permanentes. A mãe afirma que o filho teve piora no quadro de saúde após a interrupção do tratamento de fisioterapia e que enfrenta dificuldade para conseguir home care, sonda e insumos pelo SUS. Ela diz que, em algumas situações, precisa comprar material com recursos próprios para evitar riscos à saúde do filho.
O caso reacende o debate sobre a responsabilidade do poder público na garantia de atendimento especializado a pessoas com deficiência. A Lei Berenice Piana, que instituiu a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista, reconhece a pessoa autista como pessoa com deficiência para todos os efeitos legais e prevê acesso a ações e serviços de saúde, com atenção integral às necessidades do paciente.
No âmbito do SUS, o programa Melhor em Casa é voltado a pacientes que precisam de cuidados contínuos e que, por limitações temporárias ou permanentes, não conseguem se deslocar até uma unidade de saúde. Segundo o Ministério da Saúde, o atendimento domiciliar busca evitar internações prolongadas, garantir cuidado no ambiente familiar e oferecer suporte por equipes multiprofissionais.
Em nota exibida na reportagem, a Secretaria Municipal de Saúde informou que não havia registro dos pacientes citados no programa Melhor em Casa nem pedido de avaliação para inclusão no serviço. A pasta afirmou que o programa atendia 85 pacientes acamados restritos ao leito, mediante critérios do Ministério da Saúde e avaliação multiprofissional, sendo apenas um morador de Travessão. Também informou que pacientes com mobilidade reduzida devem contar com cuidados familiares, com acompanhamento pela atenção primária, e destacou que o distrito possui unidade pré-hospitalar 24 horas para urgência e emergência.
Para especialistas ouvidos no programa, a existência de projetos sociais não substitui políticas públicas permanentes. A psicóloga Caroline Barbosa destacou que pessoas autistas precisam de rede multidisciplinar, incluindo acompanhamento com profissionais como fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, fisioterapeuta e psicólogo, além de suporte às famílias, que muitas vezes vivem sobrecarga física, emocional e financeira.
A reportagem também chama atenção para a invisibilidade de famílias que vivem longe da área central do município. Em regiões distritais, a falta de transporte e de serviços especializados pode transformar uma consulta ou terapia em um obstáculo quase impossível. Enquanto respostas definitivas não chegam, o Centro Social Maria segue como referência de acolhimento em Travessão.
O caso deve mobilizar vereadores, órgãos de controle, Defensoria Pública, Ministério Público e o próprio município para avaliar a situação das famílias, verificar a necessidade de atendimento domiciliar, garantir transporte sanitário adequado e ampliar a oferta de terapias e cuidados contínuos para pessoas com deficiência.
*Da Agência Fonte Exclusiva







