Em “Medo de amar” (Motta, 1981, p. 26), o poeta confirma a presença do eu-lírico-narrador, ímpar, animal, racional e marginal, de forma objetiva, que rumina, que planeja aquilo que saqueia e vigia, vindo das trevas da sua mais sagrada intimidade-templo profanado.
De tanto que me amaram
Quando amei, o meu amor foi-se
Retirando para os confins de mim
O corpo roxo dos coices com que o repeliram
Coisa obsoleta e inútil e risível.
Agora o meu amor escorraçado espia de que,
Faminto carece: os hematomas indeléveis.
E recua mais um passo, pávido.
A condição humana do poeta, condição de negro homoerótico em busca de uma identidade sagrada, é sempre mostrada ao leitor como que extirpada de suas raízes. Além disso, sua orientação sexual é um fator sempre presente em seus textos e para o qual o poeta adverte: “Eu não quero ser paladino de minoria, porque, frequentemente, quem faz isso cai numa postura falar paternalista. E também não posso falar por grupo tão numeroso”. (Motta, 1981).
E completa: “O que posso é falar dele, colocá-lo dentro da minha poesia. E colocar minha poesia a serviço da dignidade humana, o que implica defendê-los”. (Motta, 1981) Na entrevista que concedeu a João Silvério Trevisan (1997, p. 23), ao ser perguntado se tinha deixado de ser homossexual, Waldo responde:
Não. Eu continuo homossexual, com aquele afeto e o mesmo desejo. Mas estou a fim de inaugurar um novo padrão de relacionamento, e isso, na verdade, pode ser chamado de minha religião. Acho que expurguei o cristianismo, o judaísmo e descobri coisas universais. Sabe por quê? Nessa minha busca de sentido da vida ou de Deus, sempre entendi que nosso corpo teria que ser o referencial maior de tudo, porque ele é um microcosmo e tudo que está neste microcosmo está também no macrocosmo, assim como tudo que está fora também está dentro. Então, fui beber no Oriente, passei pelo I-Ching, taoismo, confucionismo, budismo, yoga. Comecei a me encontrar quando descobri os Chacras – que são centros energéticos do corpo. Ora, o cóccix e o ânus estão relacionados ao chacra básico, o chacra muladhara. Aí, mergulhei no shivaísmo, no tantrismo e passei para o dionisismo, através da leitura do livro Shiva e Dioniso. A religião da natureza e do Eros, de Alain Daniélou, que traça paralelismos entre o dionisismo, orgias báquicas e os profetas bíblicos… Então peguei a Bíblia e consultei I Samuel 10, 5-12 e I Samuel 19, 20-24, onde os profetas cantam, dançam, comem e se alegram. Aí se fala que a congregação dos profetas, Saul e o profeta-mor Samuel, todo mundo que na Bíblia era uma coisa só, de gente careta e reacionária. Como é que ninguém fala disso?
Quando publicou Eis o homem (1987), Waldo Motta estava claramente preocupado em compor poemas bem escrachados, escatológicos, mais crus, mostrando um contraste bem interessante entre as alusões bíblicas dos títulos e a irreverência gaiata da capa: uma piranha de cara arisca e esperta.
Para Motta, o propósito essencial da poesia moderna “é que ela seja uma farpa de luz, cujo alvo seja o coração do homem […]. Que ela seja um veneno ou um remédio, não importa, importa sim que ela cumpra a sua função de determinar o sentimento do homem”. (Motta, 1981) Essa sua função passa a ser perseguida pelo poeta e se concretizará, como mostrarei, em Bundo e outros poemas (1996), livro escrito e publicado depois de dez anos de profunda pesquisa estética e sacro-erótica.
Afinal, ser poeta para Waldo Motta “é estar muito mais próximo de um santo, de um sábio, de um profeta do que de um mero intelectual que escreve versos” (Motta 1996, p. 17), o que confirma o que o próprio poeta nos mostra em muitos dos seus poemas mais recentes, de alto tom sectário, prosélito e, por isso, pregacional, além de irônico no que diz respeito à farsa dos falsos profetas contemporâneos, por ele desvelados, sempre via escracho, como em:
Guerra aos Deuses todos e às putas que o pariu, a deusa artimanhosa, que abestalha os homens com mumunhas e promessas implausíveis, para a tecelã de inglórias sinas.
Ó cavalos mediúnicos da Besta, recusai vosso repasto de abobrices e banalidades chochas e destronai de vossos lombos quem vos oprime e tange nos caminhos do inferno decorado de ouropéis e bugigangas.
Desarmem-se as tendas das verdades tacanhas e postiças que adiam para o nunca o gozo do paraíso aqui, bem aqui, na Terra santa, cheia da glória de Deus, virgem mãe celestial. (Motta 1996: 62)
É importante, pois, salientar que desde Eis o homem (1987), Motta já procura uma trilha poética pelo meio que lhe parecerá mais tarde o mais garantido para o sentido que quer dar a sua poesia:
Está claro que não venho reforçar as pregações dos adeptos das seitas religiosas que se multiplicam por aí, mas surpreendê-los em suas patranhas, desmascará-las. A impostação séria é porque estou falando sério, e se algo é farsesco é porque assim quero parodiar o besteirol santarrão e fanático. (Motta, 1984)
Coincidentemente, é “Religião”, o poema que abre “Waw”, 2ª. parte de Bundo e outros poemas (1996, p. 79), um exemplo da fala do poeta e foi um dos sete poemas waldinos escolhidos por Heloísa Buarque de Holanda para estar na Esses Poetas – Antologia dos poetas dos anos 90 (1998), para quem:
Nesse jogo, posso identificar o movimento de três “gerações” atuando no novo cenário poético. Uma, bastante nítida, que junta representantes da poesia dos anos 70 e poetas mais jovens, esteticamente filiados à poesia marginal, em torno do projeto CEP 20.000, que desde 1990 lota o Espaço Sergio Porto. Outra, mais ligada à procura de estratégias que possibilitem posições críticas e criativas frente aos desafios do novo zeitgeist e, finalmente, aquela que adere pacífica e “tecnicamente” à volta das formas clássicas e modernas da poesia. (Holanda, http://www.heloisabuarquedehollanda.com.br/esses-poetas-anos-90/, acesso em 15/09/2013)
Eis o poema: A poesia é minha/ sacrossanta escritura,/ cruzada evangélica/ que deflagro deste púlpito./ Só ela me salvará/ da queda do abismo/ Já não digo como ponte/ que me religue/ a algum distante céu,/ mas como pinguela mesmo,/elo entre alheios eus.
Em Poiezen (Motta, 1990), a capa reproduz uma pintura de Tawaraya Soatsu, de 1630 e, na contracapa, um poema de Karasumaru Mitsuhiru, do Museu de Kioto. Os dez poemas que compõem o livro são alternados por delicadas gravuras japonesas que reiteram o trato com a matéria espiritual, presente em todos os versos do livro: “Vozes que me destecem o enredo/ do mundo inaugurando outro drama/ que só no amor pode encontrar desfecho” (Motta 1990, p. 17). Sem os estardalhaços de Eis o homem (1987), Waldo Motta escreve sobre a essência do amor à vida/ natureza – via filosofia zen – metaforizada na elaboração poética, numa alusão clara aos trabalhos manuais espiritualizadores da seita oriental. Afasta-se, neste livro, o poeta, do seu mote maior que glosa seus livros anteriores para a seara do autoconhecimento, preocupado, talvez, com seu próprio desenvolvimento zen- ferreiro do amor: “Hominal lume que a boca urde/ em palavras animadas de amor”. (Motta 1990, p. 19)
Nos versos, o motivo maior – amor zen – recebe um tratamento muito semelhante, mostrando-nos que tudo, apesar de tirado do espaço da indagação do ser sobre si mesmo, é constituído de matéria volátil, o sentimento, mas um sentimento que adquire corpo num vai e vem aliterado: “Dividir o nume/ em nomes e nomes/ nisso se resume/ a vida do homem?” (Motta 1990, p. 23)
O universo em que se inserem os poemas dessa obra joga o ser humano no tempo e no mistério místico da vida espiritual, podendo até mesmo, às vezes, pela argúcia do poeta no trato com a composição lírica, expressar o oposto, querendo nos fazer crer que a realidade da vida pretendida pertence a um ritmo diferente, uma espécie de dança das palavras, dança mais propositalmente lenta. O poeta chama as palavras sobre si mesmas, constelando-as, emprenhando-as de significância rítmica, aglutinando-as a seu movimento próprio, tornando-as por isso mesmo ambíguas e elásticas quanto a seus significados; construir pelas palavras ou calar-se? “Quem no silêncio resiste/ quanto mais fala mais triste”. (Motta, 1990, p. 25) O eu-lírico fratura, a rigor, a continuidade do discurso num ritmo dividido e bem marcado que se expande nas mais variadas direções: “Peixe exaltado/ pela boca morro/ em cada palavra”. (Motta, 1990, p. 27) Este ritmo pode servir à prospecção ou à sondagem das possibilidades mais remotas de fusão do corpo poético, mas ordenando o eu-lírico pelo tom irônico e amargo, como em “Exu Yang”, por exemplo, em que este mesmo eu se apresenta ambiguamente como anjo/demônio, culpado/inocente: “Só cumpro os infinitos/ números de nossa lenda”. (Motta, 1990, p.14). Assim, o poeta considera a linguagem um espelho da alma e da consciência mais mundana, ansioso sempre para estimular seu leitor a observar sua própria existência espiritual. Como o faz? Aprimorando recursos, acentuando o poder do significado, enquanto expressões simbólicas: “Sovar-te de nomes/ até a exaustão/ transforma-te em pão/ para muitas fontes”. (Motta, 1990, p.29)
Comunga e come o nominável para ele, ou seja o inominável para os preconceituosos, mais precisamente o “amor que não ousa dizer o nome”: o pão excrementício que posteriormente aparecerá em Bundo e outros poemas (Motta,1996). Essa fome espiritual-carnal, ao ser colocada no âmbito do discurso lírico, presta-se bem ao movimento próprio desse discurso (aliás, esse recurso será reiterado na sua obra posterior sempre que for prudente, poeticamente), ou melhor, a um ritmo específico, Zen, que mobiliza, a todo instante, o poder de revelação que impregna a poesia de Waldo Motta, num exercício de poíesis, em que a contemplação dos extremos que se tocam, dos opostos que se anulam, é o lugar para onde se dirige o fluxo contínuo do eu, certamente, criando um lugar utópico, onde céus e Terra se refundem, sem o peso do pecado, ou da maneira do poeta amar a si mesmo, aos outros e ao mundo cão. Confirma-se, dessa forma, na sua poesia, muito do seu projeto de vida, em nuances autobiográficas, bem marginais e malditas. São do poeta as palavras “meu projeto de vida, uma aventura em busca da Verdade, intuída como a ciência da restauração da condição divina”. (Motta, 1996, p. 15)
A aparente pecha da vulgaridade é abonada pela série de epígrafes, tanto na entrada do livro quanto no seu interior, com um jeito especial de abandonar-se nos clássicos: salmos da Bíblia abrem “Bundo” e duas epígrafes dão entrada a “Waw”, “Je veux La liberte dans le salut”, Rimbaud e “Cuando más alto subia,/ deslumbroseme la vista,/ y la más fuerte conquista/ em oscuro se hacía;/ mas por ser de amor e lance/ di um ciego y oscuro salto,/ y fui tan alto, tan alto,/ que Le di a la caza alcance”, de San Juan de La Cruz. Chamo a atenção para o texto “No Cu do Mistério”, cuja epígrafe “Visita interiore terrae, rectificando inveries occultum lapidem”, mais uma vez comprova o que foi aventado acima. É este o texto na íntegra:
Charadinha alquimista
Em honra aos arautos da utopia, em prêmio aos seus tantos sacrifícios e para o consolo dos aflitos, revela a sapiência do Espírito Santo que o buraquinho fedorento é a passagem secreta para os universos paralelos, o caminho da eleição dos santos e heróis, a via estreita da liberdade dos cansados e oprimidos. Protegido por monstros legendários, milenares interditos e artifícios incontáveis, proscrito e disfarçado a todo custo, é por ele o acesso ao manancial da vida, que aos destemidos concede o gozo das aventuranças, e somente ele conduz ao filão das maravilhas, jazida da Pedra Filosofal, sendo a única estrada para o centro de Luz, a Cidade Azul dos Imortais, refúgio da Deusa eternamente virgem & seu Pai, Filho e Esposo excomungados. “Desencantai os vossos mitos”, roga o Santíssimo Espírito de Mamãe Serpente, “ó meus desgraçados filhos, cativos das loucuras racionais; ó estúpidos demônios, reféns de vossas culpas e mentiras, escravos dos trabalhos exaustivos e inúteis, resgatai os vossos corpos ao jugo do Maligno. Desencantai os vossos mitos, ó meus amados filhos, e sede felizes!” (Motta 1996: 61)
Ave!








