O presente artigo, em vários capítulos, faz um levantamento das questões primordiais que sustentam a produção poética de Waldo Motta, desde sua incursão pela literatura marginal, a de mimeógrafo, considerando-o um escritor maldito desde a gênese de sua poesia. Para tal, o autor faz uma breve síntese historiográfica de sua obra até o lançamento de Bundo e outros poemas (1996), pela Editora da Unicamp, considerado o marco zero que lhe proporcionou estar sua obra inserida no eixo editorial Rio-São Paulo.
Propondo uma leitura de sua trajetória e analisando alguns de seus poemas, em “Bundo” e “Waw”, que compõem as duas partes de Bundo e outros poemas (1996), mostra por que Waldo Motta é considerado um grande poeta marginal e maldito. Retoma as observações da lírica waldina, ainda neste estudo, relendo e intra/intertextualizando Transpaixão (2009) e Terra sem mal (2015), Editora Patuá, seu último livro de poemas.
Na poesia brasileira contemporânea do Espírito Santo, a passagem dos anos 60 para os anos 70, do século XX significou bem mais que uma mudança de década: para uma parcela significativa da intelectualidade e essa passagem marcou o momento de uma virada intelectual, vivida nos seus instantes iniciais de maneira especificamente angustiante.
Paralelamente, é do jogo de diferentes forças que vão surgir a materialidade e a definição do fenômeno poético, ou de um processo no qual se constitui o rótulo “poesia marginal”, designando esse mesmo fenômeno , que me interessa sobremaneira pelo elo que tentarei estabelecer entre suas questões próprias, regras e valores também próprios (e é a partir daí que surgem aproximações e afastamentos com outras formas de produção literária ou artística e se define com vigor crescente, especificidades, construindo-se, paralelamente, a trajetória do fenômeno), e os primeiros livros de poesia e os primeiros poemas de Waldo Motta, que irão se enquadrar dentro do que Becker (1977, p. 65/66) define como um “mundo artístico” onde há “[…] a totalidade de pessoas e organizações cuja ação é necessária à produção do tipo de acontecimento e objetos caracteristicamente produzidos por aquele mundo.”
Resumindo: se, por um lado, essas pessoas e organização estão orientadas por regras e valores com razoável grau de especificidade, por outro, uma mesma pessoa pode pertencer a diversos mundos. Portanto, a tarefa de compreensão de qualquer desses mundos exige tanto a busca de particularidades quanto a de elementos não tão particulares que refletem contatos em diferentes níveis com realidades as mais diversas.
Vou deixar aqui uma sugestão. Poeta capixaba, preto, bicha e macumbeiro. Waldo Motta em “Transpaixão”: pic.twitter.com/SxDvRNW03Y
— luke d (@riobald0) October 15, 2020
Cria-se, assim, um espaço para o debate do que é marginalidade, em se tratando do poeta Waldo Motta; sendo assim, mesmo se pensarmos em termos de circuito de produção e distribuição, etc., o termo marginal terá que ser expandido na sua significância, como mostrarei adiante. Waldo Motta poderia pela sua produção inicial de um ‘poeta marginal’ ser visto ou por um valor marginal ao quadrado, que possibilitará trazer à luz os resultados mais concretos de suas experiências e pesquisas no campo da poíesis. Advindo da geração marginal dos anos 70, do século XX, o poeta ainda carregou como vaticínio marcas sociais marginalizadas. São suas as palavras que o qualificam como poeta “negro, pobre e veado”.
Foi rotulado como maldito e lúcido, dentre muitos outros adjetivos. Essa “moda” mimeógrafo chegou ao Espírito Santo em 1979. Revelando, de início, um exaltado ímpeto juvenil, tendo o sofrimento e atrevimento se juntado ao agudo senso de pesquisa, Waldo penetrou mais fundo nos temas noite, perigo, escuro, becos e as personagens que ali habitam, esquisitos, excluídos, malditos, marcados e mostrou a todos em seus versos o lado selvagem da rua, a violência e o amor/desespero. É de Waldo Motta (1987, p. 38) “Ah, corpo”:
Em plena madrugada, o bofe insistindo
num papo alto demais para seres inframundo
Enquanto ele adejava pelo espaço
(do quarto de pensão com os mosquitos)
a mim, que pouco interessam senão as coisas mais baixas,
mais terrenas, o desprezo que ele dizia ter
pelas coisas do corpo – magro e desnutrido,
mas belíssimo para essa minha fissura vesga – ,
só me desenganava, porém não me convencia.
Através de sua quase transparência
(de fomes recolhidas na ascese
um tanto forçada pela pindaíba),
procuro esquadrinhá-lo, entendê-lo.
Sucede que no auge das viagens
intempestivamente, trovejante,
um barulhinho de fome nas tripas do santo
o bofe despenca e, ploft!, se espatifa no concreto
em sua ordinária e infame realidade
pele e osso e necessidades.








