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Violência brutal de “Round 6” faz série se tornar o maior sucesso da Netflix

Promessa de prêmio milionário faz jogos infantis descambarem para a carnificina

redacao Por redacao
13/10/2021 - 17:29
em Cultura
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Jogos infantis são regidos por disciplina, cores alegres e morte (Foto: Divulgação)

Jogos infantis são regidos por disciplina, cores alegres e morte (Foto: Divulgação)

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Os muito pobres e os muito ricos, diz-se em Round 6, têm uma coisa em comum: eles não têm prazer na vida. Os primeiros não sabem como sustentar a si e à família, os últimos estão entendiados de tanta abundância. Por que não unir os dois?

Sem spoilers: o “Jogo da Lula” (Squid Game, nome original da série sul-coreana) é organizado por gente muito rica que, para se distrair, convida centenas de perdedores, os quais são conduzidos por seis rodadas. Quem não consegue atravessar uma delas é “desqualificado”, ou seja: executado. Para o vencedor, acena-se com um prêmio milionário.

A série superou Bridgerton e se tornou o maior sucesso da história da Netflix, primeiro lugar de audiência em 90 países. Segundo informou a plataforma de streaming nesta terça-feira (12/10), Round 6 já foi vista em 111 milhões de lares, menos de um mês depois de lançada.

E conseguiu isso tratando de jogos infantis simples em que o que está em jogo é vida ou morte. Seja uma corrida na qual quem faz um movimento na hora errada leva um tiro na cabeça, sejam times perdedores que se precipitam no abismo num silêncio quase sinistro: no fim o que mais conta são os truques psicológicos pérfidos com que os participantes são impelidos de um round para o outro.

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Um “empurrãozinho” da pandemia

Os eventos são em parte tão insuportáveis que alguns espectadores desistiram da série. Quem engendrou essa trama tão perturbadora foi o roteirista e diretor sul-coreano Hwang Dong-hyuk. Ele tinha a história na gaveta desde 2008, e foi bater de porta em porta com ela. Ninguém a quis: para os potenciais patrocinadores, era demasiado brutal e pouco realista.

Hwang contou ao jornal The Wall Street Journal que na época chegou até a vender seu laptop para ter algo para comer. Foi preciso vir a pandemia de covid-19, tornando tão óbvio o abismo entre ricos e pobres que o roteiro se tornou socialmente apresentável. “O mundo mudou. Em comparação com o que era dez anos atrás, todos esses pontos tornam hoje a história bem realista para o público”, explicou o diretor.

Em 2020, o filme Parasita, de Bong Joon-ho, cujo tema central também é a estrutura da sociedade sul-coreana, foi o grande vencedor do Oscar. Possivelmente o êxito internacional do filme contribuiu para que a série deslanchasse com tanta força.

Sociedade coreana como playground mortal (Foto: Divulgação)

Espelho da sociedade sul-coreana

Sulgi Lie é pesquisador de cinema e mídia na Universidade Livre de Berlim e na Academia de Artes Plásticas de Viena, e tem sido curador de retrospectivas do cinema coreano. Em sua opinião, Round 6 mostra os problemas sociais da Coreia do Sul de forma excepcionalmente nítida.

“Vagas de trabalho são eliminadas em nome do ‘saneamento’, mão de obra estrangeira é explorada e praticamente privada de direitos, a estrutura hierárquica se revela de forma mais crassa. No contexto da crise do coronavírus, houve notícias de altas taxas de suicídio de cidadãos que, sem qualquer tipo de segurança social, simplesmente caíram por entre as malhas da rede. Eu acho que isso, que é uma tendência social global, se manifesta mais fortemente na sociedade coreana.”

Assim, faz sentido as jogadoras e jogadores da série virem de todos os meios possíveis: um trabalhador demitido para “saneamento”, um paquistanês explorado, um ex-estudante de elite, uma refugiada da comunista Coreia do Norte, um profissional que cometeu um erro médico – e, claro, também bandidos.

Nenhum deles tem qualquer chance “lá fora”, já que a sociedade é brutal com os perdedores. Por isso todos que sobreviveram o primeiro round do jogo prosseguem voluntariamente. Pois, como se diz a certa altura na série, “há dois infernos, e o pior é a realidade”.

Tensão entre brincadeira infantil e brutalidade

Round 6 tem sido criticada por suas cenas drásticas. No entanto, orgias de violência não são nada de novo em filmes e séries populares. Em várias de suas produções, o americano Quentin Tarantino fez muito sangue jorrar, e massacres copiosos foram uma característica marcante da série Guerra dos Tronos (2011-2019).

O que é realmente brutal na atual série da Netflix, observa Lie, é jogos infantis singelos se transformarem subitamente em carnificinas sanguinolentas, na caixa de areia, sob armações de escalar, diante de muros pintados com nuvenzinhas azuis.

“Um truque simples, mas efetivo, é a série apelar para brincadeiras infantis arcaicas, como bolinha de gude ou cabo de guerra, e a violência escalar justamente num cenário assim. O interessante na série não é a brutalidade em si, mas essa tensão entre brincadeira e violência.”

Para Lie, é óbvio por que Round 6 tem tido tanto sucesso, justamente com o público jovem: há muita coisa que lembra a estrutura dos jogos de computador. “Por um lado, a contagem dos mortos, que não é incomum nos games, assim como a coleta de troféus ou pontos. Por outro, essa estrutura de níveis: quem vence um level, passa para o próximo.”

Ninguém está seguro em Round 6

Para quem é viciado, é fácil prever rapidamente o que vai acontecer a seguir numa série. Em Round 6, não é tão simples assim: o roteirista Hwang tem sempre uma surpresa a postos. Os espectadores não encontram uma âncora, não têm com quem realmente se identificar.

As rodadas exigem a formação constante de novos times: quem teve que se manter coeso num round, no próximo possivelmente será adversário de morte. Ninguém está seguro, o mais forte pode se transformar no mais fraco de todos, e vice-versa.

A maneira drástica em que a história é contada certamente se deve ao background cultural e político da Coreia do Sul, onde “há muitas contradições entre a tradição e a modernidade, e essas contradições coexistem”, explica Sulgi Lie. “E essas muitas zonas de conflito são muito interessantes para filmes e séries. Por isso as histórias também são contadas de modo mais radical: uma tensão permanente predomina na sociedade.”

As informações são da DW.

Tags: #Netflix#Round 6#Séries#Streaming
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