O conto “Alguma coisa urgentemente”, do escritor João Gilberto Noll, foi publicado em Romances e Contos reunidos, Cia das Letras, SP, 1997, e selecionado por Ítalo Moriconi para figurar no livro Os cem melhores contos brasileiros do século, Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2000, p. 416. Adaptado para o cinema por Alcione Araújo e Jorge Duran, com direção de Murilo Sales (1983), Nunca fomos tão felizes tem no elenco Cláudio Marzo, Roberto Bataglin, Suzana Vieira e Antônio Pompêo.
Consagrado nacional e internacionalmente, a história contada é de um garoto chamado Gabriel (Roberto Bataglin) retirado de um colégio interno por seu pai e acomodado num grande apartamento temporariamente. Ele pouco sabe da vida do pai (Cláudio Marzo), – militante terrorista radical, durante o governo do Presidente Médici.
Nunca Fomos tão Felizes é um caso raro de linguagem audiovisual no cinema brasileiro, pois apesar de mostrar a atormentada vida de um terrorista às voltas com uma cerrada ação policial, o filme não se preocupa em fornecer receitas de atuação política, denunciar a tortura ou nem mesmo lamentar o destino de um punhado de jovens que quiseram consertar o Brasil distribuindo rajadas de metralhadora.
Nunca Fomos tão Felizes apenas usa esses elementos abertamente políticos, ou ironicamente políticos, para seguir uma trilha oposta, mostrando a perplexidade daqueles jovens que, na virada dos anos 1960 e 1970, acompanharam de longe os conflitos entre grupos terroristas e o governo militar brasileiro.
Nunca Fomos Tão Felizes ganha sua força mais intensa e cheia de dramaticidade, na transcodificação semiótica, do conto para o cinema, nas imagens que apresenta do que na história que relata. O enredo conta apenas como o jovem Gabriel, depois de passar oito anos internado num colégio religioso em Minas Gerais, é procurado por seu pai e passa viver com ele no Rio de Janeiro.
O pai é uma pessoa misteriosa, que passa vários dias fora do apartamento em que moram, não diz o que faz, tem muito dinheiro e anda armado. Lentamente, Gabriel vai se inteirando das atividades do pai, mas nunca chega a compreendê-las de uma maneira acabada. Enquanto o filme avança, Gabriel permanece no apartamento quase sem mobília, como que hipnotizado pela televisão.
O próprio título do filme é tirado de um slogan difundido pela Rede Globo na década de 70: “Nunca fomos tão felizes”. Mostra a parceria da Globo com o militarismo e o governo da ditadura pós-64.
O filme de Murilo Sales faz uma análise sutil e emocionada do relacionamentos entre pais e filhos, do poder da televisão junto aos jovens que são praticamente abandonados em casa e, em termos genéricos, do isolamento dos guerrilheiros. Exceto na parte política, claramente datada, os problemas abordados em Nunca Fomos tão Felizes são bem contemporâneos, pois a força da cultura de massa, internetizada agora, representada no filme, pela fixação na TV, ainda continua a ser uma espécie de babá eletrônica (ainda também o mundo digital!) para muitas famílias brasileiras e planetárias.
Porém, a grande novidade do filme é que Murilo Salles, com mais de dez anos de experiência como fotógrafo, usa uma linguagem eminentemente visual, já sinalizando para um rompimento da linguagem usada no cinema nacional, ou seja, o cinema de fórmulas fabricadas e clichês, traçando um novo rumo para o audiovisual, baseando-se no grande texto de Noll, tentando, na verdade, redefinir o processo de transcodificação semiótica do conto contemporâneo para um cinema também de imagens, valorizando o significante linguístico na operação de rebater o conto em planos fílmicos. Genial! Vale assistir!








