Quatro contos têm como título Instantâneo, curiosamente, de início, em uma leitura mais ingênua, podem sugerir ser fotografias de máquinas polaroides espalhadas pelo livro, como já foi observado em artigo no Suplemento de Pernambuco, por Bernardo Brayner, em “Interrogações em meio ao jogo de espelhos” (2018).
“Mas fora de ordem porque logo sabemos que começamos pelo Instantâneo (4) e o seguinte o (2) e depois dele o (3) seguido do (1). Este último revela a descrição de um papel pregado na geladeira” (Idem): “Dentes ferozes. Dentro das lentes boiam dois caroços de feijão-preto. Queixo duplo tremendo nos tracinhos do desenho.
Dedo em riste na cara de um garoto esquelético, cabelo pixaim enfiado no crânio como pregos”, em um balão o personagem grita “– Para acabar com os crimes só a pena de morte”. Logo mais no mesmo texto: “O segundo balão flutua sobre a cabeça espetada do menino, completamente encantado com tanta esperança gratuita. – Ela mata fome?”.
Na leitura, logo o leitor saberá que se trata de uma caricatura de Henfil: “O pedaço de papel está rasgado, sem data ou título. Apenas uma assinatura, Henfil.” (Arêas, 2018, p. 54).
Brayner ainda afirma no seu texto: “O que é isso, pergunta o resenhista a cada virada de página. Em uma certa passagem do livro El discurso vacío, de Mario Levrero, lemos: “No tengo, em verdade ya no tengo, curiosidade por conocer respuestas; hoy me basta com las preguntas”. Ainda, conclui: “Talvez essa citação me abra outro caminho pelo livro de Vilma Arêas. É um livro que pergunta.” (Idem).
Uma das perguntas que podemos fazer, por exemplo: A autora, estudiosa da obra de Clarice Lispector, parece dialogar muitas vezes com a ucraniana-pernambucana. Até onde vai essa influência? É o caso das passagens em que mulheres têm encontros inesperados nas ruas, nos táxis, com mendigos. Há aqui uma mistura de grito de revolta, provocação e exercício. Há, também, a tentativa de usar as palavras como vingança contra a injustiça e o poder. Outra pergunta sempre presente: O que essa imagem está escondendo? Brayner, (op. cit)
Não acho que Vilma Arêas especula sobre a fotografia, apesar de dar título de “Instantâneo” a 4 dos seus contos. No entanto, traz para o palco contemporâneo várias questões, que nos são apresentadas em linguagem rica, de diálogos ficcionais e observações do narrador sempre onisciente com voz de alteridade, suas imersões na literatura, falando da literatura todo o tempo, relembrando sem querer ser memorialista, mas incisiva no valor que dá a certos fatos do cotidiano, da intelectualidade e do relacionamento social entre pares e pessoas, de forma muito rápida, mas com dialogicidade ímpar, fílmica, rápida, de corte.
Em um Instantâneo ela escreve: “Há algo na foto que não deveria ser mostrado? Por exemplo, a sugestão de que, para o desconsolo de muitos só reste um abrigo de pedra?” e logo mais: “Uma última questão: estaremos discutindo insensatamente uma afirmação do senso comum de que boa fotografia não pode mentir?” e então: “Estes são os volteios – deslocamentos, metáforas etc. – que fazem com que a literatura às vezes nos envergonhe. Mas como foi dito antes, embora se adivinhe tudo, nada se vê direito nesta cópia desbotada”.
Tanto é fílmico que Brayney ainda afirma (op. cit.) “Em um trecho que poderia estar no filme sueco The square vemos uma escritora que, em uma entrevista, é acusada de ter um relacionamento pedófilo com o tio. O que nos é dado a conhecer são apenas as respostas da entrevistada, que fica cada vez mais perplexa com o comportamento da plateia.”
No Instântaneo (2), descreve uma capa da revista Carta Capital. Um policial agride uma criança e mais uma vez a autora faz perguntas sobre o que é privado e o que é público, o que é obsceno e o que não é, como se cutucasse a milícia fascista do MBL. Rasga a fantasia: “Mas sabemos que os centros de privacidade se transformam com o tempo e apenas em algumas culturas a fome, a morte e a doença são consideradas obscenas”.
Torna assim, seu texto bastante social, político e alimentado (ou atormentado – gosto de termo!) por suas experiências e juízos de valor: “A própria foto, de duração precária, só existe refletida nos olhos dos leitores da revista, dias após o flagrante, já exibindo a rigidez post mortem. Evidentemente, do ponto de vista da jogada, estão todos mortos.” (ARÊAS, 2018, p. 30)
A casa descrita em Instantâneo (3) “lembra a casa de um livro anterior, Vento sul (2011)”, afirma Brayner (op. cit.): “Os batentes de madeira estão rachados. A rua não é asfaltada. Pedras soltas, de tamanho variado, se espalham pelo barro”, em Vento sul: “À medida que a casa se despovoa, ele desdobra os espaços, puxadinho no quintal, varanda nos fundos”. Espaços abandonados pelos seus habitantes de diferentes formas. “A cena se passa…).”
As descrições de casa de Arêas – aqui fica clara sua atenção aos espaços – reaparecem no penúltimo texto do volume, chamado Instantâneo da desmedida: “Ela ultrapassou o umbral, observando que pelo lado de dentro a porta era igual à de uma casa velha, de madeira, gasta, esfolada. A exposição era Desmedida, de Rochelle Costi (...) Tratava-se de uma casa antiga com muitos aposentos, expondo objetos, coisas, instrumentos de trabalho de tamanho descomunal. Num dos quartos um monte de carvão, ou pedras escuras se acumulava até a metade das paredes”. O que significaria uma casa vazia cheia de objetos imensos, pergunta um personagem. Talvez esse livro seja mais um enigma apresentado a Alice em um país de espelhos. (Brayner, op.cit.).
São cenas. Não se esqueçam, leitores, que um filme é editado com vários quadros-instantâneos que só formam a sequência na edição. Essa forma que nos traz Vilma, meticulosamente superposta nas narrativas, com narradora que “experimenta uma colisão consigo própria” (CHAVES, p. 94), com cenário, personagens e ação, que pelo fôlego urgente da narrativa tira a imobilidade da fotografia que poderia ser, pois dinamizam as narrativas com descrições, observações e juízos de valor e dão uma unidade ímpar ao livro, como um texto que tem um tom sintópico e engajado, dramatizado e fílmico, faz do leitor cúmplice de uma “experiência de embate” ( não é à toa que nos deparamos logo antes do primeiro conto com a introdução, pela autora, de dois sentidos da palavra recorte, 1.“terreno da verdade”, “arena, o lugar de combate”, e 2. “derivado de rocordar, “tener recuerdo de algo”.
São duas pistas fundamentais para entendermos o ponto cego da obra, sua articulação e sua forma intragenérica de rica linguagem, o que também nos entusiasma, enquanto leitores, ao nos intrometermos, com nosso recorte, e encararmos o terreno na recepção, ou seja o embate com texto ricamente literário. Tudo isso, acredito, no comando de uma narradora que conduz o embate texto X leitor, com um resultado bem positivo.
Rita Chaves, no posfácio ao livro, escreve que “Rompendo a penumbra, vamos nos confrontando com as marcas duríssimas da desigualdade social que, abraçadas ao racismo, dão a tonalidade de uma sociedade injusta, hostil aos pobres, enredada em mecanismos que põem em causa inclusive a nossa consciência (…) (p. 94)”.
1, Velórios
Quem morreu não foi ela, foi a imã. Ele continua bebendo. Emília teve uma filha boba. Boba ligada. Olhinho mau, faiscando perverso. Também, o que você queria? O pai acordava a menina pra bater quando chegava bêbado de madrugada, No dia que recebia o salário.
- O pai, o irmão e o filho tinham o mesmo nome.
Quando menos se esperava, o irmão levantou-se no lusco-fusco dos vitrais da igreja, aproximou-se aos soluços do caixão e esbofeteou a irmão morta. Eu te amo, gritou para ela cara a cara, atirando as flores para longe, Derrubando velas, tentando arrancá-la dali pela cintura. (p. 59) (...)
- Valtinho
a) Golpe de 64. Reunião na sala, com filhos, amigos etc. De repente ele vem lá de dentro de pijamas, completamente bêbado, se detém no meio da sala, atordoado. Depois se aproxima do piano, levanta a tampa, tira o pau pra fora, urina. b) Alguns anos depois Me abriram no meio Depois fecharam E o pulmão começou a dar bolo. Não tenho esperança de voltar a clinicar Não tenho esperança de mais nada Perdi tudo. (p.61)
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Amor
Je-ro-se-li-na – ela escandiu sílaba por sílaba – é este o meu nome. Mas ele me chama de Linda. É meu marido Aderbal. Ele só come a comida que eu faço. Podem oferecer o que quiserem, Qualquer coisa, Ele recusa. Ele só come a comida que eu faço. 6, Família - Vicente, Minoia é irmã de Nhanhá?? - Não, é irmã de vovó Sinhá. Nhanhá é filha dela. - Dela quem? De Minoia. E irmã de Dora e Mário, além de Branca. Pausa. Mas já estão todos mortos, assim como eu.
Esses fragmentos de “Minúsculas” são bem fortes, de apelo altamente político, fragmentados propositadamente, traçando um elo profundo entre o golpe militar de 64 e as famílias tradicionais, propriedade, enfim, tudo que nos dias atuais hão de ter suas relações com o cotidiano perverso, mesquinho e transgressor da ordem estabelecida pelo abuso de poder.
A morte real e a morte interior, seja na tortura, na bebida, na desagregação do lar, na fragmentação e perseguição à intelectualidade ou, não menos, nas consequências do pesadelo, como em “Natureza viva”, onde os oximoros e paradoxos podem deixar o leitor atônito, mas é a vertigem do pós-morte, do fabuloso mas nefasto imaginário onírico que traz também o horror enquanto sinédoque do embate contemporâneo, política, cultural e socialmente expostos à morte, ao degredo, à escuridão.








