Advindo da geração marginal dos anos 70, do século XX, o poeta ainda carregou como vaticínio marcas sociais marginalizadas. São suas as palavras que o qualificam como poeta “negro, pobre e veado”. Foi rotulado como maldito e lúcido, dentre muitos outros adjetivos.
Essa “moda” mimeógrafo chegou ao Espírito Santo em 1979. Revelando, de início, um exaltado ímpeto juvenil, tendo o sofrimento e atrevimento se juntado ao agudo senso de pesquisa, Waldo penetrou mais fundo nos temas noite, perigo, escuro, becos e as personagens que ali habitam, esquisitos, excluídos, malditos, marcados e mostrou a todos em seus versos o lado selvagem da rua, a violência e o amor/desespero.
É de Waldo Motta (1987, p. 38) “Ah, corpo”:
Em plena madrugada, /o bofe insistindo /num papo alto demais/ para seres inframundo/ Enquanto ele adejava pelo espaço/ (do quarto de pensão com os mosquitos) a mim,/ que pouco interessam/ senão as coisas mais baixas, mais terrenas,/ o desprezo que ele dizia ter pelas coisas do corpo – magro e desnutrido,/ mas belíssimo para essa minha fissura vesga –/ só me desenganava, porém não me convencia. /Através de sua quase transparência /(de fomes recolhidas na ascese um tanto forçada pela pindaíba),/ procuro esquadrinhá-lo, /entendê-lo/ Sucede que no auge das viagens/ intempestivamente, trovejante, /um barulhinho de fome nas tripas do santo /o bofe despenca e, ploft!, /se espatifa no concreto /em sua ordinária e infame realidade/ pele e osso e necessidades./
Vê-se que a poesia marginal de Waldo Motta se distancia bastante, pela temática e pela forma, das preocupações ou do teor político daquelas de Leila Mícolis, Álvaro Alvim, Chacal e Charles e até mesmo Cacaso e outros.
Em 1979, Waldo Motta publicou Pano Rasgado, seu primeiro livro de poemas, edição marginal. A partir de então é de expressiva continuidade sua produção poética em edições alternativas: Os anjos proscritos e outros poemas (1980); O signo na pele (1981); Obras de arteiro (1982); As peripécias do coração (1982); De saco cheio (1983); Salário da loucura (1984).
Em 1987, a Fundação Ceciliano Abel de Almeida legitima a publicação intitulada Eis o homem, com poemas escritos entre 1980 e 1984. Três anos depois, sairia Poiezen (1990), pela Massao Ohno (São Paulo), uma antologia de dez poemas que se constroem filosófica e linguisticamente.
Em 1996, a Editora da Unicamp publica Bundo e outros poemas. Transpaixão (2009) é uma coletânea de poemas selecionados de vários livros de Waldo Motta. Nas quatro vertentes temáticas (social, existencial, metapoética, intratextual) em que a obra se divide, o poeta mostra o seu processo de evolução estética e maturação espiritual. Porém, a maior novidade desta obra, indicada para o Vestibular da UFES 2010-2012, é que além de tratar explicitamente de temas esotéricos como a cabala, a numerologia, cosmovisões indígenas e afro-religiosas, ela radicaliza a intratextualidade.
Eis o homem é o volume 30 da Coleção Letras Capixabas, da FCAA, então editora oficial da Universidade Federal do Espírito Santo. À época, chamado de “poeta indomável cobaia de um homem maldito”, Waldo Motta estava seriamente empenhado no estudo de sonhos, do contato com o I-Ching e na busca do seu interior humano. Sua postura de afirmação do indivíduo consiste, nesse livro, “num confronto com a realidade por uma busca de afirmação do indivíduo perante essa realidade massacrante”.(Aguiar 1984).
A poesia de Waldo Motta se configura sobretudo dentro do que ele mesmo caracterizou como “incômoda”. Contudo, a sua produção mais recente vem mostrar, além do “enjoo” provocado pela sujidade dos temas, pelo escatológico em excesso, pelo homoerotismo frequente, condutor de certas perversidades religiosas e mundanas, um certo erotismo sagrado, mas sectário.
Seus poemas são permeados pelo deboche, pelo escracho e pela sardonia mais latente, jogando o poeta, em sua radicalidade maldita, no campo de uma poética que se procura na pesquisa e na forma:
“Eu aprendi a captar Deus através dos paradoxos. Veja bem: para termos uma percepção mais plena de Deus, temos que admitir que ele é também essa beleza. No entanto, ele há de ser, primordialmente, o feio, o não aceito, a merda de onde todas as coisas se engendram” (1997, p. 21).
E vai mais além:
“Porque se Deus é a totalidade, aí nós temos que incluir o feio, o horroroso. Eu prefiro a visão de um Deus, que se confunde com a merda, com o cu, com o feio, com o proscrito e com o marginalizado”. (1997, p. 21).







