Fui ao Museu de Arte de São Paulo (Masp) no domingo ( 28) ver a exposição “Tarsila Popular”. A curiosidade que atraía a maioria das pessoas: ver de perto o “Abaporu”, pintura que é uma das marcas registradas da artista Tarsila do Amaral, um dos ícones da Semana da Arte Moderna de 1922.
Ao final saí com uma experiência única, que só a arte pode proporcionar. Constatei que, passados 90 anos do lançamento da obra de Tarsila, ainda somos um Abaporu, mas sem a antropofagia proposta na obra.
Estamos nos transformando em auto-retrato, emoldurado e passivo. Conscientes mórbidos da transformação que acontece à nossa volta.
A OBRA ANTROPOFÁGICA
O Abaporu é certamente o quadro mais famoso da pintora paulista. Dentro do movimento antropofágico que defendeu junto com os irmãos Mário de Andrade e Osvald de Andrade, alimentou culturalmente o Brasil, valorizando suas histórias, definindo uma identidade de país e de seus verdadeiros valores: a brasilidade.
A pintura sintetiza o ambiente em que foi criada, um Brasil em transformação, saindo de uma economia agrária, no limiar da urbanização, da industrialização e suas contradições.
A Semana da Arte Moderna de 1922, ano de transformações que já respirava a queda da velha república e a chegada da revolução de 30, emergiu com a crítica social, com forte teor político, ingredientes que ainda mantém atual o manifesto do movimento.
PARA ENTENDER O ABAPORU
Os pés e mãos enormes deste personagem simbolizam o trabalho braçal exaurido, um tapa neste país que precarizou o trabalho na era Temer e na vigência do Bolsonarismo. Tarsila eternizou a imagem do personagem tomado pelo cansaço e sem a mínima valorização. É o homem castigado pela exploração, sempre a serviço da economia, mas relegado à miserabilidade no fim de sua etapa.
Ainda somos os mesmos, acompanhando apenas as mudanças tecnológicas, assistindo o direito ao descanso após anos de trabalho ser reduzido a um fim de vida miserável.
A cabeça pequena de Abaporu reflete a falta de importância que se dá ao conhecimento. Em um país onde a força de trabalho é prioridade, a mentalidade, consciência e liberdade de pensamento são reduzidas de todas as formas.
Hoje, assistimos críticas quanto aos cursos de filosofia e sociologia e um um discurso favorável aos cursos técnicos, ou seja, a força de trabalho. Pensamento e força vivem em choque nesta nova dinâmica de governo. São úteis, desde que estejam a serviço do capital.
O trabalho rural e o solo tem na pintura do sol sua identificação. É curioso que um país com ampla área rural ainda consiga ser desigual. Em tempos que o meio ambiente e sua preocupação é mundial, temos a liberação de dezenas de agrotóxicos e a invasão de áreas indígenas para exploração.
E o cacto, símbolo de resistência e resiliência, contrasta com que estamos nos transformando: seres sem a mesma capacidade deste arbusto. E como manifesto, uma desilusão. Não conseguimos nos alimentar de nossa brasilidade. Não nos aceitamos. Ainda queremos ser o outro, de fora.
Não entendemos que só nos observando, nos valorizando, conseguiremos imprimir nossa identidade e assim crescer como nação e como sociedade.
No atual estágio, continuamos reduzidos a um quadro. Parece belo e profundo, mas comprova que somos tristes espectadores auto-emoldurados.








