Sem dúvida, estamos em uma crise insólita e cruel, o mundo, o planeta, presa de uma síndrome de colapso e o sistema dividido e moribundo. E uma pandemia que assola sem pena. É tempo de Ilustração.
Os ensaios recolhidos em As razões do iluminismo (ROUANET, 1987), a priori, pode-se afirmar, tentam refletir sobre três crises interligadas, que se manifestam hoje em dia no Brasil e no mundo, sob a forma de três rebeliões: contra a razão, contra a modernidade e contra a Ilustração. Principalmente na figura esdrúxula e desumana de nosso eleito presidente, pode-se traçar alguns paralelos reais entre o ensaio de Rouanet e nossa realidade.
Em Rouanet, nos três casos, o autor assume uma posição a contracorrente e propõe um resgate crítico do conceito de razão, do projeto da modernidade e do legado da Ilustração. Por mais que isso possa parecer muito teórico e difícil, vou tentar resgatar o mote maior dos ensaios.
Resgate por quê? Porque sem a razão não podemos combater as forças que asfixiam a vida; sem os instrumentos de análise gerados pela modernidade não podemos reagir contra as patologias da sociedade moderna, e sem os valores da Ilustração não podemos transformar o mundo nem criar condições para uma liberdade concreta e completa lato sensu.
O resgate, contudo, será necessariamente crítico, pois não é possível ignorar os aspectos repressivos do racionalismo clássico, as perversões da moderna civilização industrial e as ingenuidades e simplificações da época das Luzes. Diante disso, Rouanet advoga, pleiteando um novo racionalismo, baseado em Freud e na teoria da ação comunicativa; realiza um confronto polêmico com a modernidade a partir da própria modernidade, rejeitando, portanto, todas as perspectivas pós-modernas, e reivindica a necessidade da reconstrução do palco da ilustração.
Ao pensar criticamente, pela minha formação acadêmica, acho realmente que só podemos fazê-lo, de modo não arbitrário, se recorrermos à Ilustração. Partiríamos do seu acervo normativo e o corrigiríamos à luz de fatos e tendências posteriores. Assim, o novo Iluminismo proclamaria sua crença no pluralismo e na tolerância, combatendo todos os fanatismos, sabendo que eles não se originam da manipulação consciente do clero e dos tiranos, como julgava a Ilustração, e sim da ação de mecanismos sociais e psíquicos muito mais profundos.
Neste exato momento trágico vimos reviver doidivanamente a crença no progresso, mas o dissocia de toda filosofia da história, que o concebe como uma tendência linear e automática, e passa a vê-lo como algo de contingente, probabilístico e dependente da ação consciente do homem.
O único progresso humanamente relevante é o que contribui de fato para o bem-estar de todos, e os automatismos do crescimento econômico não bastam para assegurá-lo.
O progresso, nesse sentido, não é uma doação espontânea da técnica, mas uma construção intencional, pela qual os homens decidem o que deve ser produzido, como e para quem, evitando ao máximo os custos sociais e ecológicos de uma industrialização selvagem. Esse pretenso progresso não pode depender nem de decisões empresariais isoladas nem das diretrizes burocráticas de um Estado centralizador, e sim de impulsos emanados da própria sociedade.
O Iluminismo mantém, APESAR de sua fé na ciência, o saber que ela precisa ser controlada socialmente e que a pesquisa precisa obedecer a fins e valores estabelecidos por consenso, para que ela não se converta numa força cega, a serviço da guerra e da dominação.
Repõe em circulação a noção kantiana da “paz perpétua”, com pleno conhecimento das forças socioeconômicas que conduzem à guerra, ou à qualquer outra hybris trágica. Resgata o ideal do cosmopolitismo, do Weltbürgertum, sabendo que nas condições atuais a universalidade possível não poderá ir muito além da esfera cultural.
Assume, assim, como sua bandeira mais valiosa a doutrina dos direitos humanos (e não pode ser diferente!), sem ignorar que na maior parte da humanidade só profundas reformas sociais e políticas podem assegurar sua fruição efetiva.
No Brasil, cabe o pensamento de ao combater o poder ilegítimo, consciente de que ele não se localiza apenas no Estado tirânico, mas também na sociedade, em que ele se tornou invisível e total, molecular e difuso, aprisionando o indivíduo em suas malhas tão seguramente como na época da monarquia absoluta, pois apesar de haver luta pela liberdade, cônscio de que ela não pode ser apenas o do citoyen rousseauísta, mas tam- bém a de todos que se inserem em campos setoriais de opressão, regidos por versões “regionais” da dialética hegeliana do senhor e do escravo, como a relação homem-mulher, heterossexual-homossexual, etnia dominante-etnias minoritárias.
Advoga, sim, uma moral não-repressiva, derivada da moral da Ilustração, que favoreceu a plena liberação das paixões, mas não a funda em uma razão legiferante, que descobre por atos individuais de intuição normas válidas para todos os homens, e sim em um processo consensual que permite o trânsito de uma normatividade heterônoma para uma normatividade autônoma.
Sabe, enfim, Rouanet, que grande parte desses valores só podem ser realizados pela mudança das relações sociais, mas não desconhece que as tentativas até hoje empreendidas para mudá-las levaram a novas formas de tirania. São indicações esparsas, mas suficientes para mostrar ao mesmo tempo a possibilidade de construir uma ética iluminista baseada nos valores da Ilustração e a necessidade de retificar esses valores. Teríamos assim concluído a primeira etapa — a definição estrutural do Iluminismo — e a segunda — sua fundamentação normativa.
Mas esse Iluminismo seria uma simples fantasia subjetiva se não correspondesse a tendências efetivamente presentes na sociedade. Resta, portanto, uma terceira etapa: submeter essa construção à prova da realidade, mostrando que ela se vincula a uma base material.
Esse requisito parece ser atendido pelas análises de Habermas, que sugerem a existência de um Iluminismo espontâneo, em estado prático, incrustado nas estruturas da comunicação cotidiana. Esse Iluminismo pré-reflexivo contém todas as dimensões que vimos neste artigo até agora: os dois elementos estruturais, a razão e a crítica, e o acervo normativo. Ele dispõe da razão, que é mobilizada em cada ato comunicativo para propor e refutar argumentos, e dispõe da crítica, que ocorre naturalmente sempre que um dos interlocutores identifica no discurso do outro motivações de poder subjacentes.
Por outro lado, ele trabalha com um patrimônio de valores iluministas implícitos, que se atualizam sempre que se instaura um processo comunicativo, que supõe, desde o início, que o homem é capaz de saber e de veracidade, de justiça e de autonomia, de diálogo e de entendimento mútuo, mesmo que no curso da comunicação esses pressupostos se revelem contrafactuais.
O novo Iluminismo teria assim um chão social, pois se vincula, enquanto construção teórica, a esse Iluminismo espontâneo. Um Iluminismo novo, assim concebido, tem de lutar em muitas frentes e expor-se a muitos inimigos. Ele será atacado por uma velha direita, que o responsabilizará pela dissolução dos valores tradicionais. Será atacado por um pensamento ultraliberal-conservador moderno, que acha que no mundo de hoje não cabem mais críticas globais, porque no essencial a batalha iluminista já foi ganha pela Ilustração.
Será atacado por uma esquerda clássica, que verá em suas palavras de ordem resíduos da ideologia burguesa. E será atacado por uma nova esquerda irracionalista, que considera toda razão repressiva e ditatorial — a razão dos maitres-penseurs. Mas ele tem força suficiente para resistir a todas essas correntes. Sua resposta à direita é simples: ela tem razão.
A tarefa do Iluminismo é realmente a de criticar todos os valores transcendentes, e se penitencia apenas por não ter levado suficientemente longe o seu trabalho de laicização. Ela responderá ao liberalismo atual que não é verdade que as sociedades industriais contemporâneas representam a cristalização dos ideais iluministas e que a missão do Iluminismo é criticar todas as formas de dominação ilegítima, inclusive as radicadas nas democracias modernas (nosso caso bem explícito!).
Responderá à velha esquerda que um socialismo que admite perversões autoritárias tem de ser classificado, sumariamente, como contra-iluminista. E responderá à esquerda irracionalista dizendo que sem a razão a crítica é suicida, porque acaba denunciando o que é preciso manter e poupando o que precisa ser denunciado.
Em suma, enquanto unidade de razão e de crítica, o novo Iluminismo saberá afirmar seu vetor racional diante dos que realizam uma crítica irracionalista e seu vetor crítico diante dos que consideram irracional qualquer razão que não glorifique o sí tu quo. Equipado com um novo modelo de razão e um novo conceito de crítica, dispondo de um acervo de valores próprios, que não coincidem inteiramente com os de nenhuma outra corrente, e enraizado num solo social que o salva de todo idealismo, o novo Iluminismo estará pronto para prosseguir a tarefa que a Ilustração não pôde concluir.
Hoje como ontem, é preciso combater todas as instâncias que promovem a infantilização do homem, ou sua imbecilização, impedindo a realização do ideal maior da Ilustração, a maioridade, a Mündigkeit.
No passado, o homem lutou contra a religião, que submetia o homem a poderes heterônomos. Mas o trabalho de secularização ficou incompleto, e devemos continuar combatendo as religiões, e mais ainda as profanas — as da nação, da raça, da classe, do Estado, da exploração pelo dízimo —, que engendram um fanatismo tão obscurantista quanto o que Voltaire quis combater no século XVIII.
O novo Iluminismo concorda com Kant em que é necessário ousar saber, e para isso propõe uma nova razão, e remover todas as tutelas, e para isso propõe uma nova crítica. O objetivo é o mesmo: assegurar, enfim, o advento da autonomia — integral e para todos. Tentar resgatar a razão, a modernidade e a Ilustração numa época tão marcada por tendências antirracionais, antimodernas e antiiluministas tem qualquer coisa de quimérico, pois desafiam e enfrentam abertamente o espírito do tempo.
Mas não é a primeira vez que se procura “escovar a história a contrapelo”. Para sermos plenamente modernos, temos muitas vezes de correr o risco de sermos arcaicos. Mesmo que Jean-François Lyotard tenha razão quando decreta a extinção dos ideais setecentistas, não é inútil invocá-los, porque sua rejeição pelo presente diz mais sobre esse presente que muitos conceitos extraídos da atualidade mais viva.
A relevância contemporânea de certas ideias pode estar em sua obso- lescência, porque elas testemunham contra um presente que as transformou em anacronismos. Para usar uma linguagem benjaminiana, não devemos hesitar em convocar o passado para depor no processo que o futuro move contra o presente. Na pior das hipóteses, este livro poderá contribuir para enriquecer os autos desse processo.
Torçamos para que essa teoria, tão clara, tão óbvia, principalmente, na crise de hoje, pela qual atravessamos no mundo e mais particularmente no Brasil, se abrigue no bom senso de alguns mandatários. Salve a vida! Salve a ilustração, a nova ilustração! (1). Abaixo a tirania ignóbil, suja e perversa e burra!
(1) Ilustração é Informação, isto é a resultante do processamento, manipulação e organização de dados, de tal forma que represente uma modificação (quantitativa ou qualitativa) no conhecimento do sistema (humano, animal ou máquina) que a recebe.








