Múltiplo, plural, diverso, variado, enfim, que predicativo melhor qualifica Nuno Ramos, poeta e artista plástico? Não é simplório delinear o caminho percorrido por este artista/poeta multifacetado que se destaca quando expõe, por meio de sua arte, seus pensamentos e teorias. Devido à transgressão aos padrões instituídos e à matéria-prima eleita para suas construções artísticas, ele desmonta os que esperam de um artista a obviedade, pois são os não lugares os mais perseguidos em suas obras.
Muitos, inclusive, o classificam como um artista plástico aventurando-se pela literatura, mas ele próprio se vê justamente de forma contrária, uma vez que, antes de atuar nas artes plásticas, foi um leitor contumaz: “Meu ingresso no negócio da arte foi feito pela palavra, não tinha nada a ver com as artes visuais.” (RAMOS, 2011, p.13)
No contexto da arte, a linguagem de Nuno Ramos postula-se, nesse contexto, como acontecimento exterior ao corpo, uma ferramenta necessária e, ao mesmo tempo, inútil diante da dor do corpo, da dor da morte, da mudança. Por meio da sua literatura instaura-se a hipótese de um corpo profundo, situado no limite da própria linguagem. Seria a linguagem, então, liberdade ou prisão?
A linguagem é matéria? Se ela é ferramenta, ela tem que ser criada? E aí os conceitos se complicam. Temos que saber de que é feita essa ferramenta – a linguagem. Por isso é interessante salientar que para ver a materialidade dessa ferramenta seja necessária a entrada da literatura, com suas dúvidas, com sua predisposição à falência, com sua mediação confusa, como nos afirma D’Angelo (2011, p. 311).
No entanto, a crítica literária já contabilizou a favorável reflexão suscitada pela leitura da obra de Nuno Ramos: as temáticas se imbricam pelos caminhos percorridos, vivenciados, endereçados pela literatura na atualidade. O próprio Biaggio D`Angelo sintetiza essa percepção quando assevera que “(…) a literatura – como qualquer outro discurso estético contemporâneo – é um ato de resistência e de regeneração vital que se apoia na incoerência da linguagem.”
Há sem dúvida um processo de inanição cultural permeando a atualidade num grau que ocasiona reflexões aprofundadas acerca de uma constatada crise. Como um caminho cheio de labirintos. Neste caminho, predomina uma questão que lega a nós, neste século, uma perda de paradigmas, vazios utópicos limitando a projeção do homem. Essa constatação, no caso da literatura brasileira, cria um panorama de infertilidade que impossibilita aproximar arte e vida.
O desfecho dessa trajetória certamente pode ocasionar prejuízos, pois impossibilita o estímulo do imaginário, imprescindível para oportunizar reflexões acerca desse tempo. Do aqui e agora. Como? Propondo novas alianças, novas lutas. O desafio está proposto a todos que servem à arte literária.








