IX Flip – Lima Barreto: Transgressões para homenagear o transgressor; debates sobre multiculturalismo, Umbanda, Candomblé e Homoerotismo
Entre “Uis” e “Ais”, protestos e delírios, a historiadora Lilia Moritz Shwarcz e o ator Lázaro Ramos (foto acima) deram a aula inaugural da IX FLIP na Igreja Matriz de Parati, uma aula performática e dramática sobre o homenageado, o escritor Lima Barreto, que segundo a crítica e professora Beatriz Rezende odiava religião. Interessante, então, porque Lima foi homenageado na Igreja da Matriz, onde palestrantes discutiram temas associados à Umbanda, Candomblé, Homoerotismo, Direitos Humanos, Racismo, Sexismo, etc.
Quem é Lima Barreto? Falarei um pouco da obra desse carioca suburbano e marginal.
Em Triste Fim de Policarpo Quaresma, romance de Lima Barreto (1915 [2001]), o narrador constrói para Quaresma uma noção tensiva de pátria: romanticamente afirma as insígnias da brasilidade moderna pelo gesto passadista, ao mesmo tempo o satiriza ao engajá-lo à política-militar – “o hálito da Pátria” – de um “ministério liberal” em que ele toma uma posição conservadora.
Isso é bastante significativo no sentido de colocar em funcionamento dois planos: o satírico – narrador – e o caricato neo-utópico – a melancolia e a loucura de Quaresma. Por uma perspectiva onisciente, o narrador para alçar o objetivo de dinamitar a mitificação simbólico-nacional de Quaresma, ora cola-se ora distancia-se da sua visão de mundo limitada.
A partir da ilusão de autonomia colocada pelo narrador na construção de Quaresma, vejo que ele busca a semelhança do mesmo – retornar a um mundo primitivo alicerçado por valores supostamente originais, onde já está figurada uma outra realidade.
Esse lugar dissonante impostado pela figuração de Quaresma em um espaço antagônico aos signos do patriotismo que o constituem supõe justamente uma sátira construída pelo narrador para desmontar a tópica do nacionalismo que ainda prevalecia como tema na Literatura Brasileira a partir do paradigma da imitação. O narrador o “amarra” aos bens empíricos “dos dourados do exército” construindo-lhe uma espécie de clã dentro do arsenal, em que trabalhava “em silêncio para a grandeza e emancipação da Pátria”. Tudo isso nos é narrado em tom croniquesco.
A estrutura tripartite da narrativa acompanha os trânsitos culturais e os efeitos de saber com os quais o Major Quaresma tentou implementar, em diferentes espaços ou circunstâncias, as reformas necessárias para a Pátria. Cada parte de Triste Fim de Policarpo Quaresma pode ser compreendida como um espaço ficcional em que um projeto político é tentado.
Em Triste Fim de Policarpo Quaresma, (1915 [2001]), pode-se observar que Lima Barreto, por meio do protagonista Policarpo Quaresma, aponta o Brasil a partir de uma face cultural bem contemporânea. Ao descrever a personagem e os seus hábitos e desajeitos, o autor nos revela diversos elementos da história e da cultura brasileira, já ao rés-do-chão:
Durante os lazeres burocráticos, estudou, mas estudou a Pátria, nas suas riquezas naturais, na sua história, na sua geografia, na sua literatura e na sua política. Quaresma sabia as espécies de minerais, vegetais e animais, que o Brasil continha; sabia o valor do ouro, dos diamantes exportados por Minas, as guerras holandesas, as batalhas do Paraguai, as nascentes e o curso de todos os rios. Defendia com azedume e paixão a proeminência do Amazonas sobre todos os demais rios do mundo. Para isso ia até ao crime de amputar alguns quilômetros ao Nilo e era com este rival do “seu” rio que ele mais implicava. (BARRETO, (1915 [2001], p. 4).
Ainda em relação às questões culturais, pode-se observar que Policarpo, em sua marginalidade periférica, decide aprender a tocar violão, uma atividade que àquela época era considerada ultrajante pela sociedade. A personagem toma essa decisão após saber que o violão é um instrumento que faz parte da cultura e história do Brasil e deixa isso bem claro na afirmação que faz para sua irmã Adelaide.
Pode-se dizer que assim está a IX FLIP, uma homenagem ao marginal, à classe oprimida, aos negros, aos homossexuais, aos umbandistas e candomblecistas, aos TRANS lato-sensu. Sucesso pleno!!!








