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Poesia: Rogério Salgado, sal da terra, sal da palavra Volúvel Fado

Recebi do poeta campista Rogério Salgado seu livro Volúvel Fado, juntamente com outro título; Nos detivemos em análises e comentários sobre o Volúvel Fado. O outro ficará para uma breve ocasião.

João Vicente Por João Vicente
02/01/2023 - 20:18
em Cultura
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Poesia de Rogério Salgado: análise de João Vicente Alvarenga

Poeta Rogério Salgado | Foto: Páginas Editora/Reprodução.

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Toda palavra é um instrumento político. É do ser da palavra produzir convivência, continuidade, descontinuidades ou rupturas. Daí a relação intensa, profunda e profundamente íntima da palavra com a política. A palavra é, dessa maneira, o instrumento primaz e primordial da política.

Pela palavra construo alianças, consensos e unidades. Reforço convivências ( … ). Mais do que um ajuntamento de signos, com sentido objetivo e prático, a palavra é fluxo ininterrupto de símbolos e historicidades que confere existência inteligente e sensível àquele que a emite, bem como àquele que a recebe e, inevitavelmente, a internaliza. Por isso, ouvir algo pode ser uma experiência profundamente perigosa. (Do dito pelo não dito, 16 de Julho de 2015).

Em uma de suas máximas desafiadoras, o crítico americano Harold Bloom (1930-2019) fez uma observação sobre o poder de atração da literatura que pode ser estendida ao entretenimento em geral: “É difícil continuar vivendo sem alguma esperança de encontrar o extraordinário”, coisa que o autêntico poeta sabe fazer. 

Quem escreve poemas, escreve, porque num tempo qualquer, na mais longínqua eternidade,  se fez íntimo ou cúmplice das palavras, privilégio de Deus/dos deuses. É essa capacidade de conectar os humanos ao sublime, de comover, fazer sonhar, provocar o pensamento e surpreender é que torna o cinema, a TV, os livros, a música e as artes plásticas, itens tão relevantes na vida cotidiana, quanto os desdobramentos concretos da política ou da economia, contra os quais a poesia abre confronto, porque desprezou técnicas de oratória e discursos bem treinados. 

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A política e a oratória são o outro lado da moeda. Pertencem aos sofistas e não à poesia! Os sofistas correspondem aos filósofos que pertenceram à “Escola Sofística” (IV e V a.C), composta por um grupo de sábios e eruditos itinerantes, que dominavam técnicas de retórica e discurso, e estavam interessados em divulgar seus conhecimentos em troca do pagamento de taxa pelos estudantes ou aprendizes. Alguns os consideram os primeiros professores da humanidade, e aqueles, a incipiente classe dos educandos, que se expunham à mentira, ao conteúdo enganoso, a informações mal utilizadas, levando o estudante a confusões e equívocos dos confusos sofistas. 

A palavra é, enfim, a nervura mais sutil da política e, definitivamente, não existe palavra sem uma densa substância política que lhe garanta conteúdo e autonomia, o que deve-se evitar sempre. Não é estranho dizer que fazer política, e seja em que nível ou dimensão que for, é de outro modo, disputar palavras, seus sentidos e compreensões, visando alterá-las em favor de si, de algo ou de alguma causa.

Assim, casualmente os “melhores” políticos são os que mais e melhor sabem andar nos delicados labirintos das palavras porque, se bem entendidas, enunciadas e comunicadas, elas, as palavras, adentram nos juízos alheios, impregnam as sensibilidades daqueles que as internalizam. E a metamorfose, mais fantástica e impressionante, ocorre no interior deste ser humano porque a “química das palavras” faz e refaz compreensões, condiciona comportamentos, altera sociabilidades. (CAVALCANTE, s/p, 2015).

Os sofistas podem parecer que sejam portadores de um combativo espírito de vanguarda, por se voltarem contra a tradição e os costumes. Os sofistas rompem com a tradição pré-socrática, ao criticar os costumes e as tradições da sociedade ateniense da época.

Note que a palavra “sofista”, de origem grega, “sophistes”, corresponde a um termo derivado de “sophia”, ou seja, que se traduz ‘sabedoria’.

Dessa maneira, os jovens gregos, bem-nascidos, buscavam os sofistas interessados em adquirir conhecimentos e, especialmente o “aretê” –  era o conceito grego que denotava nobreza, excelência e virtude e, no caso dos sofistas, a união dos conhecimentos gerais indispensáveis – (mais precisamente nas áreas da oratória, retórica, ciência, música e filosofia), era sobremaneira relevante, uma vez que na Grécia Antiga a função política, era muito destacada, vai depender sempre do bom uso da palavra.

Política pressupõe o bom uso da palavra. Ou seja, a palavra é serva da política. Podemos afirmar que desde a Grécia Antiga, ao século XXI, a prática da fala inescrupulosa torna o ser humano portador dos mais mesquinhos instintos de fraude ou da dominação (e fake news, má utilização da informação, desinformação).

O que faz o marketing moderno? Diz palavras com cores, nuanças e efeitos especiais. Dá sabor para o texto, põe nuvens, praias e muito prazer em todas as sílabas de uma palavra. Em todas as palavras de uma oração e em todas as orações de uma ideia geral. O marketing adoça o que não tem gosto, põe fragrâncias naquilo que é inodoro e garante lastro para vazios presentes nos vernáculos. Daí vende pedra como se fora pão, imundícies como se alimentos fossem. (CAVLCNTE, 2015, p. 1). É uma química da transmutação que escreve outra realidade que deseja esconder o aretê. Uma realidade e seu aretê menos nobre e verídico.

Palavras podem ser simples, mas prenhes de sentido que, pela força poética do trovador, as faz suaves enunciação. Ao contrário da palavra no marketing, então, a palavra poética traz sua própria luz, no sema que carrega consigo, seja na epopéia da criação do mundo (GÊNESIS 1, vv 1-31; GÊNESIS 2, vv 19 e 20), ou seja, na lírica ceciliana, que é o que se vê/sente em seu Romance das palavras aéreas:

Ai, palavras, ai, palavras, que estranha potência, a vossa! ai, palavras, ai, palavras, sois de vento, ides no vento, no vento que não retorna, e, em tão rápida existência, tudo se forma e transforma! Sois de vento, ides no vento, e quedais, com sorte nova! Ai, palavras, ai, palavras, que estranha potência, a vossa! todo o sentido da vida principia à vossa porta; o mel do amor cristaliza seu perfume em vossa rosa; sois o sonho e sois a audácia, calúnia, fúria, derrota… A liberdade das almas, ai! com letras se elabora… E dos venenos humanos sois a mais fina retorta: frágil, frágil como o vidro e mais que o aço poderosa! Reis, impérios, povos, tempos, pelo vosso impulso rodam.

Rogério Salgado é um poeta nascido da poesia articulada com as genuínas e poderosas manifestações de sintagma, na verticalidade paradigmática.

Apresentar o trabalho palavra-síntese de conotação plurissignificativa,  de onde se extraem os sentidos fundamentais, inéditos, de Rogério Salgado, que é quando podemos nos surpreender com o extraordinário,  que arrebata toda a extensão do ordinário.

Mas também vemos que a poesia de nosso conterrâneo são palavras fluidas, frescas, leves, como quem vai fugir a qualquer hora. Podem ser pesadas por seu forte conteúdo de traduzíveis emoções. 

O tempo está presente  e o poeta não deixa de brincar com ele: presente-passado-futuro sem, no entanto, conjugá-los, escondendo qualquer atividade mesquinha, salvaguardando a excepcionalidade poética do mundo. 

… A vida é feita de estradar

na busca de novos horizontes 

do que se pode encontrar 

… Meu coração tão instável 

fadado a ser infeliz 

honesto em suas certezas 

… apertem o cinto:

a democracia sumiu!

Se você não segue a cartilha

tome cuidado, não vá chorar

pois farão de você,  lobo morto na matilha

e não lhe deixarão voltar.

… a palavra dos velhos 

(idosos ou jovens)

nos tira o direito legal de ser

o que podemos ser: nós mesmos 

… e por mais que busquem entender:

a poesia liberta!

por isso deixem que o poeta

fique por aqui. 

Os tempos foram outros

hoje  podem ser os mesmos 

felizes as crianças  que inocentes

como borboletas no casulo

sobrevoam os jardins 

passado 1968  presente / futuro passado 

Amazônia  2020

poema sonoro – poema concreto

a mulher que me habita 

faz-me mais homem  do que sou 

capaz de amar-me a mim mesmo 

assim como todas as mulheres 

O que me vem pela frente 

passado presente futuro 

só  vendo só vendo 

O cheiro de Barbacena carrega culpas

o ar de Barbacena ainda respira

corpos putrefação amontoados na memória 

de seres humanos que não carregam culpa 

em minhas veias corre sangue goytacá 

nessa mistura com gosto de caldo de cana

essa menina dos meus olhos meretriz

Nessa transa que me envolve  com força bruta 

não tão careta mas bem mais sacana

dentro de mim 

corre o Rio Paraná do Sul

afluente que é 

em minhas veias 

ao sul de lembranças 

daquele cheiro doce do canavial 

vi velhas fotografias 

li velhas cartas 

e retornei comigo

aos tempos que já se foram

revi fantasmas escondidos no porão

arrastando correntes de velhos hábitos 

que cometi ou deixei de ter…

Tags: #Poesia de Rogério SalgadoArtigo de João Vicente AlvarengaJoão Vicente Alvarenga
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