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Paraty abraça a obra “maldita”

Deneval Siqueira Por Deneval Siqueira
08/07/2018 - 14:30 - atualizado em 09/07/2018 - 22:49
em Cultura
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Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

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A Flip 2018 tem extensa programação que homenageia Hilda Hilst;  Editor de Literatura & Artes das plataformas VIU! (Deneval Siqueira) é presença confirmada na programação da Festa Literária;

“E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo, prazer, lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. 
E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.”

(Hilda Hilst)

A Festa Literária Internacional de Paraty nunca esteve tão badalada quanto a versão 2018. O motivo, sem dúvida, é o fervo em torno do nome da homenageada HILDA HILST, poeta, prosadora e dramaturga, premiada por sua poesia (JABUTI), por sua prosa poética (JABUTI) e pelo seu teatro (ANCHIETA). Autora polêmica, sempre tida como hermética, tábua etrusca, e outros adjetivos usados para qualificar sua obra densa, por vezes hermética, mas sobretudo pela qualidade do seu trabalho inicialmente reconhecido por críticos como Anatol Rosenfeld, Jorge Coli, Eliane Robert Moraes, Joaquim Brasil Fontes, entre poucos outros. VÍDEO:

Fonte: Youtube

Na Academia, começou a despertar o interesse de alguns estudiosos, professores, pesquisadores e alunos. E eu me coloco entre tais, já que nos idos dos anos 90 do século passado, depois de ter lido sua poesia, me dediquei ao estudo da sua prosa, da tão propalada Trilogia Obscena, e acabei escrevendo minha dissertação de mestrado e defendendo-a sob o título de Holocausto das Fadas – a trilogia obscena e o carmelo bufólico de Hilda Hilst, orientado por minha queridíssima Vilma Arêas que, à época, topou a empreitada nada fácil, pois Hilda era estigmatizada pela crítica e pela própria Academia. Minha dissertação foi depois publicada numa parceria da Annablume (SP) e Edufes (ES), em 2002. Continuei a travessia e hoje me sinto bastante recompensado. Escrevi muitos artigos, dediquei-me ao estudo da sua obra dramatúrgica, escrevi o segundo livro – A Bela, a fera e a santa sem saia (Vitória: Edufes, 2005), já após sua morte em 2004. Também participei de bancas de defesa e orientei trabalhos de mestrado e doutorado na Ufes e em outras universidades.

Agora, como colaborador/parceiro da edição 2018 da FLIP, em homenagem à Hilda, lanço mais um livro sobre sua obra, Ter Sido Estar Sendo – A prosa poética de Hilda Hilst (Curitiba: CRV, 2018), depois de ter escrito, também, como colaborador e especialista, um capítulo da Antologia Crítica Essays on Hilda Hilst – Between Brazil and World Literature, Adam Smith (Stanford University) e Bruno Carvalho  (Princeton University) (Orgs), edição de 2018, do selo Literature of the Americas, da Palgrave Macmillan, Suiça, Inglaterra, Estados Unidos).

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Longa estrada percorrida, muitos estudos, muitas descobertas e muito reconhecimento fazem de mim, neste momento, uma pessoa privilegiada por ter acreditado nos frutos de um trabalho que começou há quase três décadas. Ver Hilda Hilst homenageada na FLIP 2018, com 22 casas de cultura, além da Casa da Hilda e SESC – leia-se Instituto Hilda Hilst,  é uma quase aventura. E parodiando a autora: “…Obscena de tão lúcida.”

A primeira vez que li Hilda Hilst, nos idos de 1990, foi hilariante. Ela era pouca lida e também muito pouco conhecida até mesmo na Academia. Li Cartas de um Sedutor (1991), sua primeira edição da Pauliceia (SP), cujo exemplar ainda guardo comigo. Fiquei bastante tocado com a prosa ali escrita. Diferente, VII capítulos abundantes em bizarrices confessas (“escrevo bizarrias. / bizarria é eu ter uma caceta e não acontecer nada com ela. (p. 105) Personagens com o nome de A Cuzinho, Zé Piolho, Cordélia, Ordélia, em narração de duplos Stamatius/Karl, em um misto de busca de uma falta de tudo, parecendo uma fábula que tem como locus um lugar vazio, onde tudo pode acontecer através do espelho, foi minha primeira impressão, sem, no entanto, deixar de ver uma preocupação, uma busca muito latente do pai, de Deus: “P.S. O que nos resta é a orfandade. Não é que sentimos falta de pai e mãe. Somos órfãos desde sempre. Órfãos D’Aquele”. (p. 44) Só depois de procurar ler um pouco sobre a obra da autora, foi que descobri que havia uma “trilogia obscena”, muito polêmica, da qual Cartas de um Sedutor(1991) fazia parte, juntamente com Contos D’Escárnio – Textos Grotescos (1990) e O Caderno Rosa de Lori Lamby (1990). E li também Bufólicas (1992). Hilda já era lida pela sua primorosa obra poética, suas Odes, seu teatro polêmico, político de traços brechtianos, também premiado. Estava, encontrava-me diante de uma autora polígrafa, assim classificada por Jorge Coli: “Hilda Hilst não faz parte da família de escritores que se detém nas palavras, que as burilam como ourives, que as ajustam como peças de relojoeiros, ao modo de Racine ou Flaubert, Machado de Assis ou Bilac. Ela investe suas frases de uma dinâmica movente, ritmadas por uma força a um tempo natural e poderosa, fruto de uma escrita que brota fecundada pela necessidade imediata de escrever: assim eram Stendhal, Dostoievski, Hugo ou Proust”.  (Coli, 1996)

Senti logo ao ler alguns críticos da obra hilstiana que tinha um compromisso com o estudo dessa obra tão ímpar, tão polêmica, tão desconhecida dos leitores. Fiz comigo mesmo uma espécie de pacto. Leria a “tetralogia obscena”, ou “pornográfica”, ou “pornô chique”, tantos eram os nomes dados aos livros que a compunham. Comecei por escolher os três livros da “trilogia obscena”, para fazer minha pesquisa de mestrado, que acabou por ser a minha dissertação de mestrado, no IEL, Unicamp, orientado por Vilma Arêas, e cujo título é Holocausto das Fadas: a triologia obscena e o Carmelo Bufólico de Hilda Hilst (1995), publicada com o mesmo título, pela Edufes e Annablume, com prefácio de Vilma Arêas, em  2000. Sempre achei sua literatura muito política, muito séria, muito soco-na-cara!

Eis um trecho do meu novo livro, que será lançado durante a FLIP 2018, na Livraria da Travessa, livraria parceira da FLIP 2018. Também estarei participando, como Professor de Teoria e História Literária, estudioso da autora, e editor do Literatura & Artes, cronista da Plataforma Viu! On Line, no sábado, dia 28 de agosto, às 17h30, do debate-papo na mesa “Hilda: a boca que pronuncia o mundo”, na Casa do Desejo, Rua Benedito Telmo Coupê (antiga Rua Fresca), no Centro Histórico, ao lado de Mariana Basílio, Gerusa Zelnys (Mediadora) e Carla Mulhaus, sentindo-me bastante animado e já arrumando as malas. E lá me vou, “obsceno de tão lúcido”.

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Pós-Doutor e professor Titular de Teoria e História Literária Centro de Ciências Humanas e Naturais Programa de Pós-graduação em Letras - Doutorado e Mestrado em Estudos Literários da UFES

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