“Não se deve zombar dos que se fazem honrar por cargos e funções, pois só se ama alguém por qualidade de empréstimo”, já dizia o filósofo Paulo Ghiraldelli Jr;
Quem anda com o demônio nunca perde a personalidade. Enquanto que quem anda vazio, não tem como não procurar alguma capa, algum uniforme velho, para se apresentar como um eu. Esta afirmativa é do filósofo Paulo Ghiraldelli Jr, num dos capítulos de seu livro A filosofia como crítica da cultura, onde ele traz à pauta o filósofo Pascal, o escritor Machado de Assis e que os envolve e os torna cúmplices na inesgotável problemática do eu na modernidade / pós-modernidade. O capítulo recebe o título Pascal, Machado e a Pós-modernidade .
Num de seus aforismos (21), o filósofo Pascal nos aconselha que não devemos zombar dos que se fazem honrar por cargos e funções, pois só se ama alguém por qualidades de empréstimo. Ou seja, o que Pascal nos coloca é que todas as qualidades que um eu possa adquirir é tudo o que ele pode ter. Isso caracteriza o eu moderno, cujo conceito poderá caber na seguinte comparação: ele é imaginado como uma cebola, com camadas, com qualidades se sobrepondo a qualidades que irão compor um eu.
Retirando cada uma dessas camadas, descascando a cebola, o que sobra? Haveria uma qualidade que não fosse de empréstimo? Uma qualidade que fosse inerente ao eu? Imperecível e que, por isso, viesse a ser efetivamente o eu?
Para Pascal, esse eu não existe. E faz essa opção, negar esse eu, como núcleo central, quando usa o verbo amar (… só se ama alguém por qualidades de empréstimo.). O que amamos numa pessoa não é seu núcleo duradouro, essencial, pois um eu não possui qualquer núcleo duradouro e muito menos uma essência. Todo eu só não é vazio se ele pode correr para pegar um uniforme velho, uma camada da cebola e dizer que ali há um eu.
Essa foi a atitude de Jacobina, personagem de Machado de Assis, no conto O espelho. Jacobina é um homem de 45 anos e de origem humilde, que conseguiu subir na vida por conta de uma nomeação a um posto militar. Certo dia estava com mais quatro amigos em uma casa, debatendo sobre a alma, o universo e outros assuntos.
Jacobina, porém, mantinha-se calado e parecia não estar muito interessado no assunto. Quando um dos presentes exige que ele dê sua opinião, Jacobina diz que irá contar um episódio de sua vida. Ele pretendia defender sua teoria de que cada pessoa possui duas almas: uma exterior e outra interior.
Aos 25 anos, Jacobina foi nomeado Alferes da Guarda Nacional, o que lhe garantiu uma mudança significativa de status. Sua família passou a elogiá-lo e a se orgulhar dele. Agora era o Sr. Alferes. Um dia sua tia Marcolina o chama para ir até o sítio onde ela morava. Por conta do status de seu sobrinho, ela lhe oferece um grande espelho, proveniente da Família Real Portuguesa e melhor mobília da casa, e o coloca no quarto destinado a Jacobina. A partir de então, tudo mudou em sua vida. A percepção que tinha de si mesmo passou a ser aquela que outros tinham dele, e a pessoa que Jacobina era não mais existia.
Pouco tempo depois de Jacobina chegar ao sítio, Marcolina saiu de viagem. Aproveitando a ausência dela, os escravos fugiram e Jacobina viu-se sozinho no sítio. Assim, passou os dias perdido nas sombras da solidão e angustiado por ter perdido a sua alma exterior, fruto da imagem que os outros faziam dele. Em certo momento ele decide olhar o espelho e percebe que a imagem ali refletida estava corrompida e difusa, assim como a imagem que ele fazia de si mesmo na ausência dos outros.
Não conseguindo enxergar a si mesmo com nitidez, Jacobina resolve vestir sua farda e olhar-se no espelho. Dessa vez a imagem refletida era nítida e com clareza de detalhes e contornos. Recuperando, assim, a alma exterior que preenchia sua alma interior, Jacobina conseguiu evitar a solidão nos dias que se passaram.
Se no século XVII, Descartes afirma “eu penso”, como ponto arquimediano, Pascal desafia não “o penso“, mas o próprio “eu“. O que é um “eu“? Haveria algo como um “eu” para além das qualidades que damos ao corpo ou à alma? Despimos “a cebola” de memória e discernimento, ou a despimos da beleza e assim por diante, e então, sobraria alguma coisa, ao fim do streap-tease?
O personagem Jacobina corre para pegar um uniforme velho, que lhe devolve um título que batizou a sua alma e marcou o seu corpo. Eis então que o EU volta a aparecer no espelho. Trata-se de um EU facilmente reconhecível na pós-modernidade, que não é o EU cartesiano, nem o de kant, para quem o EU tem um núcleo que ele chama “vontade racional livre”, ou em tom mais metafísico, a liberdade ou livre-arbítrio. O que é este EU? É aquele que podemos chamar de sujeito; um eu consciente de seus pensamentos e responsável pelos seus atos.
Esse tipo de sujeito não é um criador de si mesmo, mas não deixa de ser um eu possível. Todos podemos ser educados para ser um eu desse tipo. E é o que fazemos, nós modernos e liberais, herdeiros da promessa do Iluminismo (Ilustração). Porém grita mais alto a desconfiança pós-moderna quanto à ideia de que o eu é o nosso ponto de apoio sólido, nosso ponto “arquimediano “, como disse Descartes.
É possível eu ser um eu para além da partícula gramatical “eu“, sem que essa dúvida me lance na angustiante crise de toda a modernidade? Crise de legitimidade de toda a modernidade. Se é possível afirmar que a modernidade está sustentada pela segurança que temos na noção moderna do “eu” (o sujeito metafísico ou quase metafísico), como aquele que é consciente pelos seus pensamentos e responsável pelos seus atos, então podemos dizer que a descrença nesse elemento nos joga para a crise das instituições modernas.
Entre elas, as que fazem andar ou desandar o projeto educacional moderno, pelo qual passamos e estamos passando.








