A estética naturalista em um recorte de Bom-Crioulo, de Adolpho Caminha |
Por Deneval Siqueira de Azevedo Filho |
Ao lado de O Cortiço, de Aluísio de Azevedo, Bom-Crioulo é um dos mais notórios romances naturalistas no Brasil. Um bom recorte a partir desse livro promove a verificação e clareza de uma estética tipicamente naturalista na literatura brasileira.
Diziam uns que a cachaça estava deitando a perder “o negro”; outros, porém, insinuavam que Bom-Crioulo tornara-se assim, esquecido e indiferente, dês que “se metera” com o Aleixo, o tal grumete, o belo marinheiro de olhos azuis, que embarcara no sul. — O ladrão do negro estava mesmo ficando sem-vergonha! E não lhe fossem fazer recriminações, dar conselhos… Era muito homem para esmagar um! O próprio comandante já sabia daquela amizade escandalosa com o pequeno. Fingia-se indiferente, como se nada soubesse, mas conhecia-se-lhe no olhar certa prevenção de quem deseja surpreender em flagrante… Os oficiais comentavam baixinho o fato e muita vez riam maliciosamente na praça d’armas entre copos de limonada. Tudo isso, porém, não passava de suspeitas, e Bom-Crioulo, com o seu todo abrutalhado, uma grande pinta de sangue no olho esquerdo, o rosto largo de um prognatismo evidente, não se incomodava com o juízo dos outros. — Não lho dissessem na cara, porque então o negócio era feio… A chibata fizera-se para o marinheiro: apanhava até morrer, como um animal teimoso, mas havia de mostrar o que é ser homem!
Sua amizade ao grumete nascera, de resto, como nascem todas as grandes afeições, inesperadamente, sem precedentes de espécie alguma, no momento fatal em que seus olhos se fitaram pela primeira vez. Esse movimento indefinível que acomete ao mesmo tempo duas naturezas de sexo contrários, determinando o desejo fisiológico da posse mútua, essa atração animal que faz o homem escravo da mulher e que em todas as espécies impulsiona o macho para a fêmea, sentiu-a Bom-Crioulo irresistivelmente ao cruzar a vista pela primeira vez com o grumetezinho. Nunca experimentara semelhante coisa, nunca homem algum ou mulher produzira-lhe tão esquisita impressão, desde que se conhecia! Entretanto, o certo é que o pequeno, uma criança de quinze anos, abalara toda a sua alma, dominando-a, escravizando-a logo, naquele mesmo instante, como a força magnética de um imã.” ( Bom-Crioulo, CAMINHA, Adolfo. Coleção dos Autores Célebres da Literatura Brasileira, Vol. 1. Editora Garnier, MG. p. 20 e 21)
O tema é a segregação sexual, com as perversões decorrentes, em ambientes reclusos, ora masculinos ou femininos, internatos, casernas e outros. No caso, um navio. No início do fragmento aparece a figura no negro Bom-Crioulo (Amaro) sendo hostilizado e mal falado por seus companheiros de embarcação. Ligeiramente temos uma denúncia de resquícios de uma época escravagista no Brasil, o que já nos indica um aspecto naturalista que é o da observação social, do homem situado historicamente e fruto do meio, seguindo o pensamento determinista.
Mais adiante, temos o tema central do romance: a segregação sexual, no caso, a homossexualidade. Trata-se da atração de Amaro por Aleixo, o “grumetizinho.” O contato entre os dois que os torna mais íntimos, primeiramente, ocorre nessa cena dos olhares que se fitam intensamente. Facilmente algum leitor dirá que se trata de uma questão meramente romântica, mas não é o que se conclui ao ler a descrição do sentimento causado em Amaro. Adolfo Caminha o descreve sob a luz naturalista, de forma animalesca e físico-biológica.
Esse movimento indefinível que acomete ao mesmo tempo duas naturezas de sexo contrários, determinando o desejo fisiológico da posse mútua, essa atração animal que faz o homem escravo da mulher e que em todas as espécies impulsiona o macho para a fêmea.
Ao contrário do lirismo romântico, o homem do romance naturalista está preso à sua natureza animal, movido por instintos, às forças que determinam seu comportamento. Tanto que a atração entre os dois é comparada de forma como se fosse de animais. E o homem é assim tratado no Naturalismo. Isso dado pela cientificidade empregada à literatura na época.
Verifica-se, então, um indivíduo submisso a seus instintos, esses que na sociedade são ditos imorais. No romance naturalista, a moral quase religiosa e imposta pela sociedade não se sobressai à questão dos desejos de um homem que deseja outro. Como em um habitat de animais em meio a natureza, os desejos irão acontecer independente se outros acharem o fato certo ou errado, e isto só reforça a ideia do instinto como orientador do comportamento humano em tom amoral.
Entretanto, o certo é que o pequeno, uma criança de quinze anos, abalara toda a sua alma, dominando-a, escravizando-a logo, naquele mesmo instante, como a força magnética de um imã.
Outra questão interessante a ser observada é o fato de que a problemática posta por Caminha envolve um menor de idade, um grumete de quinze anos. Este tema reforça a utilização de mais um tipo de denúncia promovida pelo Naturalismo, que é a observação de que há fatores patológicos comprometendo a sociedade e que, até então, não eram exploradas em outras literaturas.
Em síntese, o romance de Adolfo Caminha incorpora inteiramente a estética proposta pelo Naturalismo. Recorre-se à visão determinista e mecanicista do homem com a questão de tratá-lo como animal e como um ser determinado por seus instintos naturais; personagens com distúrbios patológicos, como é o que está implícito ao Bom-Crioulo Amaro; e a incorporação da cientificidade para analisar o drama e a crítica social vivida no momento contemporâneo ao que a obra é escrita. Além de uma boa dose de positivismo e sanitarismo, o que não podia faltar nos fins do século XIX.








