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O mais pessimista dos romances de João Ubaldo Ribeiro

Deneval Siqueira Por Deneval Siqueira
22/10/2018 - 16:40
em Cultura
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O escritor João Ubaldo Ribeiro com seu livro "O Sorriso do Lagarto", as edições brasileira e em língua inglesa. (Sem local, 26.01.1996. Foto de André Durão/Folhapress)

O escritor João Ubaldo Ribeiro com seu livro "O Sorriso do Lagarto", as edições brasileira e em língua inglesa. (Sem local, 26.01.1996. Foto de André Durão/Folhapress)

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Estamos preparados para o sorriso do lagarto? No sorriso maléfico do réptil, é possível perceber o presságio do medo e a existência do mal; Leia e saiba mais:

O Sorriso do Lagarto é um romance de João Ubaldo Ribeiro,  publicado em 1989, e o autor se permite beber de várias fontes dentre elas: o naturalismo; a degradação do indivíduo; o cientificismo; o político que quando jovem era de esquerda, depois compromete-se com a direita e o golpe militar de 1964 e, finalmente volta-se para um partido liberal conquistando altos cargos; o homossexualismo; a engenharia genética; o consumo de drogas por parte da elite; a degradação da saúde; a igreja e os pobres; o comportamento sexual feminino. Nada mais atual! Em nossa atual conjuntura, ante o perigo do estabelecimento do fascismo e outros ismos, em nosso país, eis que me lembro do maravilhoso lagarto do João Ubaldo.

Em O sorriso do lagarto, João Ubaldo Ribeiro sublimou em conflito metafísico entre o Bem e o Mal a sua hostilidade orgânica contra o estrangeiro em geral e, em particular, contra o capitalismo norte-americano:

O sorriso do lagarto é um livro que lida com a má administração do tempo que a humanidade passa na Terra. Acho que escrevi, sim, um romance sobre o mal, que fica transparente na atitude de uma grande parte da classe dominante brasileira – ela detesta nosso país, ela detesta o que nós somos e acoberta todas as violências: a mortalidade infantil, a violência nas cidades, a miséria. Quis escrever um livro sobre o aniversário (sic, por adversário) que existe em cada um de nós, sobre a figura de Satanás. (LEIA, dezembro de 1989)

Esta obra não é um romance regionalista. É visivelmente uma obra de olho no mundo moderno. Ao mesmo tempo em que se propõe a ser um romance universal e contemporâneo, é também uma exteriorização de desconfiança, uma denúncia e uma negação de certos valores caros à universalidade e contemporaneidade. O livro apresenta constante erotismo naturalista misturado a episódios de pescarias que se somam a reflexões sobre Deus, a evolução, a ciência, em uma narrativa ágil e cheia de surpresas.

Foto: Reprodução

O autor vale-se de outros narradores para enriquecer seu texto. O título do livro esboça-se no início do romance, quando dois meninos trazem um lagarto com dois rabos para João Pedroso. No sorriso maléfico do réptil, João Pedroso percebe o presságio do medo e do Mal. Ao longo da narrativa, confirma-se a suspeita de Pedroso: o Mal existe, o Inimigo existe e parece rir da humanidade. Ainda não conhecíamos o Bolsonaro!!!! A partir do título, forma-se o tema básico do romance: a presença do Mal relacionada com o poder da ciência e da política. Quem poderá dizer aonde levará a manipulação de genes humanos por um cientista amoral? João Ubaldo foi o primeiro, na literatura brasileira, a tratar com profundidade, dessa perturbadora questão.

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O Sorriso do Lagarto é o mais pessimista dos romances de João Ubaldo Ribeiro. O Mal vence. O Diabo ri por último. O romance gira em torno de um triângulo amoroso constituído por João Pedroso, um biólogo excêntrico, solteirão e alcoólatra, que abandonou a profissão para ser o proprietário de uma modesta peixaria em Itaparica, Bahia; por Ângelo Marcos, um político corrupto ligado à área da Saúde, que construiu sua vida pública e sua fortuna às custas de falcatruas (mas não é o candidato do PSL à Presidência da República); e por Ana Clara, esposa de Ângelo Marcos, que, com um casamento fracassado, mas do qual não abre mão para não perder a estabilidade financeira, procura preencher seu vazio interior fora da relação que a oprime.

Há ainda uma outra trama, tão importante quanto a do triângulo e a ela imbricada, ligada a Lúcio Nemésio, um cientista que, associado a uma multinacional se dedica a experiências genéticas, criando entre outras aberrações, a mistura de humanos com chimpanzés.

A partir dos conflitos gerados pela cadeia de relações entre as quatro personagens, João Ubaldo Ribeiro constrói um romance absorvente, que dá continuidade à pesquisa sobre a identidade nacional, particularmente sobre a questão da dialética entre o dado local e o cosmopolita. Há todo um empenho, no romance, em não limitar a discussão dos problemas ao contexto nacional, ainda que isso seja valorizado, para abarcar as questões por uma visada universal, que não se intimida frente a variados aspectos de ordem filosófica e metafísica.

É um livro sobre a corrupção e o novo colonialismo. A personagem Nemésio, que pertence à elite, detesta seu país. O livro é sem dúvida, umas grande alegoria sobre o “Mal”, e seu símbolo maior na narrativa é o lagarto que sorri indiferente ou zombeteiro frente à condição humana, na sua arrogância de espécie dominante. A alma humana é colocada em xeque, com suas zonas de sombra e suas covardias a serviço do Mal, e mesmo a própria noção de humanidade é posta na berlinda. “A partir de que ponto um ser vivo pode ser considerado como ser humano? E que diferenças separam um animal dotado de emoção de um homem?, são questões pertinentes colocadas pela obra.

Não se pode deixar de destacar que um grande mérito do romance é o desfecho sem concessões, na contramão do gênero, com tudo para exercer grande impacto sobre o espírito tanto de um leitor mais ingênuo, habituado aos tradicionais finais felizes dos best-sellers, quanto, por sua contundência, sobre o espírito de um leitor mais familiarizado com a visão desencantada da literatura moderna, particularmente a do pós-guerra.

O próprio autor diz a respeito da obra O Sorriso do Lagarto: “O título é uma metáfora, pois é claro que não há prova científica de que existem lagartos que sorriem. Um canadense, cientista, chegou a me procurar pensando que eu escrevia uma história sobre a evolução dos dinossauros. ( .. ) Mas O Sorriso do Lagarto não se refere necessariamente a uma vingança dos dinossauros e lagartos. E no romance o protagonista nem é o lagarto. O Sorriso do Lagarto é um livro que lida com a má administração do tempo que a humanidade passa na Terra.

Acho que escrevi, sim, um romance sobre o mal, que fica transparente na atitude de uma grande parte da classe dominante brasileira – ela detesta nosso país, ela detesta o que nós somos e acoberta todas as violências: a mortalidade infantil, a violência nas cidades, a miséria. Quis escrever um livro sobre o adversário que existe em cada um de nós, sobre a figura de Satanás”. O Brasileiro em geral precisa aprender a administrar seu tempo de felicidade. Se não o fizer estará fadado ao Inferno em vida!

*Fonte: https://www.passeiweb.com/estudos/livros/o_sorriso_do_lagarto

Tags: #JoãoUbaldoRibeiro#OSorrisoDoLagartoLivro
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