Percebe-se que os dependentes não conseguiam sobreviver sem o senhor, pois era este quem detinha os bens materiais. Contudo, a ideologia senhorial passa a ser relativizada no romance, pois, ao contrário do paternalismo convencional, em que a vontade do senhor era intocável, percebe-se a não passividade dos dependentes.
Sendo que, na senzala, Balbina tinha mais autoridade que Coqueiro, pois conhecia as “ervas” para fazer trabalhos para “amansar os senhores, apatetar os brancos e assentar juízo dos amantes volúveis”, já trazendo, no campo das religiões de matrizes africanas (o conhecimento das ervas e plantas especiais), a semente que fora plantada Brasil afora. (p. 67).
No extremo oposto, Patrocínio coloca em cena personagens como Domingos, caracterizado como “caráter nobre” e escravo obediente: “tinha a fidelidade do cão, e a passividade da besta de sela” (p.74).
Na fala do narrador, observa-se a ideia de bestialização do negro, comparado aos animais de tração, outro traço naturalista. Ainda, nas palavras de Fidélis, ao assumir a feitoria, temos a confirmação dessa mentalidade senhorial:
“ – vamos rapazes! é preciso mostrar que não é necessário chicote, para fazer o serviço; o negro não é boi, que precisa de carreiro e ferrão” (p.109).
Neste e noutros trechos, cabem alguns questionamentos: como pode aparecer o estereótipo racial dentro de um texto abolicionista? Estará o escritor negro reproduzindo os valores dos brancos encostando na ideologia? Sim, mas pelo sarcasmo, pela ironia quase vazia. Mas ela está no romance todo o tempo? Está em toda a narrativa se considerarmos que o discurso do narrador onisciente corresponde ao discurso do próprio autor, e, em diversos momentos, este caracteriza as personagens negras de uma forma negativa.
Segundo Reis e Lopes, no Dicionário de Narratologia, não se deve esquecer que “o narrador é, de fato, uma invenção do autor; responsável, de um ponto de vista genético, pelo narrador, o autor pode projetar sobre ele certas atitudes ideológicas, éticas, culturais” (p.250).
Por outro lado, não se pode desprezar a ideia de dialogismo, pois no romance há mais de uma voz, mais de um discurso, sendo que em alguns momentos a voz do autor abolicionista ecoa elementos do discurso senhorial, ironicamente. Conforme ressalta Baccega (1955), a enunciação está relacionada com a formação ideológica que, por sua vez, relaciona-se com as classes sociais que possuem interesses divergentes.
Porém, não é possível afirmar que cada classe pratique uma ideologia completamente diferente daquela praticada por outra, pois há uma ideologia dominante que perpassa as formações ideológicas e, consequentemente, o discurso.
Nesse sentido, a classe dominante tenta tornar “a língua propriedade privada”, e nesse momento cabe o alerta de Bakhtin: “A classe dominante tende a conferir ao signo ideológico um caráter intangível e acima das diferenças de classe, a fim de abafar ou de ocultar a luta dos índices sociais de valor que aí se trava, a fim de tornar o signo monovalente (BAKHTIN Apud BACCEGA, 1995, p.53)”.
Dessa forma, mesmo não fazendo parte da classe senhorial, ao contrário, sendo afrodescendente, José do Patrocínio não deixa de reproduzir certos traços do discurso racista hegemônico, pois tais ideias eram impostas como verdade e fazem com que o discurso do autor se torne contraditório hoje. Na época, era realista-naturalista.
Apesar desses resquícios presentes na narrativa, a voz abolicionista aparece, por exemplo, quando percebemos que por detrás do bom comportamento de Domingos e de sua fidelidade aos brancos, ele intencionava, na verdade, conseguir sua alforria, como a própria Balbina conclui: “bem faz Domingos, foge dos maus escravos para não perder a carta de forria (sic)” (p.74).
Nessa observação da personagem fica evidente que mesmo parecendo ser submisso ao branco, o negro sempre aspirava à liberdade e encontrava força na raça e nas atitudes de matriz africana e na crença.
No romance de José do Patrocínio, evidencia-se a tensão entre dois discursos: o abolicionista e o senhorial (a contra-ideologia e a ideologia). Predomina, contudo, este último, que se sobrepõe ao discurso afrodescendente do autor.
No enredo, fica patente a superioridade da origem europeia se observarmos que todos os personagens negros ou mestiços são descritos como seres que tendem para o mal, levando Motta Coqueiro a pagar com sua própria vida por um crime que não cometeu.
Não tão diferente dos dias de hoje, na política de hoje, na falsa elite de hoje, falida e com castiçais de alumínio banhados no dourado. Uma herança forte e que sempre aflora no Brasil, país que está enraizado na reprodução de ideias preconceituosas da classe dominante, mostrando que tais ideias se imprimem no espírito das pessoas, de forma que mesmo afrodescendentes e abolicionistas (no romance) podem ser ideologicamente reféns das tramas do patriarcalismo.
Referências Bibliográficas
PATROCÍNIO, José do. Motta Coqueiro ou a Pena de Morte. Rio de Janeiro: Francisco Alves, Instituto Estadual do Livro,1977.
SCHWARZ, Roberto. Ao vencedor as Batatas. São Paulo: Duas Cidades, 1977.
SODRÉ, Nélson Werneck. O Naturalismo no Brasil. Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1992.
BACCEGA, Maria Aparecida. Palavra e Discurso: literatura e história. São Paulo: Ed. Ática, 1995.
REIS, Carlos; LOPES, Ana Cristina M. Dicionário de Narratologia. 2 ed. Coimbra: Almedina, 1990.
CLIQUE ABAIXO E LEIA OS OUTROS CAPÍTULOS
Motta Coqueiro, de José do Patrocínio – Ideologia e contra-ideologia
Motta Coqueiro, de José do Patrocínio – A Contra-Ideologia no romance negro-feminista (II)








