Ao terminar a leitura deste “Romance de Tese”, como o denomina Silviano Santiago, no seu Prefácio, intitulado “Desvios da Ficção”, o renomado crítico conceitua-o: “Seria importante assinalar que Motta Coqueiro não é exemplo isolado de romance de tese na sua época. Alguns anos depois de sua publicação, em 1902, é que edita o protótipo brasileiro do romance de tese. Trata-se de Os Sertões, de Euclides da Cunha, texto escrito para denunciar um crime”. (SANTIAGO, 1977, p. 16)
José do Patrocínio nos coloca diante de uma trama naturalista, amorosa, tendo como pano de fundo, intrigas e casos amorosos. Motta Coqueiro e Manuel João dividem o protagonismo com a antagonista Balbina, o cento de dos conflitos. O mulato feitor tem também um papel sanitarista, higienizador na trama, outro ISMO do naturalismo. Temos então, o Determinismo; (o homem é produto do meio e de sua ancestralidade); O Darwinismo e Positivismo sanitarista.
Está dentro, portanto, de uma estrutura de poder dramatizada pelo romance que, citando Santiago “Em escritos da época a anteriores a Machado de Assis, o tema do ciúme é também constante, mas nunca está vinculado a uma problemática social”. (Cadernos da PUC, no. 11, out de 1972).
José do Patrocínio é apontado por Araripe Júnior (Apud Nélson Werneck Sodré: 1992), como um dos primeiros escritores a utilizar processos próprios do naturalismo brasileiro em seu romance Motta Coqueiro, tais como: o determinismo do meio e da raça, a degeneração do indivíduo através do álcool, a valorização dos centros urbanos e o preconceito racial.
O determinismo do meio é trabalhado por meio do uso da alegoria do sítio de Macabu (Cap. II), sendo esse cenário considerado pela mulher do protagonista como lugar “triste e amaldiçoado”: era onde se encontravam as piores índoles, pessoas traiçoeiras, que corrompiam os homens bons. Assim, quando Motta Coqueiro recebe em suas terras o agregado Francisco Benedito, este era considerado “homem bom”, “respeitador e trabalhador”. Porém, ao começar a se relacionar com as “más influências” do local, principalmente com os inimigos políticos do protagonista, passa a ser preguiçoso, atrevido e vingativo.
Além disso, o álcool e suas relações sociais vão corroendo pouco a pouco a moral do personagem, levando o agregado e sua família a uma lenta degeneração, que pode ser exemplificada pelo envolvimento amoroso das filhas Chiquinha, Antonica e Mariquinhas, com os personagens Sebastião, violeiro e preguiçoso, que habitava em terras próximas ao sítio; Viana, vendeiro da região; e Manuel João, feitor do sítio. Logo, Chiquinha fica grávida de Sebastião e foge com ele sem se casar, Antonica apaixona-se por Coqueiro, que era homem casado e Mariquinhas é violentada por Manuel João.
Motta Coqueiro era o único que conseguia manter, até certo ponto, sua integridade moral nesse meio onde vivia cercado de “provocações de que era alvo para que desorientassem-no dos caminhos da prudência e perdessem-no numa precipitação” (p.124).
O protagonista mal se relaciona com as pessoas do interior, guardando-se para o convívio com a sociedade urbana. Assim, na cidade de Campos, o isolamento social era substituído “pela convivência polida e delicada de uma sociedade inteligente e desdobrada em pensamentos para a família e a pátria” (p.150). Percebe-se nesse trecho, além do determinismo do meio, a valorização da cidade em detrimento do campo, pois era na cidade que se encontravam o progresso e a nova classe burguesa que começava a se formar no Brasil. Sendo assim, as pessoas do campo são inscritas como atrasadas, ignorantes e traiçoeiras, “sempre inclinada[s] a se deixar[em] penetrar por embustes e falsidades”(p.192).
Outro elemento naturalista presente na obra é o preconceito racial, (o feitor estava do lado dos brancas e tinha poder advindo das idéias eugênicas, que consideravam a raça ariana como “pura” e superior aos negros e mestiços. Isso se dá através da figuração estereotipada dos homens de cor, que no romance são voltados para o mal, como o narrador mostra ao descrever algumas personagens: João Manuel tinha um “instinto sanguinário”; Balbina tinha os “olhos maus” e “injetados de sangue”; e Herculano, verdadeiro assassino do agregado e de sua família, era olhado com antipatia pelas pessoas do povoado, devido às suas feições de caboclo. E, no geral, a população retratada no texto assume práticas discriminatórias: “nada de amizades com caboclos; são muito desconfiados; nunca se sabe quando estão pelos pés ou pelas mãos” (p. 258).
A situação racial e social do homem mestiço é ainda evidenciada no romance através de Manuel João, amante da escrava Carolina. Ele passa a gostar de uma das filhas do agregado, rejeitando a escrava, que esperava um filho seu. Apesar de suas origens africanas, o mulato tende para o lado dos brancos, pois se pudesse casar com Mariquinhas teria chance de ascender socialmente. Contudo, para conseguir seu intento, Manuel João esbarra no preconceito:
“Nunca tinha tentado sequer revelar aos quinze anos de Mariquinhas o que lhe ia de ansiedade pelo seu coração, quase sem esperanças” .
(…)
“Acreditava mesmo que seria uma loucura, ele, pobre feitor de roça, e demais disso homem de cor, ir afrontar os escrúpulos da família, quando Mariquinhas era tão bonita que fácil lhe era escolher um marido entre os robustos moços trabalhadores dos arredores” . (p.50)
Além disso, Motta Coqueiro destaca-se de outros romances naturalistas ao relatar o cotidiano dos escravos: o trabalho no eito, o relacionamento dentro da senzala e os castigos violentos do feitor: “por maior que fosse a agilidade dos escravos achava-os sempre morosos, e não raras vezes vibrava o chicote sobre as costas nuas dos miseráveis trabalhadores” (p.107).
Diferentemente da maioria dos romances da época, em que predomina a perspectiva do branco, os negros estão presentes de forma mais explícita, quando, por exemplo, o narrador onisciente, que dá destaque ao estado psicológico dos personagens, ressalta a negra Balbina como porta-voz dos cativos. Balbina, por exemplo, representa a identidade negra sufocada nas senzalas, através de suas crenças e rituais africanos, que misturavam elementos da cultura de origem com a simbologia católica, como se observa na cena em que a escrava Carolina entra na senzala e contempla uma figura de Nossa Senhora da Conceição com “crespos cabelos negros” (p.66).
Ainda em outro momento, Balbina destaca a onipresença do deus africano, Zambi que, para ela, tudo vê. Balbina é, portanto, a guardiã do saber ancestral e faz a mediação entre a cultura africana e a cultura dos brancos. No entanto, ao designá-la como “feiticeira”, o texto se rende ao discurso hegemônico e utiliza o termo pejorativo que desmerece as crenças religiosas e o conhecimento botânico da personagem.
O poder de Balbina advém, segundo o narrador, do “mistério e [da] dubiedade de sentido das suas palavras, que lhe deixavam sempre aberta uma saída” (p.103). Por outro lado, é dela a voz de resistência dos escravizados dentre os quais se sobressai. Percebe-se que o negro não é passivo frente à sua condição de escravo e que ele aspira por liberdade. E, enquanto esta não vem, luta com os meios que possui, dissimuladamente, conforme reflete a personagem: “O coração da gente bate às vezes com força; os olhos não vêem, o corpo não foge. À hora da lua o mata-pasto de flor amarela fecha, como os cativos seus olhos cansados, as folhas que são o relógio do escravo. Mas o coração não deixa de bater, não quer se trancar dentro do peito; quer voar como vaga-lume. (p.104)” .
No trecho acima, observa-se a denúncia da escravidão presente no discurso de Balbina. Ela descreve o quanto era dura a vida do escravo, fazendo uma comparação entre a planta “mata-pasto” e os “olhos cansados” dos cativos, que depois de uma longa jornada de trabalho seguem para a senzala fatigados. A reflexão ganha um tom poético quando esta faz comparações entre elementos da natureza e a rotina do escravo. Percebe-se ainda o tom que humaniza o sofrimento, dotando-o da esperança de um dia conquistar sua liberdade.
Ex-mucama, Balbina tinha ódio dos brancos, pois não se esquecera de uma surra que levara quando o seu senhor tomou conhecimento de suas práticas de magia. Tal fato torna-se uma obsessão, sendo, constantemente, recordado por ela: “a negra criou o menino, era a mãe preta, e eles não deram nem um canto na casa grande para ela morar. Tomaram o menino das mãos da negra e meteram nelas a enxada. Depois o chicote fez feridas nas costas da feiticeira, e o menino nem olhou para ela” (p.70).
Talvez a maior ferida de Balbina seja a separação violenta da criança que amamentava e de quem se sentia “mãe preta”. Tal separação ocorre pelo fato de serem encontrados entre seus pertences objetos de magia negra. Dessa forma, a cabinda guarda rancor contra os brancos, planejando sua vingança.








