“Nós somos o Outro e já existimos como o Outro. Somos herdeiro da antropofagia e do barroco. Sabemos o que é a dor trágica.
O que nos resta? O carnaval. Nossa melhor assimilação e revolução cultural – a inversão dos papéis. A transgressão da ordem da realidade”. (MOURA, Paulo César. Cordel Louco das Letras. Série Ensaios. In: O Brasil que não queremos e outras milongas. Campos dos Goytacazes, Editora Caliban, 2018).
Ao pensar a relação entre realidade e ficção, sempre me instiga a reflexão de como a ficção aparece para mim como a verdade, o tangível, o que contém tanto o outrage como o sublime e a beleza, o grotesco, a impiedade, enfim, como a ficção é capaz de propor-nos novas maneiras de (re)ver o mundo, as pessoas, as vitórias, as desgraças, as desavenças e tudo mais de forma real e tragicômica, pois sentimos o riso e também a dor.
Milton Hatoum, escreveu no Caderno 2 de O Estado de São Paulo, de 21 de junho de 2019, instigante análise da obra de Machado de Assis, em homenagem aos 180 de nascimento do nosso autor maior.
Refletiu sobre o papel e o poder da literatura e da obra ficcional de Machado de Assis: “O tempo é cruel também com a literatura. Muitos livros são esquecidos quando ainda estão engatinhando; alguns, incompreendidos ou mal lidos quando publicados, ressuscitam uns anos ou décadas depois. Outros, os clássicos, serão lidos por séculos.” Parece bem óbvio. Porém o que é um clássico em oposição à crônica (esta no viés de Antonio Candido, em seu conceito de literatura “ao rés do chão”)?
Hatoum escolheu, das várias definições de “clássico”, a que nos deu Jorge Luís Borges: “Clássico não é um livro que necessariamente possui entes ou aqueles méritos; é um livro que as gerações humanas, premidas por razões diversas, leem com prévio fervor e misteriosa lealdade”.
Ao citar Borges, Hatoum confirma o que todos já sabemos: literatura é transgressão por excelência; ao citar a definição borgeana de clássico, nos joga no plano da outridade enquanto leitores. Muito bom! O que é a obra de Machado?
Ainda Hatoum: “A obra ficcional de Machado de Assis – principalmente os romances e contos publicados a partir de 1880 – é lida “com prévio fervor e misteriosa lealdade”. Isso porque ele defende que o prazer da leitura está implícito na definição de Borges. Por que Machado de Assis é lido? Hatoum ainda nos diz no mesmo texto que Machado é um pessimista.
Ora, Machado é hoje! Sua obra “transcende questões e particularidades locais” e vai às alucinações, ao delírio e à loucura “que nem sempre se vinculam `a classe social das personagens”. Em suma, “como não pensar o Brasil de hoje em sua escrita de ficções sofisticadas sob todos os ângulos: estético, social, político, psicológico, histórico?”
Na obra Achados & Perdidos, por vir em breve, muitas vezes, meu “olhar zombeteiro”, para usar expressão de Hatoum, sobre questões várias, como, para exemplificar, nossa reflexão sobre o real e o ficcional, são achados em vários escritos e rabiscos, no fundo de gavetas, em arquivos de notebook, para dar uma espécie de ressignificação, ressingularização a várias questões: sim muitos assuntos são inumanizados, exumados para voltar ao chão, ao rés do chão: trazem sempre desilusões do processo histórico, este, perdido: Quem matou Getúlio Vargas, de Carlos Heitor Cony ao Prêmio Camões dado a Chico Buarque, em 2019, às “Araras Versáteis”, descaradamente hilárias de Hilda Hilst, ao sertanejo de Euclides da Cunha, em Os Sertões, crônicas e artigos escritos, achados e perdidos, escritos ao longo de 10 anos desde que se planejou a Plataforma Viu!Online.
Achados & Perdidos é com certeza o meu olhar zombeteiro, irônico e de galhofa da realidade que nos circunda hoje, do pesadelo de onde pulamos, ao tentar escapulir dele, do desprogresso, um não ao positivismo nefasto e destruidor.








