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Flávia D´Ângelo, uma poeta brasileira renascendo na África

Deneval Siqueira Por Deneval Siqueira
12/12/2018 - 15:58 - atualizado em 13/12/2018 - 21:23
em Cultura
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Foto de Flávia D'Ângelo

Poeta Flávia D'Ângelo | Foto: Reprodução Facebook

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De volta a sua cidade natal, Campos dos Goytacazes (RJ), autora narra a experiência como enfermeira em Moçambique;

Arte | Escultura
Escultura de А.Аветисян (1971-2004)

Depois de passar 7 meses na África em missão da Ong Médicos Sem Fonteiras, a poeta brasileira Flávia D´Ângelo está de volta a sua terra natal, Campos dos Goytacazes (RJ), no Norte Fluminense.

Não foi apenas uma missão como enfermeira, foi também uma temporada de aprendizado sobre relações humanas. Em Moçambique conviveu com o sofrimento, viu a morte chegando para levar seus pacientes, mas encontrou forças ao conviver com um povo que não se resigna. Ainda que estejam diante das adversidades, os moçambicanos sobrevivem com alegria. Confira:

Deneval Siqueira (DS) – Sei, por intuição, que você tinha o sonho de participar de uma missão no Médicos Sem Fronteiras. Teve que persegui-lo com muita firmeza, imagino. A poeta extraordinária Flávio D´Ângelo foi na bagagem?

Flávia D´Ângelo (FD) – Não sei bem sobre a poeta (risos), mas com certeza um sonho antigo. Até que para minha surpresa, ao tentar ingressar na Ong, foi um processo bem rápido até meu recrutamento. Um surpresa agradável.

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DS – Deu para compor versos na África?

FD – Poucos. Confesso que o choque da realidade me fez esquecer um pouco a escrita. Fiz poucos escritos. O dia a dia exigia de mim uma força física e emocional que pouco sobrava para me expressar, frente ao que via, meus escritos antes tão relacionados a uma fase atravessada por depressão, seriam pequenos demais comparando ao sofrimento que vivenciei. O esgotamento emocional me fez sentir vergonha de expressar o ínfimo pensamento sobre meu sentir, frente a triste realidade lá vivida.

Flávia D'Ângelo
Foto: Ilustração

DS – O que sente neste momento em relação aos povos africanos e a esse continente sofrido, tão inumano?

FD – Um orgulho incrível de partilhar uma experiência ao lado de um povo que apesar do sofrimento, encara dia a dia suas lutas, sempre com um largo sorriso no rosto, uma força que não sei de onde vem. Me senti acarinhada, acolhida e partilhei com eles suas tristezas e alegrias. Moçambique está no meu coração. Me fez sentir em casa. Muito diferente daqui, sem o politicamente correto, sem medo de expressar a cultura negra e seu valor. Que orgulho sentem pela raça, pelos antepassados. Nunca ouvi de nenhum deles a culpabilidade de seu passado pelo futuro tão doído. Quanta diferença do Brasil. O que aprendi de sua cultura, sua força, sua luta, com certeza, deveria servir de referência para o que é o verdadeiro amor pela sua raça. Para igual, assim fui tratada e recebida por esse povo. E com certeza, sem entrar em política, os mais inumanos que conheci lá não foi o povo africano.

DS – Como tem sido seu trabalho no programa? Você se sente muito útil, imagino. Mas e a parte criativa ajuda muito ou atrapalha?

FD – Não posso entrar em detalhes sobre a Organização, mas dentro do que me foi permitido e possível realizar, digo que nunca tive em minha vida profissional e pessoal uma experiência como essa, proporcionando um crescimento profissional, e maior ainda, pessoal. Sempre me fiz útil, ou tento ser, quando num ambiente hospitalar, onde há tanta demanda de cuidados, e principalmente, respeito, contato humano e ética com pacientes que tão pouco recebem, por várias questões que prefiro não comentar. A parte criativa ajudou a burlar os obstáculos, na tentativa de oferecer o pouco que me foi permitido, diante a realidade. A sensibilidade acredito que ajuda no momento que me coloco no lugar daquele que sofre, isso me humaniza. Ao mesmo tempo, deixa difícil aceitar mortes, negligências, falta de ética médica, e a falta de foco no paciente, enaltecendo burocracias, protocolos, números, dados…só me importava com vidas, eis o mais difícil de vivenciar certas situações.

Missão Médicos Sem Fronteiras em Moçambique, na África
Poeta Flávia D’Ângelo com amigos na missão da Ong Médicos Sem Fronteiras, em Moçambique, na África | Foto: Arquivo pessoal

DS – Quando volta ao Brasil? O que trará de mais humanista daí para dividir conosco?

FD – Já estou de volta. Com certeza trago comigo o exemplo de superação e resignação desse povo incrível. Seu sorriso me marcará para sempre. E o orgulho por sua história, nunca deixando o passado impedir a esperança no futuro. Sem demonstrações, como aqui no Brasil, de vitimização, de esconder suas origens, apesar de todo sofrimento de seus antepassados. Isso foi o que mais me surpreendeu. Vi crianças usando camisas: “Maquaquinha do papai”, bar chamado Negrita, lindas pinturas retratanto o passado da escravidão, negros em cafezais…e laços fortes de amizades onde sua cor não importa. Não sofri em nenhum momento tratamento diferenciado pela cor da minha pele. Como eles me diziam: “Você é das nossas”. A diferença de cor nunca foi praticada em mim. Muita saudade daquela alegria, das músicas e cantos sempre presentes, das cores das Kapulanas, das mulheres lindas e vaidosas, de um povo que sofre, e acorda imaginando que o novo dia será melhor.

DS – Aprendeu muito com a cultura nativa? Narre um pouco fatos que marcaram até o momento sua estada no Continente Africano: amizades, namoro, costumes, Ritos, e outras que você considere importantes.

FD – Além das comidas típicas, das cores vibrantes em suas vestes, do sorriso e cordialidade sempre presentes, amizades que trago comigo e tenho contato até hoje. Nunca em minha vida profissional testemunhei tamanha pobreza e sofrimento. Mas a resignação e esperança, as dificuldades presentes por muita vida vivida não são retratadas no bom humor, nas festas, no trabalho. Com certeza posso afirmar que o homem moçambicano foi o mais seguro que conheci até hoje (risos). Não precisam de cargos, dinheiro, posição nem poder para cortejar uma mulher, diretos, sem rodeios. Um machismo que respeita e enche teu ego. Confesso que nunca vi negros tão bonitos, aff (rs). Costumes alguns já conhecidos por nós, mas a minha feijoada brasileira ficou na lembrança por lá. Outra coisa que vi muito foi crenças em curandeiros para doenças, se bem que, em alguns casos, o jeito era recorrer ao hospital. O que não garantia realmente cura. Além do povo local, o ciclo de amizades com pessoas de várias culturas foi desafiador. E independente de cultura, homem é homem. E lembrando que: o que aconteceu em Moçambique, fica em Moçambique (rs). Meu foco não era esse, mas…

Médicos Sem Fonteiras em Moçambique
Flávia D’Ângelo na Missão Médicos Sem Fronteiras em Moçambique | Foto: Arquivo pessoal

DS – Estamos com saudades de você e de suas poesias. O que há de novo? Passou por alguma transformação?

FD – Ainda sem escrever. Acredito que tentarei aos poucos recomeçar, apesar de sentir que o estilo nunca será o mesmo. Com certeza passei por uma mudança interior grande, e penso nunca mais voltar a ser o que era. Não sei se será ruim, mas quem vivencia tanta tristeza, mortes, fome, descaso, choque de realidade frente as diferentes motivações por parte de alguns colegas, tenderei a ficar mais isolada, pois sem paciência para conversas superficiais, reclamações banais, futilidades…não sou melhor que ninguém, mas só eu sei o que passei. E minha visão sobre questões raciais vistas hoje no Brasil, tão desconexas com aquela vivida no continente de origem da raça negra me deixaram sem saco para esse debate, proibindo coisas que nunca seriam onde vivi nesses 7 meses. Gostaria que todos fossem conhecer esse mundo africano, que marcará para sempre minha vida. Agradeço essa oportunidade de aprender tanto com eles. Me neguei, portanto, a não ser humano num trabalho humanitário. Outra lição, independente de cultura, pessoas ruins estão em toda parte. Como as boas também. E sou muito grata mantendo meu orgulho por ter feito parte dessa organização Médicos Sem Fronteiras.

embeveçamos o proibido. roteiro escrito do que te preciso fiz. nada vida sua me diz, ausência faço-te na minha. claudico sem medo violar inteiro o não me pertencido. carne sacio de corpo sentido dentro meu. pele expele tesão bebe homem na cama que mulher toda cede pedido seu. farta em gozo, prazer devolvido sugo-te e findo encontro prometido ser único. partidos caminhos seguimos…liberta de culpa, nunca digo nunca te ter outra vez | Flavia D’Ângelo

Tags: #África#Entrevista de Flávia D'Ângelo#Flávio D'Ângelo#Moçambique#Poeta
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