Meu Santo Antônio, meu Santo Antônio, meu Santo Antônio, por que sois… Dá-me o primeiro marido, Que o segundo eu arrumo depois.
(Versos populares, anônimos).
Santo Antônio é o segundo santo com o maior número de devotos no Brasil, mas sua fama se consolidou como casamenteiro. Dois importantes episódios o fizeram merecer essa fama. Ele normalmente é representado em imagens, segurando o menino Jesus e, além de ser considerado um dos santos mais populares do Brasil, como já vimos, é também um dos mais importantes do Catolicismo.
A data de sua celebração é a mesma em que ocorreu o seu falecimento, – Santo Antônio morreu em Pádua, na Itália, em 13 de junho de 1231, com 36 anos – e, devido à sua fama de milagroso, muitos devotos fazem simpatias e deixam a sua imagem “de castigo” para chamar a sua atenção para que ele possa auxiliá-los a encontrar a alma gêmea. Ele só é milagroso por ser o “patrocinador” dos encontros entre casais, que um dia chegarão ao altar.
A natureza miraculosa do Santo é diferente. Não se trata de uma cura, da satisfação de um desejo, uma viagem, por exemplo, a reconciliação com amigo, amiga. O elemento libidinoso entra como ingrediente, sem o qual não há encontro, não há casamento e o motivo principal do casamento, segundo o cristianismo, a procriação.
Apesar de não ter em seus sermões nada específico sobre casamentos, Santo Antônio ficou conhecido como o santo que ajuda mulheres a encontrarem um marido, por conta da ajuda que dava a moças humildes para conseguirem um dote e um enxoval para o casamento. É um detalhe precioso, porque temos que levantar a questão social que envolvia fortemente os casamentos de antigos e os de um passado presente. As famílias ricas não tinham dificuldade de “construir o dote” das filhas já prometidas a algum rapaz da nobreza endinheirada.
Santo Antonio intervinha na questão das desigualdades sociais. As moças pobres tinham que apresentar um dote para despertar a atenção de um pretendente, de um moço que fosse bom, educado e trabalhador, da mesma classe social que a dela.
Ser casamenteiro por essa razão é diferente de ser casamenteiro pelo fato de o Santo usar de sortilégios para provocar encontros irremediáveis. A tradição o consagrou casamenteiro nesse último sentido, colocando-o no mesmo nível das alcoviteiras, muito bem retratadas pela tradição literária ibérica. É um equívoco que deve ser desfeito porque, se não, corre-se o risco de se perder esse viés social de sua atuação. Vejamos como agia Santo Antônio, o justiceiro.
Reza a lenda que, certa vez, em Nápoles, havia uma moça cuja família não podia pagar seu dote para se casar. Desesperada, a jovem – ajoelhada aos pés da imagem de Santo Antônio – pediu com fé a ajuda do Santo que, milagrosamente, lhe entregou um bilhete e disse para procurar um determinado comerciante. O bilhete dizia que o comerciante desse à moça moedas de prata equivalentes ao peso do papel.
Obviamente, o homem não se importou, achando que o peso daquele bilhete era insignificante. Mas, para sua surpresa, foram necessários 400 escudos da prata para que a balança atingisse o equilíbrio. Nesse momento, o comerciante se lembrou que outrora havia prometido 400 escudos de prata ao Santo, e nunca havia cumprido a promessa. Santo Antônio haveria de fazer a cobrança daquele modo maravilhoso. A jovem moça pôde, assim, casar-se de acordo com o costume da época e, a partir daí, Santo Antônio recebeu o epíteto de “Casamenteiro”.
Outra história, que envolve a fama de Santo Antônio, é a de que uma moça muito bonita, que havia perdido as esperanças de arranjar um marido, apegou-se a Santo Antônio. Dizem que a mulher adquiriu uma imagem do santo e colocou-a em um pequeno oratório. Todos os dias, a jovem colhia flores e as oferecia a Santo Antônio, sempre pedindo que este lhe trouxesse um marido.
Mas, passaram-se semanas, meses, anos, e nada do noivo aparecer. Então, tomada pelo desgosto e pela ingratidão do santo, ela atira a imagem pela janela. Neste exato momento, passava um jovem cavalheiro que é atingido pela imagem do Santo. Ele apanha a imagem e vai entregar à jovem, que se apaixona por ele e atribui a sua chegada a fé por Santo Antônio.
A partir daí, as moças solteiras que queriam se casar começaram a fazer orações pedindo ajuda ao santo e cultuando sua imagem. Entre as simpatias mais populares, acredita-se que as jovens devem comprar uma pequena imagem do Santo e tirar o Menino Jesus do colo, dizendo que só o devolverá quando conseguir encontrar o amor. Outra estratégia é virar o Santo Antônio de cabeça para baixo.








