Embora haja inúmeros discursos no romance em análise, a narrativa, como um todo, tem duas estruturas e um só olhar. Vitória-Creta, ruína da memória, é o simulacro, um mito que habita o presente, ou, pelo menos, deveria habitar. É também pelo viés da escatologia que a autora anuncia a ameaça da catástrofe e instaura, efetivamente, na narrativa, a visão apocalíptica de algumas “dúvidas assombrosas”: “Então, o coração deles tremeu e a saliva engasgou-se em suas gargantas. Pensaram: oh adorável, oh amada, onde iremos repousar na velhice?” (p. 17).
Durante esse “passeio”, um olhar familiar estranha a ilha. Lyra usa o estranhamento para (re)projetá-la, tornando a narrativa suscetível de fazer um novo pacto com o mito: “Homens sonham com os Minotauros e vêm assassiná-los. Minotauros, porém, sonham com os homens até o esgotamento (p. 23)”.
Além disso, a aproximação do mito na configuração do real se dá em quatro planos distintos:
1 – Em Creta, onde o mito é narrativa, é também cenário: no plano da tessitura estética (para evitar dizer no plano textual, dado que o mito primitivo é inseparável da oralidade) o mito é passível de uma análise que põe em evidência o encadeamento das sequências, exatamente como está disposto no romance, os efeitos possíveis daquele que conta (histórias de tio, irmão, etc), as variantes (Creta/Vitória; labirinto do Minotauro/labirintos de Minotauros; Ícaro/ os dois Ícaros) e o elemento invariável da história (A Ilha).
2 – Em Vitória-Creta, onde o narrador nomeia, no plano técnico, a geografia da Ilha, organizando a intromissão do real: ele nomeia coisas, explica-as, hierarquiza-as: manguezais, rio Santa Maria, Moxuara, capela de Santa Luzia, etc. São as ruínas.
3 – Na Memória, não simplesmente na História, o autor mostra o tempo, o espaço, o lugar e o grupo.
4 – No valor ético: propriedade do grupo que o possui, ela dá coerência a este grupo. Ele é, afinal, aquilo a que chamamos nas sociedades modernas o seu sistema de valores.
Há ainda uma “violência fundadora” explícita na gênese do romance: apesar de haver histórias, figuras míticas – sobretudo as que herdamos da tradição greco-latina –, cuja exemplaridade inspira periodicamente a imaginação poética e a imaginação criadora da autora, ela, muito pessoalmente, violenta a tradição mítica sempre que, noutro plano, modifica o fundo mítico, dando-lhe uma outra feição, particular, apropriando-se, assim, da memória cultural da ilha de Vitória e dessacralizando-a. Rupturas!
Finalmente, o mito funciona na obra de Bernadette Lyra como metáfora de uma violenta recusa de aceitar os aterros, as construções sobre os manguezais, a invasão imobiliária, etc. Vitória, sendo memória de Creta é o elemento que dá tessitura aos momentos poéticos do texto no tecer de Ariadne.
Porém, as armadilhas do texto, ou mesmo sua chave explicativa, ao contrário do mito reescrito, ultrapassam o próprio texto, pois insinuam que toda a cultura ocidental está em crise e, mais ainda, está em crise no que ela tem de mais trágico e único: a ideia religiosa de intemporalidade concebida no próprio interior do efêmero.








