Machado (tão contemporâneo!) e gênio da literatura. Obra do escritor brasileiro tem alcançado admiradores no mundo inteiro |
Em tempos de hibridismos, guerras, migrações, imigrações, foragidos, nada melhor que ler Machado de Assis e ouvir música dos anos 90, final do século passado. É o que tenho feito para descansar um pouco e me divertir ao mesmo tempo.
Chamo a atenção, especialmente, para alguns contos primorosos do Bruxo do Cosme Velho, que dizem respeito à criação da obre de arte. Aqueles chamados por Alfredo Bosi de Contos-teoria. Nesta crônica, quero explorar a ironia contemporânea, já tão usada por Machado, tendo o Rio de Janeiro da virada do século XIX para o século XX como pano de fundo.
Em “Dona Benedita & em “Um homem célebre”, o narrador tem um papel importante na configuração da fábula, pois a escritura é por ele configurada na trama. O narrador machadiano lança mão de tanta ironia que sacraliza o tom de crueldade em relação às personagens principais. O humor sardônico também é uma característica relevante nas duas obras. A ambição pode ser uma temática em comum, porém em ângulos diferentes. Um em busca de realização vocacional e, o outro, da ascensão social de sua prole.
No caso de “Um homem célebre”, há ambição por parte de Pestana em produzir música erudita, ao invés de polcas. A também ambição em “Dona Benedita”, na personagem de mesmo nome, em casar sua filha com um bom partido. No entanto, o fracasso, a impossibilidade de realização é marcada nos contos; na vida de D. Benedita nada se concretiza. O narrador deixa estes pontos bem claros ao longo da obra; as cartas não viram bilhetes, os livros não são lidos, os viúvos desistem e enquanto isso os dias vão passando.
Para Pestana, o seu maior fracasso é a tentativa de compor música erudita como os grandes mestres da música clássica; Bethoven, Mozart, Chopin… e nunca conseguia, sempre vinham polcas e mais polcas, aumentando o sentimento de frustração que pairava na atmosfera psíquica da personagem. Esta passagem de “Um homem célebre” exemplifica a crueldade do narrador e da impossibilidade de criação da personagem, que gera um desconforto, devido ao fracasso.
Às vezes, como que ia surgir das profundezas do inconsciente uma aurora de idéia; ele corria ao piano, para aventurá-la inteira, traduzi-la em sons, mas era em vão, a idéia esvaía-se (…) Então, irritado, erguia-se, jurava abandonar a arte, ir plantar café ou puxar carroça…(ASSIS, 1997, p. 23)
Tanto no primeiro como no segundo contos, há elementos de veleidade, ou seja, distinção entre o pretendido e o alcançado na vida das personagens principais. Elas têm vontades que nunca chegam a se concretizar. Machado também usa artimanhas próprias ao fazer com que o narrador seja crudelíssimo ao descrever os cenários e as personagens detalhadamente, sordidamente, pormenorizando texturas e formas, entre outras características que compõem as duas tramas.
Outro fato similar é o casamento por interesse, de um lado a questão financeira e do outro a criação. Pestana acreditava que o motivo para sua esterilidade criativa vinha da sua condição de celibato (pura ironia!). Portanto, o casamento foi uma ferramenta utilizada na tentativa de aquisição; financeira para um, criativa para outro.
Pode-se concluir, nestes dois contos, da linhagem de outros tantos como “Cantigas de Esponsais”, “Trio em Lá menor”e “O Machete”, os traços estilísticos do autor que permeiam suas obras, deixando características análogas, às vezes por situações distintas, mas que se convergem no referente ao significado extratextual. As obras são salpicadas de sardonismo, banhadas a jogos de interesse e cheia de frustrações. Estes contos machadianos são importantes, pois, para além do valor literário canônico inegável, contextualizam a sociedade em que vivia, juntamente com suas virtudes e seus males.
E esse jogo feroz já não contextualizava o capitalismo feroz e tardio da contemporaneidade? De hoje? Machado profeta! Sua obra é de fundamental importância para as escolas literárias brasileiras do século XIX e do século XX e surge nos dias de hoje como de grande interesse acadêmico e público. Influenciou grandes nomes das letras, como Olavo Bilac, Lima Barreto, Drummond de Andrade, John Barth, Donald Barthelme e outros. Em seu tempo de vida, alcançou relativa fama e prestígio pelo Brasil, contudo não desfrutou de popularidade exterior na época. Hoje em dia, por sua inovação e audácia em temas precoces, é frequentemente visto como o escritor brasileiro de produção sem precedentes, de modo que, recentemente, seu nome e sua obra têm alcançado diversos críticos, estudiosos e admiradores do mundo inteiro. Machado de Assis é considerado um dos grandes gênios da história da literatura, ao lado de autores como Dante, Shakespeare e Camões.








