Hoje, ao completar mais um ano de vida, quero agradecer a todos os amigos as felicitações, agradecer a Deus de ter meus pais vivos, e outros entes queridos, amigos, colaboradores e leitores. Olorun no comando, Oxóssi, Okê Arô, na cabeça, feita na Bahia há 43 anos.
Em 2002, como 1º Presidente da ABEH (Associação Brasileira de Estudos da Homocultura), realizei o 1º Congresso Homocultura e Cidadania na Ufes, em 2002. E já se passaram 18 anos.
Peguei os anais do Congresso, organizado por Rick Santos e Wilton Garcia, intitulado A Escrita de Adé – Perspectivas teóricas dos estudos gays e lébicas no Brasil, editado pela SUNY-Nassau C College e ABEH (2002).
Reproduzo aqui o meu texto:
Uma recepção supramoral do corpo masculino como objeto de observação (desejo homoerótico) pode estar numa observação feita por Leonardo da Vinci (Néret, 1994) em plena época renascentista: “A primeira pintura aconteceu quando o sol projetou a sombra de um homem na parede.” Acontece que o pênis deste homem estava ereto. Saía de seu corpo a projeção do falo, vitalizado, na fala de Da Vinci, por uma mentalidade erótico-artística do gênio. Reverberam como um corpo acometido por outro: assim, tem-se a arte e o corpo, a arte e o falo, o falo e o gozo. Tem-se ainda uma concepção de corpo erótico viva, profana, inseparável da beleza, tanto como gozo quanto como valor.
No que se refere ao prazer (gozo) propriamente literário do leitor, gostaria de chamar a atenção de todos para o lugar marcado, no leque das representações e dos experimentos contemporâneos, da escritora Hilda Hilst, hoje muito lida e conhecida, que, numa atitude rara na literatura brasileira, grafa seus livros em sacolejos da página: “salta-se do prazer ao repúdio, da linguagem preciosa à chula, de alusões poéticas a passagens góticas, da comicidade ao patético, do comovente ao besteirol” (Arêas, 2002).
Em Cartas de um sedutor (Hilst, 1990, a) a personagem-mendigo (alterego do escritor ou seu duplo) afirma: “Como pensar o gozo?”, “Como pensar o corpo?”. Este profeto místico do erotismo, duplo da personagem Karl, perverso e sedutor, traça um embate entre corpo e gozo, que acaba perpassando a obra hilstiana, em outras obras.
Em Contos D’Escárnio-Textos Grotescos, Hilda Hilst parece liberar-se de qualquer amarra, identificando o leitor com a galhofa kitsch-obscena, com o riso e por que não com a gargalhada.
Em Bufólicas (Hilst, 1993, p. 8), o falo é politizado e a ele é conferido o poder no texto “O reizinho gay”:
Mudo, pintudão
O reizinho gay
Reinava soberano
Sobre toda a nação,
Mas reinava…
APENAS…
PELA LINDA PEROBA
Que se adivinhava
Entre as coxas grossas (…)
Se em Cartas de um Sedutor (op. cit.) há toda uma apologia ao amor homoerótico e a um Eros pederasta, em Rútilo Nada, a boca de cena nos mostra a tragédia de amor entre Lucius e Lucas provocou no crítico estadunidense David William Foster (ASU) a seguinte escrita: “Nenhum outro escritor latino-americano, nem mesmo Manuel Puig, que foi mestre na representação das perversões, escreveu tão terrificante histórica de vingança sexual em que a transgressão, nos termos do amor gay, choca-se tão extraordinariamente com a realidade latino-americana”.
Um corpo jaz na câmara. Um corpo gay. Morto. Na ribalta, a cena final de Rútilo Nada: “Posso te tocar um pouco, menino? Eu estava de bruços e suspendi a cabeça para ver. A boca do teu pai tremia. Ele beijou minha boca ensanguentada. Eu sorri. De pena da volúpia (Hilst, 1994, p. 25).








