No evento LITERATURAS DE AUTORIA FEMININA, os webinários foram grandiosos. Houve uma live (As irmãs Lispector: três ficcionistas) conduzida em Paris pela Maria José Torquato Chotil (Mazé) com a presença da estudiosa da autora Nádia Battella Gotlib (USP/ Clarice: Uma vida que se conta; Clarice Fotobiografia) e da atriz Gabriela Scheer. Entre tantas outras lives com a presença de vários estudiosos da autora, vários são os discursos de seus maiores pesquisadores e estudiosos na celebração de seu centenário.
Sediado na UFRJ, o NIELM (Núcleo Interdisciplinar de Estudos da Mulher na Literatura) está promovendo vários webinários em homenagem à Clarice Lispector, durante a semana, que contam com a presença de várias especialistas na obra da autora, leitores, muita gente de alto quilate: além das citadas acima, outras figuras não menos importantes no estudo da obra clariceana participaram. Lucia Helena (Instituto de Letras da UFF/UFRJ) é uma das fundadoras do NIELM e nos presenteou com a fala Clarice eterna, com mediação de Cláudia Castanheira (UFF).
Lucia Helena é autora de Nem musa nem medusa: itinerários da escrita em Clarice Lispector. Muitos outros estudiosos e docentes participaram. Grande evento.
Para relembrar meus estudos sobre Clarice (foi com um ensaio sobre a obra dela que fui selecionado para fazer a prova escrita do mestrado em Teoria Literária do IEL/Unicamp), revisitei o excelente CLARICE olhares oblíquos, retratos plurais, organizado por Betina Ribeiro Rodrigues da Cunha e editado pela Edufu em 2012. Reli eu mesmo o excelente volume, contendo vários artigos escritos elencados por autores de quilate inquestionável, como Vilma Arêas, Olga de Sá, Suzi Frankl Sperber, Betina Ribeiro Rodrigues da Cunha, César Mota Teixeira, Eduardo Alves Rodrigues, Eduíno José Orione, entre outros não menos importantes.
Retomo o meu texto, parafraseando-o, e que seja esta minha homenagem à autora, tão importante na minha formação, subscrevendo a parte onde narro minha primeira experiência de leitura com Clarice: Água Viva, de 1973:
Clarice se firmou, a partir de Água Viva (1973), como a escritora dos excluídos, atraindo para si um leitor especial. Muitos nos anos 70 já tinham este livro de Clarice na cabeceira. No auge do advento da contracultura, do código amor-liberdade-paz e livre-arbítrio, NADA MAIS DELICIOSO E ENCONTRANTE DO QUE LER CLARICE.
Foi nessa época que conheci um homossexual na Lapa decadente dos anos 70, alcunhado Bebel, vítima da queda dos intelectuais censurados pela ditadura. Na Capela antiga, declamou pra mim trechos da prosa poética. Gostei mais ou menos. Mas comprei-o e virou meu livro de cabeceira por dois anos. Fiz teatro com ele. Parece que a prosa de Clarice servia pra abrandar os ânimos acirrados daquela época, tempo de mordaça. Os homossexuais, a maioria, abandonaram Cassandra Rios e Adelaide Carraro para ler Clarice. Havia reunião de claricianos. Armários de cadeadão tremeram e muitas portas se abriram. (AZEVEDO FILHO<, 2012, p. 94)
As criaturas femininas de Clarice Lispector se desvelavam para esse leitor diferente e desterritorializado, dando-lhe sempre o gosto daquela narrativa andrógina, cheia de pontos de indeterminação. A fábula não se fazia tão necessária. O fragmento e o obscuro eram uma massagem nos egos e uma compensação do recalque, consequência, nos oprimidos, da repressão e do preconceito.
Firmou-se, assim, fora dos meios acadêmicos, uma autora que até hoje coloca os teóricos e os críticos em situação bastante inusitada: a de desvelar Clarice enquanto sua “personagem maior”, que convive com todos os seus “eus” sendo sempre o outro.








