Na peça Campões do Mundo, de Dias Gomes, publicada em 1968, no contexto da transição para o regime democrático no Brasil, as personagens Ribamar, em seu retorno ao Brasil após nove anos no exílio, e Tânia, antiga companheira dos tempos de militância política anti-golpe de 64, fazem uma reflexão a respeito de um dia, em 1970, em que, juntamente com a organização a que pertenciam, sequestraram o embaixador dos Estados Unidos e que coincide com a final da Copa do Mundo na qual o Brasil foi campeão.
Dias Gomes, muito sabiamente, posiciona as duas personagens em um momento estratégico, ou seja no processo de abertura política que demarca o presente e que aponta para um passado que merece ser revisto, discutido e avaliado, e para um futuro marcado por incertezas (e aqui estamos nós incertamente!). Distanciados do evento sobre o qual refletem, a rememoração das personagens pretende expor no palco, na cena, os medos e anseios dos militantes de esquerda que, até então, não poderiam ser formalizados por causa da censura cega e maldosa além de excludente e nefasta.
Portanto, mais do que expor um evento que nortearia o desenvolvimento dramático da peça teatral, Dias Gomes busca, no entrecho das reflexões propostas, estabelecer um panorama sobre o momento histórico do Brasil para o qual se voltam suas reminiscências, vivências negativas e criminosos do golpe e do pós-golpe de 1964.
Apesar de também apresentar forte características de um texto dramático desde sua formatação original de drama tradicional, a peça apresenta muitos elementos de cará ter épico, principalmente o modo como se estrutura a fábula, com quadros curtos e independentes, com muitos deslocamentos temporais (de flashback e de flashforward) e notadamente a formalização de questões pertinentes do recorte histórico que é feito. O próprio Dias Gomes afirma sobre seu texto teatral:
Utilizei depoimentos publicados ou que pude colher, pessoalmente, que viveram, protagonizaram ou simplesmente a grande crise político-social dos anos 69 e 70 do século passado. Também me vali, basicamente, de minha experiência pessoal de militante político e não há dúvidas de que aqui me coloquei por inteiro e sem ressalvas. Entretanto, procurei, neste pequeno mural histórico, muito menos impor a minha visão particular da realidade do que fornecer elementos para que o espectador conclua e formalize a sua própria visão, fazendo seu próprio julgamento, tentei apenas levantar questões, debate-las, sem ser conclusivo, mas fornecendo dados suficientes.
Em sua biografia, Dias Gomes destaca sobre o fato de não ser preso como lacuna (falha do sistema) em sua trajetória de luta social e que leva muitos e verem nele um carreirista. Por outro lado, quando a personagem afirma ter chutado tudo para viver na clandestinidade e estando ele atrelado a situações que remontam à própria vida de Dias Gomes (mesmo este não estando diretamente envolvido com movimentos guerrilheiros) aparece na peça como uma possibilidade de afirmação de que não se vendeu ao sistema, afinal no período da escrita da peça, Dias Gomes já se havia consolidado como respeitado autor de novelas de Rede Globo, tinha uma carreira estável, mas vivia em conflito com a censura militar, pelos grandes cortes em suas novelas.
Roque Santeiro, por exemplo, havia sido censurada completamente em 1975 e suas outras produções contavam sempre com núcleos de crítica à especulação imobiliária, à farsa do sistema político, ao processo de favelização brasileira e à exploração indiscriminada do meio ambiente pelo meio empresarial, verdades ainda mais contundentes e cruéis nos dias de hoje.
Campeões do Mundo, livro de minha autoria sobre a obra do autor, entre outras peças teatrais de Dias Gomes, juntamente com a Antologia dos Poetas Brasileiros Modernos MOSAICO, vol. I e vol. II, serão lançadas em Campos dos Goytacazes em data e local ainda a ser marcados e posteriormente divulgarei.








