Pixote é um retrato de tudo que o Brasil ainda vive e o Beijo da Mulher Aranha um divisor de águas na carreira do cineasta |
Poucos diretores ganham toda a sua carreira com apenas um filme. Hector Babenco faz parte desta categoria. Foi com Pixote – A lei do mais fraco (1980), um retrato de tudo o que o nosso país vivenciava nos anos 80 e (ironicamente) ainda vive. Se ainda houver dúvidas quanto a esta afirmação, basta assistir a cena mais impactante do filme, na qual a personagem interpretada por Marília Pêra recebe entre os braços a personagem título do filme para em seguida lhe dar de mamar. Pixote é um menino de rua, marginalizado, com 11 anos de idade. O filme é um retrato fiel, cruel e doloroso de toda a falência social no país, que há 30 anos já dava sinais do que iríamos vivenciar.
Babenco pertence à categoria dos diretores de trabalhos pessoais, que busca aquilo que sempre está diante dos olhos e que nunca foi observado de perto. Ao filmar, ele usa a câmera como uma grande lupa moral. “Pixote”, “O Beijo da Mulher Aranha”, “Ironweed”, “Brincando nos campos do senhor” e “Carindiru” são exemplos que o definiu, demonstrou sua qualidade de dirigir personagens, tocar em temas sérios e criar cenas únicas no cinema.
Talvez “O beijo da Mulher Aranha” seja o divisor de águas em sua carreira. É um daqueles filmes que são exibidos no momento certo, no ano certo e com atores em seus melhores momentos. Ao colocar juntos em uma cela brasileira um homossexual e um ativista político, Babenco expõe a intimidade de duas pessoas que à primeira vista são diferentes, mas que em suas intimidades não diferem em nada de seus princípios e interesses.
Em Ironweed (1987) os personagens de Jack Nicholson e Meryl Streep são bêbados e moradores de rua, que escolhem ao mundo da fantasia para esquecer as perdas da vida. Babenco confia na interpretação desses dois atores para expressar toda dor, solidão e perda dos excluídos da sociedade, mas que não deixam de ser tão próximos de nós quanto qualquer outra pessoa.
Já em Brincando nos campos do senhor (1991), a questão indígena e territorial são levantadas por meio de dois personagens e sua relação com uma autoridade local. Em uma parte da Amazônia são confrontados com a religião, ética e moral, numa terra que aos poucos os transforma.
Um dos seus últimos trabalhos foi Carandiru (2003), baseado no livro de Dráuzio Varella. A visão de Babenco adequou-se perfeitamente ao livro do conceituado médico, que relata o dia a dia do presídio paulista conhecido pelo massacre em 1992. Vale aqui destacar que a carreira comercial de Babenco não foi um sucesso. Seus filmes, por mais que sejam elogiados e premiados, quase nunca tiveram um retorno positivo. O Beijo da Mulher Aranha e Carandiru são as exceções. O que prova, acima de tudo, que o diretor construiu uma filmografia unicamente por suas qualidades artísticas.
Mas a grande conquista para qualquer cineasta ou outro profissional é constatar a qualidade do seu trabalho, a certeza de ter conseguido imprimir sua marca e deixar um uma história a ser contada. Babenco sempre foi respeitado no Brasil, mas nunca tratado da forma pelo qual merecia. Argentino de Mar del Plata, radicalizado no Brasil, encontrou o merecido respeito no exterior, assim como muitos outros artistas brasileiros. Infelizmente, sua morte pode mudar esse quadro. O reconhecimento não morre e o talento nunca se esquece.
MORTE
O cineasta argentino Hector Babenco, de 70 anos, morreu por volta das 22h50 de quarta-feira (13/07), vítima de uma parada cardíaca. Ele havia sido internado na terça-feira (12/07), no Hospital Sírio-Libanês, na região central de São Paulo.








