Em 2025, o Brasil celebrou os 40 anos de sua redemocratização (1985) e relembrou os 61 anos do Golpe Militar de 1964, marcos que ecoam profundamente no premiado filme “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles.
Vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional na 97ª edição da premiação, realizada em 2 de março de 2025 no Teatro Dolby, em Los Angeles, a obra transcende fronteiras ao mergulhar nas feridas históricas do país, narrando a saga da família Paiva durante os anos de chumbo da ditadura militar.
1968: O ano que não começou em abril
A trama do filme, baseada na autobiografia de Marcelo Rubens Paiva, filho do deputado Rubens Paiva e Eunice Paiva (interpretado nas cenas finais por Fernanda Montenegro em uma atuação visceral), se entrelaça com um fato curioso da história: em 1968, os militares adiaram as comemorações do quarto aniversário do golpe para 31 de março, evitando associar a data ao Dia da Mentira (1º de abril).
A superstição revela a ironia de um regime que construía sua narrativa sobre alicerces frágeis.
O ano de 1968, porém, foi muito mais do que uma data no calendário. Marcado pela decretação do AI-5 — que fechou o Congresso, cassou mandatos e institucionalizou a censura —, o período representou um “golpe dentro do golpe”.
Sob o AI-5 e o Decreto-Lei 1077, mais de 500 filmes, 400 peças de teatro e 200 livros foram censurados, enquanto prisões, torturas e desaparecimentos, como o de Rubens Paiva (arrancado de casa em 1971 e nunca mais visto), tornaram-se rotina.
O mundo em chamas e o Brasil no centro
Enquanto o filme de Salles reconstrói a história pessoal dos Paiva, ele também captura o espírito de um planeta em ebulição. Em 1968, a juventude mundial insurgiu-se contra guerras, opressão e desigualdades — dos protestos de Paris à Primavera de Praga, do movimento estudantil no México aos Panteras Negras nos EUA.
No Brasil, artistas, intelectuais e estudantes ocuparam as ruas, desafiando a repressão em festivais de música, teatros e nas páginas da imprensa alternativa.
“Ainda Estou Aqui” retrata essa dualidade: a violência do Estado e a resistência cultural. Fernanda Torres, premiada com o Globo de Ouro de Melhor Atriz, encarna Eunice Paiva (na fase mais crítica da opressão), a mãe que transforma seu luto em luta, buscando respostas sobre o paradeiro do marido enquanto cria os filhos sob vigilância.
Sua performance captura a dor silenciosa de milhares de famílias, cujas histórias foram apagadas pelos arquivos da ditadura.
O legado de 1968 e a urgência da memória
Walter Salles, conhecido por obras como Central do Brasil (1998), não se limita a um relato histórico. O filme é um espelho do presente: em 2025, em meio às celebrações da redemocratização, o Brasil ainda debate os fantasmas do autoritarismo.
A escolha da Academia por “Ainda Estou Aqui” reflete um reconhecimento global da importância de confrontar o passado — especialmente em um momento em que discursos negacionistas ganham força.
A narrativa, entrelaçando arquivos reais e ficção, mostra como a arte sobreviveu à censura. Cenas de festivais da MPB, peças teatrais clandestinas e a efervescência do Cinema Novo lembram que, mesmo sob repressão, a cultura foi trincheira.
A trilha sonora, com canções de Chico Buarque e Caetano Veloso (ambos perseguidos pelo regime), reforça esse diálogo entre arte e resistência.
Um Oscar para o Brasil, uma homenagem aos desaparecidos
Ao receber a estatueta, Walter Salles dedicou o prêmio “aos que não estão aqui, mas cujas vozes ecoam em cada frame deste filme”.
A fala ressoou como um tributo não apenas a Rubens Paiva, mas aos mais de 434 mortos e desaparecidos políticos reconhecidos pela Comissão da Verdade.
Em um ano de efemérides dolorosas, “Ainda Estou Aqui” lembra que a memória é um ato político. Como diz uma citação de Eduardo Galeano no filme: “Não há história muda. Sempre há quem queira falar por aqueles que foram calados.”








