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A literatura e a geração 30

Deneval Siqueira Por Deneval Siqueira
24/09/2018 - 19:17
em Cultura
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Foto: Reprodução

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O resgate da Obra de Jorge Amado e outros autores do 2º modernismo; a Bahia e seus notabilíssimos poetas e escritores;

Ao longo da história do Brasil, a Bahia produziu muitos e notabilíssimos poetas e escritores, sendo os mais famosos Gregório de Matos Guerra, Castro Alves, Jorge Amado e Adonias Aguiar Filho. Poderíamos alargar essa lista de nomes de autores nordestinos e teríamos uma geração de escritores que formou a chamada “geração de 30”, se incluirmos José Américo de Almeida, José Lins do Rego, Raquel de Queiroz e Graciliano Ramos.

A Editora CRV, Curitiba, sempre atenta aos projetos mais ousados e detalhados na sua verve histórico-crítica, lançará em dezembro um selo, “crítica literária”, que em seu 1º Volume trará um estudo bem profundo das principais obras da ficção de 30: Jorge Amado, Raquel de Queiroz, José Américo de Almeida e Graciliano Ramos.

Foto: Reprodução

A autoria de tal selo, que também, em volumes próximos, abordará a poesia de 30, a prosa e poesia de 45, o Concretismo, o Tropicalismo e o Cinema Novo,é  minha e das pesquisadoras Dra. Cinthia Mara Cecato da Silva (Ufes), Dra. Cláudia Fachetti Barros (SEDU-ES) e Dra. Elizabete Gerlânia Caron Sandrini (Ifes), parceiras minhas em O Brasil é um escambo (1917), edição esgotada, já em segunda edição pela mesma CRV (Curitiba-PR).

Hoje irei dar uma mostra da coletânea, citando parte do capítulo que escrevi sobre toda a obra de Jorge Amado, como mostra da pesquisa de fôlego e da importância crítico-literária do selo, com prefácio do excelente Prof. Dr. Luis Eustáquio Soares (Ufes):

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“No decurso dos estudos sobre a obra de Jorge Amado, decorridos mais de quarenta anos de carreira novelística, o autor logrou criar personagens tão vivamente retratadas que a sua simples existência, ousamos dizer, suscitou estudos mais profundos. Não nos admira: elas se desenvolveram até atingir a própria síntese do que Welleck e Warren (1956) definem na Teoria Literária como um tipo ficcionalizado: “… [aquele que] é construído exclusivamente de sentenças que o descrevem (as imagens – grifo nosso), ou que o autor lhe pões na boca”. Figuras grandiosíssimas, estupendas como Antônio Balduíno, Gabriela e Flor, para só citar três, por enquanto, são prova disto.

A sua obra é uma das mais significativas da moderna ficção brasileira, sendo voltada essencialmente às raízes nacionais. São temas constantes nela os problemas e injustiças sociais, o folclore, a política e as crenças, as tradições e a sensualidade do povo brasileiro, contribuindo assim para a divulgação deste aspecto do mesmo.

Os quinze romances e uma novela curta se estendem de O País do Carnaval (1931) ao Tenda dos Milagres (1969) e abordam, segundo Paulo Tavares, grande estudioso da obra de Jorge Amado, cerca de duas mil e quinhentas personagens (TAVARES, 1969, p. 27). Não estão aí incluídos os incontáveis “comparsas periféricos”, termo usado pelo crítico-especialista, a maioria dos quais serve para dois claros objetivos, ora para definir as figuras de primeiro plano, personagens centrais, ora para completar um determinada ambiente cultural, dando-lhe plenitude e enfatizando a atmosfera do real empírico no simulacro do real representado.

Cumpre perceber que as personagens centrais, criadas durante esse período de efervescência criativa, evoluem, pari passu com as composições contraideológicas e periféricas de onde brotam. De um modo geral, a obra de Jorge Amado, embora avance cronologicamente, o seu curso está longe de ser linear. Por exemplo, os três primeiros romances de Jorge Amado, por exemplo, ou melhor ainda, aqueles em que o neorrealismo socialista prepondera, mostram poucos progressos neste sentido.

Na verdade, não obstante, em especial nos últimos, a evolução no desenho (grifo nosso) das personagens permanece estática de uma obra para a seguinte. Eduardo Portella chega a afirmar que ele “significa um retrocesso e não um avanço, um passo atrás e não uma nova conquista… “ (PORTELLA, 1959, p. 107). Vejo um exagero nessa afirmação e retorno ao argumento de Octavio Paz, quando ele afirma que “a história se projeta continuamente em direção a um futuro de realizações” (PAZ, In: ALMEIDA, 1969, p.40). Como isso funciona em Jorge Amado? A secularização do tempo e com ela a consciência histórica (metáforas, alegorias, telurismo, etc.), ao secularizar o tempo, e com isso constituir também uma história do real representado (simulacros) via real empírico, parece ter trazido para a literatura brasileira um grande legado da modernidade: a secularização do tempo, e com ela a consciência meta-histórica entra em crise quando se interroga sobre o sentido de si mesma.

Se, em Jorge Amado, podemos afirmar que a consciência histórica é também a consciência do transcorrer, a captação do tempo em sua transitoriedade, a consciência de que o homem trazendo em si mesmo tempo, é o agente das mudanças temporais. Portanto, a valorização das personagens, na obra de Jorge Amado é tão coerente, nos atores principais e nos comparsas, pois ela traz sempre a qualquer momento o tempo como agente transformador da temporalidade em história.

O tempo de suas narrativas, sem deixar de ser, portanto, tempo datado, é também tempo concreto. E é a linguagem a força motriz dessa duplicidade: a condição humana, em seus romances e narrativas contísticas, consiste em ser história (ser tempo) e simultaneamente negar a história (ser o outro tempo, ou o tempo do Outro, configurada na linguagem, muitas vezes poética, cômica, croniquesca e dual mesma – Gabriela, Flor, O País do Carnaval),  trazendo em seu bojo sempre uma contradição: a obra é produto social, mas é sobretudo uma realidade, real empírico, que pode ser datada também, assim como localizada num tempo preciso. Por outro lado, é uma criação que transcende a história. Voltaremos a discutir mais pormenorizadamente essa questão na passagem por muitos de seus romances.”

O primeiro volume do selo “crítica literária” será lançado em dezembro/2018 sob o título de LITERATURA, COMUNIDADE, CULTURA E ALTERIDADE NO MODERNISMO BRASILEIRO – a prosa da geração de 30, Curitiba, CRV Editora.

Tags: #Geraçãode30#JorgeAmadoLiteraturaLivro
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Pós-Doutor e professor Titular de Teoria e História Literária Centro de Ciências Humanas e Naturais Programa de Pós-graduação em Letras - Doutorado e Mestrado em Estudos Literários da UFES

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