Chance de ser assassinado na cidade varia de Bélgica a Honduras no mesmo bairro, dependendo da raça, diz estudo divulgado pelo Ipea
Da redação
A cidade do Rio de Janeiro pode ser chamada de “Belduras”, numa referência à taxa de homicídios da Bélgica, uma das mais baixas do mundo, com 1,6 assassinato por 100 mil habitantes, e a de Honduras, o país mais violento, com taxa de 90,4 por 100 mil.
A comparação está no estudo Democracia Racial e Homicídio de Jovens Negros na Cidade Partida, lançado na última sexta-feira (18/11) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
Segundo os pesquisadores Daniel Cerqueira e Danilo Coelho, o grupo dos 10% com mais chance de sofrer morte violenta têm probabilidade 62,1 vezes maior do que o grupo dos 10% com menores chances de sofrer assassinato na cidade. Coelho destaca que essa discrepância ocorre dentro de um mesmo bairro.
“Se o cara tem 21 anos, é negro, com baixa escolaridade e mora em determinados bairro, tem mais chance de ser assassinado. Já uma pessoa mais velha, branca, que mora na zona sul e tem curso superior, a probabilidade é muito pequena. Na zona sul há um grande grupo de pessoas que tem baixo risco de ser assassinado. Entre os negros é mais desigual e entre os brancos é mais polarizado. O grupo de brancos com mais chance de ser assassinado inclui os de baixa escolaridade, baixa renda e jovens”, explica.
Coelho destaca que a pesquisa desenvolveu um modelo econométrico para verificar a incidência dos homicídios entre os homens negros, sem considerar os outros parâmetros socioeconômicos. Aos 21 anos, idade em que há um pico estatístico nas chances de sofrer assassinato, a probabilidade de um jovem preto ou pardo ser vítima é 147% maior do que a de um branco, amarelo ou indígena.
Cerqueira explica que o estudo dividiu a cidade em 16 conjuntos de bairros e notou que, em todas as regiões, a chance de os negros sofrerem homicídios é sempre muito maior do que a dos não negros.
“A gente pode imaginar cada região da cidade como Belduras, em homenagem ao Edmar Bacha que falava da Belíndia. Você tem na mesma região cidadãos que têm chance de sofrer homicídio como um belga e grupos de pessoas que têm chance de sofrer homicídio como um cidadão de Honduras, que é o país mais violento do mundo. Mesmo entre os brancos, há um grupo com menos chance e outro com mais probabilidade de ser assassinado”, destacam os pesquisadores.
Eles salientam que o resultado da análise mostra claramente a cidade partida (termo cunhado em livro de Zuenir Ventura). Enquanto a chance de sofrer assassinato é baixa em locais como zona sul, Barra da Tijuca, Ilha do Governador e Tijuca, a probabilidade aumenta em Madureira, Pavuna, Santa Cruz e Campo Grande. Porém, em todas as regiões, a probabilidade do negro ser vítima de homicídio é muito maior do que a do branco. Os negros são 78,9% dos 10% com mais chances de serem assassinados e 42,8% dos que têm menor probabilidade.
“Se a gente fizer isso em São Paulo, provavelmente o gráfico ia ser diferente, porque lá o sentido de periferia é mais de periferia geográfica mesmo, aqui está tudo misturado”.
A pesquisa calculou como cada característica afeta a chance de a pessoa sofrer homicídio. Foram analisados os dados de escolaridade, local de residência, idade e estado civil, além da cor da pele, na amostra de homens entre 14 e 70 anos do censo de 2010, residentes no Rio de Janeiro, e o número de mortos na cidade naquele ano.
SEM RACISMO ASSASSINATO CAIRIA 30%
Se a chance de ser assassinado fosse a mesma para homens brancos e negros, a taxa de homicídio na cidade do Rio de Janeiro seria 12,9% menor do que a atual.
Os pesquisadores chegaram a esta conclusão após fazer um exercício para verificar como seria a sociedade sem o que eles chamam de “racismo que mata”, ou seja, se a cor da pele não tivesse impacto na letalidade.
“A gente fez um exercício contrafactual. O que aconteceria se o racismo acabasse? Se o diferencial entre negros e brancos fosse reduzido a zero, qual seria o impacto na taxa de homicídio no Rio de Janeiro?”, explica Coelho.
ESTUDO ECONOMÉTRICO
A pesquisa calculou, com um modelo econométrico inédito, como cada característica afeta a chance de a pessoa sofrer homicídio. Foram analisados os dados de escolaridade, local de residência, idade e estado civil, além da cor da pele, na amostra de homens entre 14 e 70 anos do censo de 2010, residentes no Rio de Janeiro, e o número de mortos na cidade naquele ano.
A conclusão é de que os homens negros têm 23,5% mais chances de serem assassinados do que os brancos, mesmo sem considerar as condições socioeconômicas.
O exercício considerou também, como um segundo passo, o aumento da escolaridade como fator redutor de risco de ser assassinado. Cerqueira explica que, com o ingresso no ensino médio, a taxa de homicídio na cidade poderia cair 19,8%.
“A chance de quem tem até sete anos de escolaridade sofrer homicídio é altíssima, quando o cara entra para o ensino médio, a chance já diminui. Se ele vai para o ensino superior, é um verdadeiro escudo contra os homicídios. A educação é um verdadeiro escudo contra os homicídios. Então, a brincadeira é: vamos imputar àquele cara que tem sete anos ou menos de estudo, a chance de sofrer homicídio de um cara que entrou no ensino médio”.
Pelos cálculos dos pesquisadores, a chance de uma pessoa com até sete anos de estudo ser assassinada é 70,2% maior do que a de alguém que tenha de oito a 11 anos de estudo. Somando a redução dos homicídios que a eliminação do racismo geraria ao fator de elevar os anos de escolaridade, Cerqueira e Coelho chegaram a uma provável redução de 30,2% na taxa de homicídio na cidade.
*EBC








