Pacientes nos corredores de hospitais e denúncias em tempo real; tecnologia mobile cria realidade desafiadora e assiste o velório da velha mídia;
A tecnologia mobile conjugada as rede sociais está atropelando a inércia dos governos, assim como desmonta a velha mídia e a política velha. Cenas de corredores de hospitais lotados de pacientes, fiscalização da rotina administrativa, licitações suspeitas e nepotismo na administração pública que passam escondidinhos na velha mídia tornam-se atrativos nas redes sociais graças a multiplicidade do acesso a informação e dos meios de difusão ao alcance do contribuinte.
Para obter um bom flagrante, basta um celular na palma da mão, boas imagens, conexão a internet e uma página no Facebook. É uma janela para o mundo e o desespero para os governos.
NA IMAGEM ACIMA | Maca para acolher pacientes no corredor do Hospital Ferreira Machado, na cidade de Campos dos Goytacazes, no interior do Estado do Rio – Fonte: Facebook de Josy Vaz
No Rio de Janeiro, recentemente, o repórter do jornal O Dia, Caio Barbosa, foi demitido depois de criticar a organização da vacinação contra a febre amarela na cidade em sua página no Facebook. Deixou governo do prefeito Marcelo Crivella (PRB) numa saia justa.
A demissão teria ocorrido por pressão do próprio Crivella. Ele nega, mas o caso gerou críticas tanto ao prefeito quanto a direção do jornal por submeter o veículo de comunicação a pressão externa.
É interessante destacar que a reportagem de Caio Barbosa sobre o mesmo tema nas páginas de O Dia foi normal, sem críticas ao governo. A verdade inconveniente estava no perfil pessoal do repórter.
VÍDEO | Presidente Michel Temer ameaça reagir contra críticas de internautas nas redes sociais
[vsw id=”PSgAiVo8zU8″ source=”youtube” width=”750″ height=”350″ autoplay=”no”]
O presidente da República, Michel Temer, também não esconde o seu descontentamento com inconveniência de alguns internautas. Ele já admitiu publicamente que pretende combater a mídia virótica nas redes sociais. O trecho do discurso foi reproduzido em páginas do Youtube e grupos de Whatsapp.
Temer, um personagem extraído de um movimento golpista que prefere viver nas sombras, jamais conseguirá conviver em um ambiente questionador.
FRUSTRAÇÃO DE EXPECTATIVAS
No último final de semana, um vídeo da internauta Josy Vaz, na cidade de Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense, atingiu mais de 50 mil visualizações e mais de mil compartilhamentos no Facebook.
As cenas despertaram debates acalorados entre críticos e defensores do governo, em um tema delicado para a administração do prefeito Rafael Diniz (PPS).
Eleito em primeiro turno em outubro do ano passado, o prefeito prometeu acabar com cenas de pacientes em corredores de hospitais. Nas cenas, além de pacientes, a internauta também fotografou barata corrente entre as macas.
Josy Vaz atuou no governo da ex-prefeita Rosinha Garotinho como terceirizada no Centro de Controle de Zoonoses (CCZ). Já teria recebido convites para continuar trabalhando no governo Rafael, pois seria uma forma de eliminar um calo na rede social. Sua atuação na prefeitura vinha desde o governo Arnaldo Vianna, que atualmente se divide entre elogios e críticas a administração.
“Prefiro continuar como ativista, acompanhando cada passo deste governo”, diz a internauta ao falar sobre o convite de aderir ao governo Rafael.
Esta ligação com governos anteriores é um dos pontos pelo qual defensores da atual administração tentam desconstruir suas denúncias.
Josy Vaz, assim como outros internautas, no entanto, tem elementos que sufocam os oponentes: as cenas são reais e há uma frustração de expectativas com o governo Rafael Diniz. Campos dos Goytacazes enfrenta uma queda orçamentária devastadora. O orçamento do município que já chegou a R$ 2,8 bilhões, este ano será de R$ 1,455 bilhão. Só a folha de pagamento consumirá R$ 1,022 bilhão.
Os integrantes da administração em Campos nunca mantiveram uma conversa franca e aberta com o contribuinte sobre esta realidade. Preferiram ficar na cantilena de jogar as mazelas na cota dos antecessores, que consumaram erros, é bom que se diga, mas que também contabilizaram méritos. Um deles foi conseguir enfrentar a crise econômica mantendo os programas sociais.
A relação promíscua com o legislativo, nomeando parentes de vereadores em troca de apoio legislativo, aliada ao caos na saúde pública, é a outra fonte de desgaste. Evidencia o fisiologismo que o grupo combatia, além do nepotismo em cargos de primeiro escalão, prática que já gerou decisões judiciais contra os prefeitos de Casimiro Abreu e Itaguaí, no Estado do Rio.
O IMEDIATISMO NA REDE
A realidade que se impõe no campo da comunicação é desafiadora. As administrações terão que se habituar ao imediatismo, principalmente, quando constroem propostas alicerçadas em soluções milagrosas, como foi o caso de Rafael Diniz. Na campanha, entre outras coisas, ele prometeu acabar com cenas de pacientes em corredores de hospitais e costumava dizer que o problema na cidade não era falta de dinheiro: “falta gestão”, afirmava.
A rede social, um dos melhores meios de difusão e interação com o público, permite questionamentos da plateia virtual em tempo real. O confronto é em campo aberto. Portanto, será cada vez mais difícil promover campanhas de marketing alicerçadas em factoides.
A transparência, em todos os setores, terá que sair do discurso para a realidade. Nunca antes a nudez dos governantes esteve tão evidente.








