A Justiça de São Paulo concedeu nesta terça-feira (7) uma medida cautelar à atriz e roteirista Lívia La Gatto para que o coach e influenciador Thiago Schutz seja obrigado a ficar, no mínimo, 300 metros distante. Ele ainda não procurar ou falar com Lívia. O pedido havia sido feito na quinta-feira (2) pela defesa dela à Polícia Civil.
A decisão judicial, no entanto, se estendeu também à intérprete e sambista Bruna Gomes da Silva Volpi, que também se sentiu ameaçada por Thiago.
Thiago é investigado por ameaçar matar Lívia pelas redes sociais. Em fevereiro deste ano, o coach mandou mensagem à atriz exigindo que ela retirasse da internet um vídeo que satiriza comentários dele a respeito de mulheres. Caso contrário, ela receberia “processo ou bala”, segundo ele.
Bruna também postou um vídeo sobre Thiago dizendo ter recebido inúmeras ligações durante a madrugada do dia 25 de fevereiro por meio do perfil dele nas redes sociais. Ela também se sentiu ameaçada pelo coach.
De acordo com Carolina Soares, advogada que defende os interesses de Lívia, foi solicitada uma “medida cautelar com efeito semelhante à [medida] protetiva”.
“A finalidade das medidas protetivas é diferente das cautelares criminais tradicionais. Enquanto as cautelares visam garantir o processo e ajudar na apuração do crime, as protetivas buscam proteger a própria integridade da vítima, em outras palavras, os direitos humanos mais básicos”, disse Carolina.
“Entretanto, nesse caso, as cautelares foram requeridas com o fim de proteção da vítima e, portanto, gerando efeitos semelhantes à protetiva.”
A Justiça determinou:
que Thiago ou seus representantes não entrem em contato com Lívia e Bruna;
que o coach mantenha distância da atriz e da intérprete que não seja menor de 300 metros;
que ele também não frequente os mesmos lugares de Lívia e Bruna, mesmo que tenha chegado antes delas ao local;
que Thiago está proibido de fazer comentários a respeito de Lívia e Bruna nas redes sociais;
a decretação da prisão preventiva do coach no caso de ele descumprir as medidas.
Lívia já prestou depoimento no 27º Distrito Policial (DP), Campo Belo, depois de registrar boletim de ocorrência contra Thiago. A delegacia investiga o caso como ameaça. Bruna foi ouvida posteriormente no mesmo inquérito.
A expectativa dos policiais é de que Thiago seja intimado e ouvido na próxima semana. Ele responde aos crimes de ameaça em liberdade.
“Ainda não está agendada a oitiva dele. Provavelmente [será] na próxima semana”, disse à reportagem o delegado titular Eduardo Luis Ferreira. “Ele tem residência em Salto [interior de São Paulo], então veremos se será ouvido lá ou aqui na capital”.
A reportagem não conseguiu localizar a defesa de Thiago para comentar o assunto até a última atualização desta reportagem. Em um vídeo postado em suas redes sociais, o coach se defendeu das acusações.
Quem é Thiago Schutz
O acusado, que se apresenta na internet com o sobrenome Schutz, é na verdade o empresário Thiago da Cruz Schoba. Em seu site, diz que estudou engenharia elétrica e publicidade e propaganda, foi editor de livros, é escritor, palestrante e participou do reality show “O Crush Perfeito”, da Netflix, em 2020.
Thiago tem milhares de seguidores na web e, atualmente, lucra gravando vídeos com “conselhos” para homens. Ele administra uma conta no Instagram chamada “Manual Red Pill Brasil”, que tem mais de 330 mil fãs, a maioria homens.
Diz fazer parte de aconselhadores “red pill”, um movimento masculino que deturpa o conceito que veio do filme “Matrix” para supostamente valorizar a masculinidade e propagar o ódio contra grupos, em especial as mulheres.
O influenciador viralizou por relatar em um vídeo como se recusou a tomar cerveja com uma mulher porque já estava bebendo Campari. Após o episódio, ele ficou conhecido como “Coach do Campari”. No vídeo, ele afirma que a oferta seria uma espécie de “teste” das mulheres para ver o quanto ele se manteria autêntico e original.
Em vídeos publicados na página, ele afirma que mulheres são “mais caras que uma GP [garota de programa]”.
“Para o cara conseguir dar uma transadinha rápido, ele precisa comprar um carro para a mulher.” Ele diz ainda que a libertinagem sexual da mulher faz com que ela “tenha muito problema para casar”.
Também critica mulheres por usarem “roupas curtas”. “De repente aquele cara não está confortável com a namorada dele usando aquela porra daquela roupa.”
Atriz fez sátira em vídeo
No mês passado, Lívia postou nas redes sociais um vídeo debochando de conteúdos de homens que têm discurso de ódio contra mulheres. O conteúdo viralizou. Na sátira, ela ironiza Thiago, mas sem citar o nome dele. Depois disso, passou a receber ameaças do influenciador. Nesse período, contou ter recebido mais de dez ligações pelo Instagram.
Numa das mensagens privadas que Thiago enviou para Lívia, ele escreveu que ela deveria retirar o vídeo ar, senão tomaria um processo ou um tiro:
“Você tem 24 horas para retirar seu conteúdo sobre mim. Depois disso é processo ou bala. Você escolhe”.
A atriz revelou a ameaça que sofreu em suas redes sociais e também registrou boletim de ocorrência na delegacia, onde fez a representação criminal contra Thiago para que a polícia pudesse abrir inquérito e investigar o caso.
A pena para quem é condenado pela Justiça pelo crime de ameaça pode ser de 6 meses a 2 anos de prisão. Outra punição é a prestação de serviços comunitários ou pagamento de multa.
“Fiquei com medo, acessa muitos gatilhos”, disse Lívia durante sua participação no programa Encontro, da TV Globo. “‘Não dá para você censurar todo mundo que você está oprimindo.”
Coach se defende em vídeo
Após a repercussão do caso na internet e da denúncia contra ele ter sido levada à polícia, Thiago alegou, em vídeo postado nas redes sociais, que não usou a palavra “bala” no sentido literal quando escreveu para Lívia
“Quando eu uso a palavra ‘bala’, não é no sentido literal. Para deixar isso bem claro para todo mundo”, afirmou ele, tentando se justificar.
“‘Mete bala’, ‘mete marcha’, ‘soca o pau’, ‘vamo embora’, no sentido de vamos resolver essa questão. Essa questão precisa ser resolvida. É processo ou bora, vamos de outra forma. Esse é um ponto importante. Na sequência, eu faço algumas ligações nas quais eu não fui atendido.”
Campari se pronuncia
Em função da repercussão do caso, a Campari emitiu uma nota se posicionando contra a misoginia e as ameaças feitas pelo influenciador.
“O Grupo Campari, em razão dos últimos acontecimentos envolvendo o nome da companhia, vem a público informar que não tem, e nem nunca teve, nenhum tipo de relação, vínculo ou contato com Thiago Schutz”, informa o comunicado da empresa.
No texto, a empresa ainda enfatiza que “se solidariza com todas as mulheres que foram envolvidas nesse caso de misoginia e ameaças, e rechaça veementemente toda atitude preconceituosa e violenta manifestada por este influenciador”.
Outra denúncia
Além de Lívia e Bruna, outra mulher relatou à reportagem também ter sido alvo de ameaças de Thiago.
Andressa Ricci contou que viu o post que ele printou da conversa com Lívia. A mulher respondeu a publicação da atriz dizendo para ele mostrar também a ameaça que fez contra ela.
Em seguida, Andressa contou que ele ligou para ela pelo Instagram e que ela não atendeu. Na sequência, ele mandou dois áudios. O primeiro dizendo que as mesmas ameaças feitas contra Lívia, eram contra ela também. Esse ele apagou na sequência.
No segundo áudio, Thiago a chama para uma conversa pessoalmente, a intimidando, perguntando se ela era mulher só pela internet. Andressa disse que também pretende registrar um boletim por ameaça.
As informações são do g1.








