Um diálogo entre os delegados da Polícia Civil Allan Turnowski, preso nesta sexta-feira, e Maurício Demetrio, extraído de um dos 12 celulares apreendidos pelo Ministério Público do estado do Rio (MPRJ) no ano passado, mostra, segundo os investigadores, o grau de convivência entre os dois. Com receio de ser preso, o ex-chefe de polícia pede ajuda a Demetrio. Diante da resposta, Turnowski alerta que, se caísse, o parceiro cairia também, pois “a gente é um CNPJ só”, revelou o MP.
Conhecido por produzir dossiês contra os inimigos, Demetrio respondeu de forma superficial ao pedido de ajuda de Turnowski caso o ex-secretário fosse preso: “Farei tudo o que estiver ao meu alcance”. Insatisfeito com a resposta, o amigo insiste com o pedido de socorro, citando que ambos seriam apenas um CNPJ.
As investigações constataram pelo menos três planos de Demetrio, supostamente aliado do bicheiro Fernando Iggnácio, assassinado em 2020, para matar Rogério de Andrade. Segundo o MP, nenhum dos planos foi consumado.
“Nesse labor, dentre outras ações, vazou para os comparsas dados sobre investigações sigilosas, intermediou o pagamento de propinas a outros servidores públicos, cooptou colegas de Polícia Civil para atuarem em benefício da súcia, engendrou negociação com integrantes do grupo oponente para que se aliassem ao dele, assim como arquitetou o homicídio de Rogério de Andrade”, escrevem os promotores na denúncia, referindo-se a Demetrio.
Em outro trecho, o MP detalha a motivação para o plano de homicídio, numa conversa entre Demetrio e Marcelo (Marcelo José Araujo de Oliveira, outro dois denunciados na investigação): “Maurício Demetrio e Marcelo conversam sobre quais seriam os termos do acordo a ser proposto a Jorginho (o ex-policial civil Jorge Luiz Fernandes, apontado como comparsa de Rogério) intermédio de Allan Turnowski. Deliberam que a proposta seria mais interessante se o homicídio de Rogério de Andrade ocorresse antes de dezembro, data estabelecida para que a área sob domínio de Jorginho fosse devolvida. Caberia a Jorginho o financiamento do plano de homicídio”.
Mais adiante, na denúncia, os promotores afirmam que, de acordo com conversas obtidas na investigação, “Mauricio Demetrio e Marcelo estabelecem valor a ser pago por Jorginho para providenciarem a execução de Rogério de Andrade: R$3.000.000,00 (três milhões de reais), a serem divididos em partes iguais por Mauricio Demetrio, Marcelo e Allan Turnowski”. E dizem que “após tomarem ciência por meio de Allan Turnowski de novo cenário — Rogério de Andrade havia exigido a devolução da área — Mauricio Demetrio e Marcelo passam a engendrar plano de adoção de medidas drásticas: propor a Jorginho a execução de Rogério de Andrade como contrapartida para ele se juntar ao grupo de Urubu”. Urubu é o apelido usado para identificar Fernando Iggnácio; o contraventor foi assassinado numa emboscada em 10 de novembro de 2020.
Andrade e Iggnácio eram inimigos e disputavam o controle de pontos da contravenção. De acordo com o MP, Demetrio operava como um braço da quadrilha do bicheiro Fernando Iggnácio na Polícia Civil, enquanto Turnowski agia como agente duplo, atuando em favor de Andrade e Fernando Iggnácio.
Um dos planos pretendia envenenar Rogério Andrade quando o bicheiro se encontrava no sistema penitenciário do Rio, em 2018. Outro planejava emboscar a vítima numa viagem do bicheiro a Ibiza, na Espanha. As hipóteses são cogitadas em diálogo de Demetrio com um amigo, identificado como Marcelo, que é conhecido por circular em carros de luxo.
As informações são do Jornal O GLOBO.








