Reportagem de O Globo traça um panorama da guerra urbana na 19ª cidade mais violenta do mundo; maior beneficiária de royalties registrou 275 homicídios em 2016;
Por Rafael Galdo – O Globo
O pai foi morto na porta de casa. A mãe, baleada enquanto se escondia debaixo da cama. O filho, assassinado a golpes de marreta. Dias antes, um adolescente havia sido executado com um tiro na cabeça. Dias depois, a vítima seria um jovem, encurralado na rua, atingido à queima-roupa. Além da crueldade, todos esses homicídios têm em comum um fato: ocorreram mês passado no subdistrito de Guarus, em Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense. O município é o que mais recebe royalties do petróleo no país. Mas, agravada pela crise, a rotina de crimes o põe, pelo segundo ano consecutivo, numa incômoda posição de um outro ranking: o das 50 cidades mais violentas do mundo.
De acordo com um levantamento da ONG mexicana Conselho Cidadão para Segurança Pública e Justiça Penal — que reúne taxas de homicídios por cem mil pessoas em cidades com mais de 300 mil moradores —, Campos foi a 19ª mais violenta do mundo, a sexta do Brasil e a primeira do Estado do Rio em 2016. Houve 275 homicídios no município, que, no ano passado, tinha 487.186 habitantes. Ou seja, foram 56,45 assassinatos por cem mil moradores, taxa ainda maior que a de 2015 (de 36,16, com 175 casos), que já tinha feito a cidade estrear na lista das mais perigosas, na 39ª posição.
Em Campos, a arrecadação de royalties despencou de R$ 631,8 milhões, em 2012, para R$ 299,8 milhões, em 2016. O município chegou a decretar emergência econômica. Só no ano passado, a cidade perdeu 6.520 empregos. A Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) não escapou dos atrasos nos pagamentos do Palácio Guanabara. Nem as polícias Civil e Militar se livraram.
GUERRAS EM PLENO ASFALTO
Em março, quando chegou ao fim um contrato com a empresa que fazia a manutenção dos veículos do 8º BPM (Campos), patrulhas precisaram de uma doação da associação comercial da cidade para trocar os pneus carecas. No último dia 26, na porta de uma das duas delegacias de Campos, a 146ª DP, justamente em Guarus, havia quatro viaturas. Três delas estavam sem rodas. Perto dali, um morador avisava:
— Aqui tem morte quase todo dia. Não aconselho circular pelo interior dos bairros que beiram a BR-101, não. Nem de dia. O tráfico fica na pista mesmo, não dentro de favela.
É fácil compreender o medo. Pelos bairros da região, pichações a cada esquina demarcam os territórios de grupos rivais. Numa rua aparentemente pacata, há uma barricada do tráfico. Os números do Instituto de Segurança Pública (ISP) do Rio tampouco deixam dúvidas. De acordo com as estatísticas, foram 272 homicídios dolosos no município ano passado, 152 registrados na 146ª DP (Guarus) e 120 na 134ª DP (Campos).
Segundo o delegado Luís Maurício Armond Campos, titular da 146ª DP, em Guarus, duas facções estão em guerra. As execuções e acertos de contas entre elas representam quase a totalidade dos homicídios, afirma o policial. Ele conta que, nas últimas décadas, com a construção de vários conjuntos habitacionais, as disputas eram para dominá-los. Hoje, a briga é pelo comando dos bairros. E, ironicamente, um dos mais perigosos se chama Parque Eldorado.
— Outro fator, com certeza, é a crise. A polícia sofreu com isso, perdeu condições de reprimir o crime. Se me dão mais recursos, eu dou mais resultados. Mas a polícia não vai resolver todos os problemas. Aqui é carente de tudo. A população tem pouco acesso a escolas, esporte, lazer, hospitais… Sem falar que a atual situação econômica atingiu também os empregos da população — diz ele, criticando a divisão socioeconômica existente na cidade. — Campos cresceu sob uma cultura escravagista. Essa mentalidade persiste até hoje. Existe um preconceito muito grande com Guarus. Aqui é tratado como se fosse a senzala, a periferia, dos mais pobres. Isso precisa mudar.
PORTO DO AÇU SAIU DO PAPEL. SÓ ELE
A poucos metros da obra de uma ponte sobre o Rio Paraíba do Sul parada há meses, a propaganda no outdoor soa auspiciosa: “Atenção, trecho com alto índice de oportunidades”. É uma espécie de boas-vindas a São João da Barra, no Norte Fluminense, terra do Superporto do Açu e de um megadistrito industrial com mais de 70 quilômetros quadrados. Tudo superlativo, como também eram as previsões de que os empreendimentos provocariam uma revolução na região. Oito anos depois do decreto que daria, de fato, o pontapé ao projeto, colossal é o vazio criado pela desapropriação de terras agrícolas para instalação do hipernegócio, iniciado pelas mãos do empresário Eike Batista.
O porto funciona desde 2014, com terminais de petróleo e combustíveis marítimos em operação, que receberam 966 embarcações comerciais no ano passado. No entanto, não decolou como o esperado. O outdoor na estrada já está desbotado. Já os campos que seriam transformados em distrito industrial continuam ermos. Há mais casas de agricultores demolidas do que empresas instaladas, o que levou um grupo de produtores rurais a reocupar as terras, no último dia 19. O acampamento foi montado a poucos quilômetros da entrada do porto, onde antes ficavam as propriedades da família de Vitor Almeida.
— Os restos da minha casa ainda estão aqui, no meio do mato. Há sete anos que essas terras estão abandonadas — afirma Vitor.
Presidente da Associação de Pequenos Produtores e Agricultores (Asprim), Rodrigo Santos estima que somente 10% das terras desapropriadas pela Companhia de Desenvolvimento Industrial do Estado do Rio (Codin) estão em uso pelo empreendimento. Segundo ele, são mais de 400 propriedades vazias. E muitos agricultores, diz Rodrigo, não conseguiram receber as indenizações pelas terras.
Mas não é só ali que as negociações relativas ao Açu causam apreensão. Macaé, conhecida como a capital nacional do petróleo, também não pulsa mais como antes. A crise tem acentuado problemas que chegaram com o crescimento. A favelização não dá trégua. Perto do aeroporto da cidade, barracos de madeira vão dando lugar a outros, de alvenaria. No Centro, na orla próxima à prefeitura, a sequência de lojas fechadas dá uma dimensão do problema. Para piorar, o assunto na cidade é a perspectiva de transferência de grande parte de sua atividade portuária para uma base de apoio offshore em São João da Barra.
— Seria o golpe de misericórdia — diz o técnico de planejamento Robson Pinto, demitido da indústria do petróleo que, agora, trabalha como taxista.
Assim como ele, são muitos os que perderam empregos e tentam sobreviver com negócios próprios na cidade. Profissionais como o técnico de segurança José Neto. Em junho do ano passado, ele foi demitido de uma empresa offshore. Por meses, ouviu que era qualificado demais para as vagas que apareciam. Resolveu, então, usar o dinheiro de sua indenização para abrir um café numa galeria do Centro, inaugurada mês passado.
— A maioria das lojas da galeria está fechada. Sei que estou nadando contra a corrente. Mas ainda confio no trabalho — afirma José.








