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Seca na Bacia Amazônica tem potencial para efeito cascata para todo o Brasil

Rios devem levar até 4 anos para se recuperarem plenamente das consequências de fenômeno agravado pelo El Niño e Crise do Clima

redacao Por redacao
07/10/2023 - 08:25
em Política
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seca no rio amazonas, seca no amazonas

Bancos de areia tomam conta do Rio Negro, no Amazonas, em meio a seca — Foto: TV Globo/Reprodução

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Quatro dos seis principais rios da Bacia Amazônica, a maior do mundo, chegaram ao nível mais baixo já registrado no histórico de medições para o mês de setembro, segundo um relatório do Sistema Geológico Brasileiro (SGB) e da Agência Nacional de Águas (ANA) ao qual o g1 teve acesso.

A estiagem recorde atinge os rios Amazonas, Negro, Branco e Purus, que são essenciais para a vida na região: além de leitos da biodiversidade, são hidrovias, fonte de água e de energia. E as perspectivas são desoladoras: especialistas apontam que os rios podem levar até quatro anos para voltarem a níveis normais.

O relatório do SGB e da ANA mostra o cenário mais recente dos seis principais rios da bacia, que são, além dos quatro citados acima, o Madeira e Solimões. A bacia como um todo tem mais de mil rios.

Veja os recordes em cada rio:

RIO NEGRO: no rio que serve o porto de Manaus e escoa a produção da zona franca, a seca á e maior dos últimos 120 anos no mês de setembro. A medição no rio começou em 1902. A seca no rio fez a capital do Amazonas decretar situação de emergência.

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RIO BRANCO: o rio fica entre Roraima e o Amazonas, mas é o principal recurso hídrico do estado de Roraima, sendo o único fornecedor de água do estado. Nesta temporada de seca, ele registrou o menor nível de água desde 1967.

RIO PURUS: o percurso do rio passa por dezenas de municípios entre Acre e Amazonas. Ele concentra uma importante rota de pesca para os estados. Em sua série histórica, há duas áreas de medição, que mostraram datas diferentes para o recorde histórico. No trecho do Acre, teve o menor nível de água desde 1967, quando começaram as medições. E em Beruri, o menor desde 1982. Foi no local que uma vila desabou em evento de terras caídas, agravado pela seca.

RIO AMAZONAS: as medições no rio são divididas em três áreas e as três bateram o recorde na série histórica. No trecho de Careiro, é o menor nível desde 1977. Em Itacoatiara, é o menor desde 1998 e, em Parintins, o menor desde 1974.

Nos outros dois rios incluídos no levantamento, Madeira e Solimões, os índices não chegaram ao recorde histórico no período, mas se aproximaram dos piores índices já registrados.

Os especialistas alertam que o pior momento de seca nesta temporada ocorre em outubro e com recordes e tendências pessimistas para as vazões, é possível que se aproximem do recorde histórico anual.

O impacto recente acontece no Norte e no Centro-Oeste, mas gera reflexo em todo o país em vários aspectos. Veja abaixo:

Efeito Cascata

Os rios são interligados, ou seja, as águas de um rio são distribuídas em suas ramificações. Em uma bacia como a Amazônica, que tem cerca de mil rios, a seca cria um efeito cascata. A previsão é de que, no médio prazo, isso impacte outros estados.

No Brasil, o sistema de energia não é independente. As usinas são conectadas e servem ao sistema que abastece o país como um todo. Com a estiagem, usinas no Norte estão sendo impactadas e isso pode ocasionar o desabastecimento não só da região, mas de parte do sistema nacional.

A usina hidrelétrica de Santo Antônio, abastecida pelo Rio Madeira, e que teve a operação completamente paralisada nesta semana é a maior do país e serve a região Sudeste. Essas pausas acabam por “sobrecarregar” o sistema.

A região Norte é um centro agrícola e abriga a Zona Franca, que fica em Manaus, e que concentra várias das maiores produtoras de eletrônicos do país. A principal via de transporte na região é pelas águas. No entanto, com a baixa dos rios, a navegação pode ser complicada e afetar a distribuição dos produtos.

O Rio Negro, por exemplo, é onde está o porto que escoa a Zona Franca e já está sendo afetado. A situação acontece perto de uma das datas de maior demanda por eletrônicos no país, a Black Friday, prevista para novembro.

A região é produtora de soja e milho, importantes commodities. Segundo o Ministério da Agricultura, existe uma preocupação com o escoamento da produção no milho com a baixa dos rios.

A seca tem impactado a plantação em vários desses estados, especialmente a agricultura familiar. Um levantamento do Centro de Monitoramento de Desastres Naturais (Cemaden) mostrou que agricultores de 79 municípios tiveram a produção afetada. Isso reduz a oferta de insumos não só na região, como no país.

Previsão de mais seca

Os rios formam ramificações e vão se juntando. Se há seca em uma região, as ramificações também são impactadas ao longo do tempo. É por isso que vemos esse impacto se estender pelo mapa.

]— Márcio Moraes, especialista do Cemaden e integrante da sala de crise da Região Norte
Ele reforça a preocupação com o abastecimento de energia.

“Tem pontos nessa bacia que tem as hidrelétricas. Se a seca permanecer como na previsão, as usinas vão ter que desligar turbinas e como todo o sistema nacional é interligado, vai afetar todo o nosso sistema de distribuição de energia. É uma questão nacional”, diz.

Moraes explica que a recuperação do nível dos rios é algo a longo prazo e que a expectativa é de que possa levar até quatro anos para que se estabilize os níveis normais.

“Uma seca como essa não se resolve em um ano. É preciso não só volume de chuva, mas tempo para que os rios possam absorver essa água e retomar o nível normal. Estamos falando de algo em torno de quatro anos.”
— Márcio Moraes, especialista do Cemaden e integrante da sala de crise da Região Norte

Causas da seca severa

Estamos na estação seca na região Norte, quando a vazão dos rios normalmente se reduz. Mas, neste ano, dois fenômenos mudaram o comportamento das chuvas em todo o país e podem afetar o restante do mapa: El Niño e o aquecimento do Atlântico Tropical Norte.

O El Niño provoca o aumento da temperatura das águas do Oceano Pacífico Equatorial.
O aquecimento do Atlântico Tropical Norte faz que as águas fiquem mais quentes.
A água dos oceanos mais quentes de cada lado do continente modificou a circulação do ar na atmosfera e direcionou a chuva mais ao sul do mapa.

O meteorologista do Cemaden Giovani Dolif explica que é como se houvesse uma bexiga cheia de ar e você apertasse um dos lados dela.

“Nessa analogia, a força que aperta é o ar quente. Quando acontece essa pressão, o ar vai para o outro lado da bexiga. Ou seja, a circulação atmosférica escoa para o outro lado do mapa, que é o sul do Brasil. E então temos chuvas nessa região.”
— Giovani Dolif, meteorologista do Centro de Monitoramento de Desastres Naturais (Cemaden)

Com informações do g1.

Tags: #Seca no Amazonas
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