Cidade que viveu o apogeu econômico nos tempos dos petróleo valorizado, atualmente enfrenta instabilidade política, conspirações palacianas e crise econômica |
Depois de duas décadas de opulência, graças ao dinheiro farto jorrado pelos repasses de royalties do petróleo e participação especial na Bacia de Campos, a cidade de Quissamã, com 20 mil habitantes, no Norte Fluminense, está à beira da falência. Com a desvalorização das commodities no mercado internacional e redução nos investimentos da Petrobras, a fonte que alimentava 80% da arrecadação municipal está secando e não resta alternativa que não seja a espera do improvável: uma reviravolta no cenário que leve a uma recuperação no valor do barril do petróleo nos mesmos patamares do ano passado, quando chegou a US$ 113.
Quissamã, como a maior parte das cidades nesta região, tem uma economia viciada em ouro negro. Agarrou-se a esta renda variável para alimentar o custeio de uma máquina administrativa pequena, mas faminta aos extremos em decorrência dos vícios gerenciais. O desperdício tornou-se uma pratica corriqueira até mesmo nas horas dramáticas de crise financeira.
O delírio mais recente é a realização de um curso para treinar Guardas Civis Municipais com táticas antiterroristas. Chega a ser hilário e inspira piada. Os moradores ironizam afirmando que o único ato terrorista em toda existência do lugarejo é a fuga de uma preguiça do Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba, um santuário ecológico com várias espécies nativas. A comunidade satiriza por deduzir a quantidade de trabalho que haveria para uma brigada antiterror. Dez Guardas Civis foram selecionados para o treinamento e apenas dois foram aprovados.
Na exatidão dos números, a cidade se preparou para ter um orçamento anual de R$ 240 milhões, seguindo a série histórica dos últimos anos. Só que a queda de receita deve chegar a R$ 60 milhões, reduzindo o orçamento para R$ 180 milhões. Diante da escassez de recursos não há mágica que permita saldar as despesas. Só o custeio da máquina consome R$ 90 milhões. Mais R$ 20 milhões é consumido pela empresa de lixo União Norte, enquanto a Invisa, uma Oscip que opera na Saúde (um contrato que é alvo de várias denúncias), abocanha outros R$ 40 milhões.
Sobram, em tese, R$ 30 milhões para financiar uma comunidade que se habituou a ganhar tudo do poder público. Ali, até em anos recentes, se ganhava do enxoval na maternidade ao caixão na hora do enterro.
O prefeito Octávio Carneiro (PP), eleito em 2012, está licenciado para fazer um tratamento quimioterápico. Seu quadro de saúde agravou-se, em parte, em decorrência dos problemas administrativos gerados pela conspiração interna que produziu uma Comissão Processante na Câmara de Vereadores, levada a cabo por um grupo de parlamentares dissidente da base governista, associado aos infiéis da corte.
O vice-prefeito, Nilton Furinga (PR), que assumiu o cargo interinamente, também seria um dos elos desta corrente conspiratória. Os relatos internos do atual ambiente administrativo são assustadores e inacreditáveis. Fala-se até em cultos satânicos e praticas de bruxarias. Nessas horas, obviamente, ficção e realidade andam entrelaçadas, mas tratando-se de uma Quissamã que se arma diante de um terrorismo inexistente, tudo e mais um pouco é possível.
Recentemente, Furinga procurou dirigentes do PMDB no Rio de Janeiro para trocar de partido. Queria se filiar a legenda do governador Luiz Fernando Pezão, mas foi orientado pelo presidente regional, Jorge Picciani, a procurar os dirigentes locais. Tentou entrar por cima e foi orientado a descer as escadas para conversar no andar de baixo.
Enquanto isso, as previsões para a cidade são pessimistas. O barril do petróleo continuará em baixa, com pouquíssimas chances de recuperação aos patamares dos anos dourados. Neste cenário inglório, há quem sonhe como uma reintegração ao território da próspera Macaé, de onde Quissamã se desprendeu para se tornar cidade. O município deve sua existência aos royalties do petróleo, a mesma fonte energética que é a causa de sua desgraça.








