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Os passos de Temer

redacao Por redacao
10/08/2015 - 13:22
em Política
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Vice-presidente da República, Michel Temer

Vice-presidente da República, Michel Temer

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Vice-presidente tenta demonstrar lealdade ao governo Dilma, mas há rumores de que diante da crise política e econômica ele estaria tentando se firmar como plano B |

Por Eduardo Simões |

Da Reuters |

O chamamento do vice-presidente da República, Michel Temer, pela reunificação diante da grave crise no Congresso e sua habilidade política o credenciam para assumir o país num eventual impedimento da presidente Dilma Rousseff, ainda que ele negue tal objetivo.

Temer veio a público na quarta-feira (05/08) fazer um apelo para que os parlamentares não agravassem a crise econômica e afirmou que alguém teria que trabalhar pela reunificação do país. As federações das indústrias dos Estados de São Paulo e do Rio de Janeiro manifestaram apoio à proposta de união apresentada pelo vice-presidente.

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Mas as palavras dele abriram caminho para a interpretação de que Temer estaria fazendo um jogo duplo, articulando em prol do governo e movimentando-se para mostrar ser alternativa confiável de solução num cenário de impedimento de Dilma.

A situação levou Temer a explicar para a chefe a intenção de suas declarações, gerando rumores sobre a saída do vice do posto de articulador, o que foi classificado por ele como boatos infundados.

Pessoas próximas ao peemedebista procuram afastar a interpretação de que Temer estaria fazendo jogo duplo destacando para isso a lealdade do vice.

DF - DILMA/EXÉRCITO - GERAL - O vice-Presidente da Michel Temer (e) e a presidente Dilma Rousseff participam da solenidade de comemoração do Dia do Exército Brasileiro no   Quartel General do Exército, no Setor Militar Urbano, em Brasília, nesta terça-feira.    19/04/2011 - Foto: ED FERREIRA/AGÊNCIA ESTADO/AE
Temer ao lado de Dilma Rousseff durante cerimônia oficial: vice-presidente tenta demonstrar lealdade ao governo, mas há que veja sinais de conspiração para apresentar-se como elo de unidade

“Ele é uma pessoa muito leal”, disse o analista político Thiago de Aragão, sócio da consultoria Arko Advice e que trabalhou com Temer neste ano. “Não acho que ele disputará a Presidência em 2018, porque antes o governo atual precisa ser resolvido. Após isso, o futuro dele está em aberto”, acrescentou.

“Alguém precisava fazer um chamamento para a unidade. O ideal é que esse alguém fosse a presidente da República, que aliás foi eleita há nove meses e não fez isso em momento nenhum e agora ela perdeu as condições de fazer isso… O vice-presidente se manteve sempre em condição de fazer esse movimento, porque ele sempre soube se preservar”, acrescentou.

Trânsito na oposição

Temer é visto até mesmo por adversários como uma pessoa afável e de fácil convivência, características que o ajudaram a presidir a Câmara dos Deputados por três vezes e que o mantém há 11 anos no comando do maior partido do Brasil, o PMDB.

“O Michel Temer é um político hábil e experimentado. Eu diria isso daí. Eu não vou mais nada além disso”, disse à Reuters o senador José Agripino (DEM-RN), uma das principais vozes de oposição a Dilma, ao ser questionado sobre o papel de Temer em um eventual pós-impeachment.

Cauteloso, o presidente do DEM disse que, para se chegar a um impeachment, são necessários fundamentos jurídicos que, segundo ele, ainda não surgiram.

Peça-chave

Depois de um primeiro mandato de Dilma em que teve pouca relevância e raramente era consultado pela petista, Temer tornou-se peça-chave do governo ao assumir em abril a articulação política em meio a uma crise no Congresso e à necessidade de Dilma aprovar no Legislativo medidas impopulares para reequilibrar as contas públicas.

O protagonismo conquistado, aliado à fragilidade da presidente, abriu espaço para que as declarações de Temer na última quarta recebessem exatamente a interpretação que agora ele busca negar.

“Ele (Temer) tem sinalizado em geral para um comportamento buscando o entendimento e acomodação… Mas marginalmente houve uma mudança no discurso dele e ele paulatinamente também reflete essa segunda agenda, de começar a construir legitimidade para eventual ocorrência de impeachment”, disse o analista Rafael Cortez, da Tendências Consultoria.

Mas o futuro do vice-presidente de 74 anos pode ser definido antes do que ele imagina, caso Dilma sofra um impeachment. A petista tem pela frente a análise das contas do ano passado de seu governo pelo Tribunal de Contas da União (TCU), que pode abrir caminho para um processo de impedimento e catapultar Temer para o comando da República.

“Eu sinceramente acho que ele (Temer) é o único que poderia vir a ter (as condições para solucionar a crise)… Se ele não tem, ninguém mais tem”, disse o cientista político Carlos Melo, do Insper.

“Não é nada que signifique que ele está trabalhando para isso. Acho que ele tem tido um comportamento muito responsável… Mas claramente ele já começa a abrir a possibilidade de minimizar ou, pelo menos, fazer um teste de qual seria a viabilidade de um eventual mandato”, avaliou o analista.

Aliados e pessoas próximas de Temer evitam falar da possibilidade de impeachment da presidente, mesmo reconhecendo a crise política e a importância que o vice tem para o governo.

“Existe uma crise política que agrava a crise econômica, a capacidade do governo de articular a sua base parlamentar diminui drasticamente e não há dúvida que é necessário que se tenha o mais rápido possível condições políticas para que se possa fazer um grande acordo nacional”, disse Wellington Moreira Franco, um dos peemedebistas mais próximos de Temer.

Ele participou de jantar nesta semana entre lideranças do PSDB e do PMDB, mas figuras das duas legendas garantem que um eventual impeachment não esteve no cardápio do encontro, assim como a realização de um pacto para dar sustentação a um eventual governo Temer.

Setores tucanos, aliás, defendem a saída de Dilma via cassação de sua chapa presidencial pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o que implicaria também na saída do vice. Essa hipótese levaria à realização de novas eleições, nas quais o presidente do PSDB, senador Aécio Neves (MG), despontaria como favorito.

A possibilidade de cassação da chapa, no entanto, é apontada por analistas como a mais remota entre aquelas que podem resultar em uma interrupção de mandato de Dilma.

*Reportagem adicional de Anthony Boadle, em Brasília

Tags: Crise econômicaCrise políticaDilmaMichel Temer
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