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Ex-faxineira acusa delegado de xingá-la de ‘macaca e frango preto de macumba’

Mulher alegou que registrou o caso de racismo em cartório de notas, por temer que o policial fizesse algo contra ela e os filhos

redacao Por redacao
10/01/2022 - 18:08
em Política
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Ex-faxineira que trabalhou em delegacia onde o Mauricio Demetrio era delegado, o acusa de racismo

Ex-faxineira que trabalhou em delegacia onde o Mauricio Demetrio era delegado, o acusa de racismo Foto: Fabio Rossi / Agência O Globo

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A pensionista X., de 54 anos, trabalhou 12 anos de sua vida como faxineira. Parte deste tempo, entre 2002 e 2008, ela atuou numa empresa prestadora de serviços para a Polícia Civil. Foi lá, quando a Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente (DPMA) ainda funcionava no Largo da Cancela, em São Cristóvão, que ela conheceu um dos delegados da especializada, Mauricio Demetrio, preso em operação do Ministério Público do Rio (MPRJ), em junho do ano passado.

Dessa passagem no seu currículo, X. conta que não tem boas recordações. Segundo ela, Demetrio a xingou de “frango preto de macumba”, e disse ter sentido na própria pele o peso do racismo na época. Ela conta que, com medo de registrar a ofensa na delegacia de polícia, decidiu consignar a ocorrência em cartório de registro de notas.

— Em 2002, eu fui trabalhar na DPMA. Não sei muito bem como fui parar lá. Só era eu que fazia a limpeza ali. Alguns anos depois, esse cara (Demetrio, cujo nome evita pronunciar) entrou lá. Tudo ficou muiito ruim para mim. O clima era péssimo — relembra ela. — Num dia de chuva, quando eu puxava (com o rodo) a água da frente da delegacia, ele (Demetrio) escorregou e caiu de bunda no chão. Não era culpa minha, mas ele se levantou irritado. Sacou a arma e disse: ‘Vou te matar, sua filha da puta. Eu vou te dar um tiro nessa sua cara, sua preta. Ele me chamou de todos os nomes: macaca, macumbeira, frango preto de macumba — recorda-se.

Embora já se tenha passado quase 14 anos do caso, a ex-faxineira ainda se emociona quando lembra de tudo que passou. Segundo ela, a humilhação ocorreu na presença de várias pessoas na delegacia, inclusive na frente do titular da DPMA, Marco Aurélio Castro, que afirma ter lhe protegido da fúria de Demetrio.

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— Outras pessoas entraram na confusão, disseram que ele não precisava fazer aquilo — conta ela. — Eu ainda tenho medo dele e temo pela minha família. Mas, é preciso vir a público e dizer que ele é um monstro, que precisa ficar preso — diz a pensionista, que só decidiu contar a história agora por se sentir mais segura com ele preso.

Mulher descreve terror psicológico

O delegado foi preso em 30 de junho do ano passado, pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MPRJ, na Operação Carta do Corso. As investigações começaram em 2019, quando um empresário da Rua Teresa, em Petrópolis, acusou o delegado de lhe exigir propina para permitir a venda de produtos falsificados na cidade serrana. Demetrio, na época, era o titular da Delegacia de Repressão aos Crimes Contra a Propriedade Imaterial (DRCPIM). As informações são do Jornal O Globo.

X. conta que desde 1999 trabalhou na firma de limpeza Nova Rio, prestando serviços a várias instituições. No entanto, ela relata que só passou por situações graves de racismo entre 2007 e 2008, período que trabalhou na delegacia com Demetrio.

— Você vai fazer o quê? Um monte de gente branca ali, ele falando que vai te matar. Não tem o que sentir. Só torcer pra nada de pior acontecer — relata X., que hoje só consegue andar amparada por uma bengala.

Após anos de faxina, ela descobriu que tinha falta de cálcio nos ossos. Fez diversas cirurgias e atualmente não pode mais trabalhar.

Segundo ela, o terror psicológico que sofreu no período que conviveu com Demetrio chegou também em casa. Ela conta que até os filhos dela ele ameaçou.

— Ele chamava os meus filhos de coisa ruim do capeta, sementinhas do mau. Eu acho que ele tinha alguma informação sobre a minha família. Mas ele não fazia isso só comigo. Ele fazia isso com outras pessoas. Forma os piores anos da minha vida — recorda-se.

Registro em declaração de cartório de que sofreu racismo

Para chegar à delegacia às 8h, ela deixava sua casa, num bairro da Zona Oeste, por volta de 6h. Ela saía às 16h, muitas vezes, aos prantos. Ela fez o registrou a declaração de que sofreu racismo e foi ameaçada por Demetrio em 2011, em cartório de notas. Ao ser perguntada por que levou três anos para tomar tal atitude, alegou que tinha medo de perder o emprego.

— Eu procurei o cartório porque o doutor Marco Aurélio (Castro), que me ajudou muito, me orientou. Eu tinha medo de registrar na delegacia ou na corregedoria (da Polícia Civil), porque ele comandava tudo. E também porque não daria em nada. O Marco Aurélio nunca concordou com as altitudes do Demétrio. Por isso saiu de lá — conta — Ele (Demetrio) é ruim. Ele mandou prender pedreiros de uma obra na DPMA. Também ficou irritado com eles. Saiu prendendo trabalhador. Ele me obrigou a depor contra os rapazes. Eu não sabia de nada. Colocou uma arma na mesa e tive que ir.

A irmã de X., uma funcionaria pública de 53 anos, lembra que a ex-faxineira sempre chegava em casa relatando as ofensas racistas sofridas no trabalho na delegacia. MP investiga se delegado usou indevidamente equipamento de escuta telefônica da Polícia Civil

— Era todo dia uma agressão. Às vezes, ela chegava até chorando, dizendo que aquele homem a agredia com ofensas racistas. Ela sempre chegava para baixo.Cheguei a falar com ela para registrar o caso na delegacia, mas ela dizia: ‘Não, não, não. Ele conhece muita gente e pode fazer alguma coisa comigo’. Ela tinha pavor desse delegado — ressalta a irmã de X.

Um delegado revelou que ex-faxineira não teve apoio de policiais contra Demetrio

A reportagem procurou o delegado Marco Aurelio Castro, atualmente titular da 50ª DP (Itaguaí), que confirmou a história, mas negou ter assistido a cena em que Demetrio xingou a ex-faxineira. Por e-mail, ele respondeu que soube pela própria ex-prestadora de serviços. Disse ainda que a orientou a registrar em delegacia: “No exercício da minha função, a orientei no sentido de registrar o fato crime e também comunicar na corregedoria, mas como não teve o apoio dos policiais que supostamente presenciaram o fato, não seguiu a orientação. Na continuidade da conversa, ela disse, pelo o que me recordo, que um advogado a teria orientado a fazer uma declaração em cartório, e me perguntou o que eu achava. Salvo engano, disse que não teria efeito prático e imediato algum. Só soube que ela realmente fez a declaração em cartório recentemente, pois deixei o comando da DPMA em seguida, tendo sido lotado em Maricá. Desde então não tive mais contato com a mesma”

Segundo ele, X, “era uma ótima funcionária, humilde e generosa”. Castro confirma o medo dela em ser dispensdada do trabalho, à época: “Dizia precisar do emprego e não queria correr o risco de ser demitida. Especificamente a orientação de procurar um cartório não partiu da minha pessoa, mas supostamente de um advogado que assim a teria instruído”

Por último, ao ser perguntado sobre suas impressões sobre o comportamento do colega de corporação, o delegado de Itaguaí respondeu: “Não me cabe fazer uma avaliação profissional dessa pessoa, enquanto servidor público; tampouco de seu caráter. O mesmo está respondendo criminalmente por seus atos. Ao final do processo, a Justiça o dirá. Só posso dizer que enquanto delegado de polícia, se sua inteligência e capacidade investigativa fosse usada para o bem, a Polícia Civil e a sociedade teriam um funcionário de alto nível. Nunca mais tivemos, desde então, qualquer contato profissional ou social.”

A reportagem procurou a assessoria de imprensa da Secretaria de Polícia Civil para saber se a corporação havia recebido da 1ª Vara Criminal Especializada as provas do processo a que Demetrio responde por organização criminosa, obstrução da Justiça, lavagem de dinheiro ou ocultação de bens e concussão (exigência de propina). A resposta foi a seguinte, por nota: “A Corregedoria de Polícia Civil já solicitou o compartilhamento, inclusive, reiterando o pedido esta semana e aguarda o recebimento das provas solicitadas. Quanto às perguntas para o delegado Marco Castro, devem ser encaminhadas diretamente a ele, tendo em vista que o episódio teria ocorrido há 11 anos”.

O advogado Raphael Mattos, que defende Mauricio Demetrio, disse que não se pronunciaria sobre o suposto caso envolvendo a ex-faxineira e o seu cliente.

Tags: #Abuso moral#Humilhação
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