O depoimento que joga delegados da PF, promotor, juízes e parte da imprensa de Campos dos Goytacazes-RJ na boca do lixo; ARQUIVO NA ÍNTEGRA:
Foto: Phelipe Soares / NF Notícias
Em um depoimento de nove laudas, a ex-chefe da Polícia Federal de Campos dos Goytacazes-RJ, a delegada Carla de Melo Dolinski (foto), narra em pormenores o outro lado da Operação Chequinho na cidade do interior do Estado do Rio.
O inquérito resultou na prisão do ex-governador do Rio, Anthony Garotinho (PRP), vereadores e eleitores por suposto uso indevido de um programa social para compra de votos na eleição de 2016.
ENTENDA O CASO
Rosinha Garotinho, esposa de Anthony Garotinho, era prefeita da cidade. O ex-governador era secretário de governo. Durante a eleição de 2016, o grupo apoiava a candidatura do médico Dr. Chicão, candidato à sucessão municipal pelo PR.
A prefeitura mantinha o programa Cheque Cidadão, que beneficiava famílias de baixa renda. Os beneficiários recebiam um cartão que dava direito a consumir alimentos e materiais de higiene no comércio local.
No ano eleitoral, o Ministério Público apontou uso indevido deste programa para compra de votos. O número de beneficiários teria aumentado no ano da eleição, segundo o MP, e candidatos a vereadores do núcleo governista estariam se beneficiando com o cadastramento de eleitores e até distribuindo o benefício.
A Polícia Federal, durante o período, desencadeou sucessivas operações com autorização da justiça para coibir a suposta conduta criminosa e levantar provas que resultariam em um processo polêmico, afastando e prendendo vereadores, além do próprio Garotinho.
O QUE DIZ A DELEGADA
A delegada que chegou a participar das operações, fala em prisões ilegais de eleitores, como uma idosa de 70 anos, suposta beneficiária do programa social, apenas para configurar formação de quadrilha e justificar a prisão de réus no processo por crime eleitoral, já que somente a punição por crime eleitoral não prevê prisão.
Em outros trechos, fala em prisões indiscriminadas e arbitrárias para forçar confissões, o que pode caracterizar tortura.
Existem situações ainda mais inusitadas, como uma sentença proferida pelo juiz Glaucenir Soares contra o ex-governador Anthony Garotinho, que teria sido elaborada pelo delegado da Polícia Federal e levada a uma academia de ginástica apenas para colher assinatura do magistrado. Ou seja, ele exerceu o papel de delegado e cumpriu a tarefa que caberia ao juiz. Fora “os pedidos insistentes do promotor” para que o delegado Cassiano assumisse o caso.
O conteúdo do depoimento, que foi tema de uma reportagem do SBT nesta segunda-feira (30), é devastador para a carreira dos delegados Marco Aurélio e Paulo Cassino Júnior, o promotor do Ministério Público Estadual, Leandro Manhães, e os juízes Glaucenir Oliveira e Ralph Manhães, que atuaram em diferentes etapas no decorrer do processo na Comarca local. CONFIRA VÍDEO:
https://www.facebook.com/sbtriooficial/videos/1523300831112227/
DEPOIMENTO GRAVADO
Caso haja comprovação de todo o relato, é um chute escancarado no estado de direito, a subversão ampla e irrestrita da Constituição Federal. Um sinal inequívoco de que o estado policialesco inspirado na doutrina de Curitiba, matriz da Operação Lava Jato, é uma montanha que pariu uma geração de ratos.
É prematuro tirar qualquer conclusão sem um devido processo legal, com amplo direito de defesa aos citados na denúncia, mas há de se destacar que a delegada demonstra convicção sobre tudo que relata, além de ser uma autoridade que participou e assistiu os procedimentos, chegando a realizar correições por determinação da corregedoria da instituição. É tão convicta, que teria exigido ao delegado Gabriel Duarte de Souza (que tomou o depoimento), que tudo fosse também gravado em vídeo.
Cópias do depoimento foram repassadas aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) por iniciativa de Garotinho (o réu mais notório neste episódio), o que teria motivado a decisão monocrática do ministro Ricardo Lewandowiski de suspender o processo da Operação Chequinho e exigir a remessa à Corte de todas as denúncias envolvendo o promotor Leandro Manhães.
ALIANÇA PERVERSA
A aliança entre membro da Polícia Federal, Ministério Público e Judiciário não é tudo nesta fedentina. O odor é ainda pior, caso se observe o comportamento de segmentos da imprensa durante o episódio. Há indícios de que jornais locais prestaram “relevantes serviços” como braços operacionais do suposto esquema policialesco. Principalmente, quando se prestavam a publicar notas supostamente plantadas, com fortes indícios de que posteriormente eram utilizadas para justificar mandados de busca e apreensão. Fora os noticiários em telejornais. A imprensa, diga-se de passagem, exerceu muito mais o papel de assessoria de imprensa da policia do que propriamente as tarefas de veículos de comunicação independentes na cobertura jornalística.
Um trecho do depoimento que reforçam as suspeitas sobre esses laços com a “imprensa amiga”, é quando a delegada diz que um colega dispensou os procedimentos legais para prender suspeitos apenas para ganhar tempo e “sair no jornal da noite”.
A PRISÃO DE GAROTINHO
Sobre o episódio envolvendo a transferência de Anthony Garotinho de uma UTI para uma penitenciária, no ano passado, ela relata que o delegado Marco Aurélio diz que o juiz Glaucenir autorizaria a remoção do réu de qualquer maneira e assim foi feito, contrariando todas as recomendações médicas, porque, conforme se comprovaria posteriormente, o paciente estava infartado.
As nove laudas a remete a algumas conclusões: é possível que os agentes da lei, inicialmente, até buscassem coibir o que consideravam crimes eleitorais. Só que no caminho perdeu-se o rumo. Pesaram a mão e perderam os limites. Arquitetou-se, mesmo que instintivamente, um plano perfeito para encobrir condutas indevidas no processo de apuração e julgamento da Operação Chequinho, incluindo a narrativa do braço midiático, só que no caminho emergiram as nove laudas que poderão mudar o curso desta história.
*Agência VIU!








