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Assassinato de Marielle Franco completa quatro anos sem respostas

Linhas de investigação sobre o mandante da morte de Marielle estão focadas em dois nomes

redacao Por redacao
13/03/2022 - 09:27
em Política
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Assassinato de Marielle e ANDERSON

Vereadora Marielle Franco e motorista Anderson Gomes foram mortos em 14 de março de 2018 Foto: Agência O Globo

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Mil quatrocentos e sessenta e um dias ou quatro anos. A forma de contar o tempo não importa. Amanhã, as famílias da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, assassinados em 14 de março de 2018, vão cobrar mais uma vez das autoridades a solução do crime que chocou o país.

E, numa nova tentativa de responder à pergunta “Quem mandou matar Marielle e Anderson?”, a força-tarefa criada pelo Ministério Público do Rio (MPRJ) decidiu dar um passo atrás e revisitar os dados levantados até agora em busca de detalhes desapercebidos que possam ter passado no labirinto da investigação.

A compra de uma nova versão do programa do equipamento israelense Cellebrite, que extrai e recupera dados deletados de celulares, é um dos caminhos para elucidar o caso. O coordenador do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MPRJ, que também chefia a força-tarefa do Caso Marielle e Anderson, Bruno Gangoni, ressaltou que o avanço da investigação depende dessa reanálise de provas, uma vez que, no primeiro ano do caso, houve muita pressão para se resolver o duplo homicídio.

Não à toa, em março de 2019, foram presos o sargento reformado da PM Ronnie Lessa e o ex-policial militar Élcio de Queiroz, acusados de serem os executores. Para Gangoni, com mais promotores debruçados sobre o caso, atualmente são oito, além de mais analistas, aumentaram as chances de encontrar alguma nova pista:

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— Estamos dedicados, escutando áudios e vendo imagens. Tem muito material que ainda não foi analisado. Recebemos imagens novas da Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), a que nunca tivemos acesso antes. A prova é praticamente digital nesse homicídio, e as empresas de tecnologia vão se aperfeiçoando. Por isso, vamos passar os telefones do Lessa no novo programa do Cellebrite, para extrair dados que não conseguimos antes — explicou o promotor.

Dois nomes

O Gaeco recebeu da Polícia Civil 1.300 imagens novas na última terça-feira, a poucos dias de o crime completar quatro anos. Questionado sobre a demora na entrega desse material, Gangoni disse que é preciso ver antes se há algo relevante nos dados. Já a Polícia Civil respondeu que não comentaria provas sob sigilo.

Segundo o promotor, as linhas de investigação sobre o mandante da morte de Marielle estão focadas em dois nomes: o do ex-vereador Cristiano Girão, que cumpriu pena por participação em milícia, e o do conselheiro afastado do Tribunal de Contas do Estado (TCE) Domingos Brazão.

O primeiro é suspeito de contratar Lessa para executar um rival nos negócios da milícia na comunidade Gardênia Azul, na Zona Oeste do Rio. Girão encontra-se preso por isso. Já Brazão responde a um processo por obstrução da Justiça, no qual é acusado pela Procuradoria-Geral da República de atrapalhar as investigações do duplo homicídio.

O advogado Ubiratan Guedes, que defende Brazão, disse que o conselheiro afastado não responde a inquérito ou ação penal relativos aos homicídios de Marielle e Anderson. A defesa de Girão também afirmou que o ex-vereador não é “formalmente investigado” por esses crimes.

O diretor do Departamento-Geral de Homicídios e Proteção à Pessoa, Henrique Damasceno, afirmou que a investigação tem o seu tempo, e não arriscou dar um prazo para que a polícia chegue ao mandante do crime:

— Não se trata de dificuldades, mas sim de complexidade. O trabalho vem sendo realizado de forma ininterrupta, a fim de esclarecer todas as circunstâncias do duplo homicídio — explicou o delegado.

Enquanto autoridades tentam justificar a demora, cresce o sentimento entre as famílias das vítimas de que o nome do mandante nunca virá à tona. A viúva de Anderson Gomes, Agatha Arnaus, diz não ter mais esperanças de ver a solução do caso e segue a vida com um só propósito: o tratamento do filho Arthur, de 5 anos.

O menino nasceu com onfalocele (os órgãos abdominais se desenvolveram no cordão umbilical) e tem uma doença rara que atrasa seu desenvolvimento). Ele já fez cinco cirurgias. Numa delas, Agatha conta que quase o perdeu.

— São quatro anos, e, praticamente, as únicas provas são as que foram colhidas no primeiro ano. Cada ano que se passa, mais difícil fica. Meu marido estava no lugar errado, na hora errada. Ele não era o alvo de nada. Claro que eu gostaria de ver todos os responsáveis presos, mas hoje o meu foco é um só: a recuperação do meu filho, fazer o que puder por ele. Anderson lutava pela recuperação do Arthur e, de repente, tive que ficar sozinha. Sigo nessa luta — diz a viúva, abraçada ao filho.

Agatha vibra com cada simples aprendizado conquistado pelo filho no Instituto Véras, uma escola para o desenvolvimento de crianças com dificuldades. Além do custo do colégio, há os gastos com o hormônio do crescimento que o menino precisa. Até hoje a família não recebeu qualquer tipo de indenização pela morte de Anderson.

Outra batalha. Arthur, de 5 anos, e Agatha Arnaus, filho e viúva de Anderson: “Hoje meu foco é um só: a recuperação do meu filho” Foto: Guito Moreto / Agência O Globo

‘A quem interessa?’

Essa falta de resposta também angustia a viúva de Marielle, a vereadora Monica Benicio. Como Agatha, ela reclama da falta de acesso às investigações e conta que, desde que as promotoras Simone Sibílio e Letícia Emile saíram do caso por “interferências externas nas investigações”, todas as reuniões no MPRJ e na Polícia Civil foram convocadas pelas famílias e pelo Instituto Marielle Franco. Este último, dirigido pela irmã da vítima, Anielle Franco, que tem programado uma série de encontros com pessoas ligadas à investigação para cobrar providências.

— O chefe do Ministério Público, Luciano Mattos, o secretário da Polícia Civil, Allan Turnowski, e todas as autoridades de segurança devem uma resposta ao país. Quem vai acreditar nas instituições depois disso? Ninguém. As perguntas que ficam são: a quem interessa o não esclarecimento desse caso? Por que não se chegou a uma solução após quatro anos? Espero, do fundo do meu coração, não ter que perguntar isso novamente daqui a um ano — disse Monica.

Anielle também questiona a troca de cinco delegados em quatro anos:

— A gente segue na esperança de dias melhores e respostas, mesmo com tantas trocas dentro da investigação.

Sobrevivente da emboscada que matou Marielle e Anderson, a então assessora da parlamentar Fernanda Chaves ainda leva uma vida cercada de segurança, por não saber quem encomendou o crime:

— São quatro anos de impunidade que corroem a democracia brasileira, mas que também interferem na minha vida e na vida da minha família. Afinal, se você não sabe de onde veio, você não sabe do que se proteger.

Para manter o legado de Marielle, a artista e muralista Rafa Mon lançou uma gravura com a imagem de Marielle. Parte do lucro (20%) da venda será revertida para o Pré-Vestibular Comunitário Marielle Franco, no Morro da Providência, na Gamboa, que atende a cerca de 300 alunos.

As informações são do Extra.

Tags: #Homicídios´#Violência no Brasil#MarielleFranco#Violência no RJ
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