O senador Flávio Bolsonaro (PL) divulgou uma carta após chegar aos Estados Unidos na qual contesta o resultado da eleição presidencial, afirma ter deixado o Brasil por considerar-se alvo de perseguição política e anuncia que pretende continuar sua atuação como líder da oposição a partir do exterior.
O documento chamou atenção não apenas pelas acusações apresentadas, mas também pelas alterações feitas entre as diferentes versões que circularam ao longo da quarta-feira (28).
Na primeira publicação feita pelo próprio senador no X, Flávio se apresentava como o “verdadeiro presidente do Brasil” e, em outro trecho, afirmava ser o “presidente eleito”. Cerca de 20 minutos depois, o conteúdo foi editado. Na versão que permanece disponível em seu perfil oficial, as expressões foram substituídas por “líder do Brasil” e “líder”.
Outros documentos distribuídos por aliados também apresentaram diferenças. Ao menos quatro versões da carta foram identificadas, duas delas em arquivos PDF e duas relacionadas à publicação feita no X. Além de mudanças no texto, houve alteração no brasão utilizado nos documentos.
Apesar das modificações, a versão final mantém a principal acusação feita pelo senador: a de que a eleição presidencial teria sido fraudada. Flávio não apresentou provas que sustentem a alegação.
O resultado oficial do segundo turno, realizado no domingo (25), confirmou a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O presidente recebeu 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos. Flávio obteve 59.826.041 votos, ou 48,21%. A diferença entre os dois candidatos foi de aproximadamente 4,43 milhões de votos.
Um dos argumentos apresentados por Flávio envolve a autorização para que seções eleitorais que ainda estavam abertas às 17h continuassem recebendo votos até as 19h. Segundo dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral, pouco mais de 34 mil votos foram registrados depois das 17h, número muito inferior à diferença entre os candidatos.
A acusação de fraude também não foi endossada pelo coordenador da própria campanha de Flávio. O senador Rogério Marinho (PL-RN) afirmou que nem ele nem o partido possuem provas para sustentar que houve fraude na eleição. Marinho classificou a carta como uma manifestação pessoal de Flávio após o resultado eleitoral.
A divulgação ocorreu poucas horas depois de Flávio chegar aos Estados Unidos acompanhado da família. Sua saída do Brasil aconteceu em meio a medidas cautelares determinadas no âmbito de uma investigação que envolve o senador.
Segundo a Polícia Federal, a corporação pediu ao Supremo Tribunal Federal, ainda no domingo da eleição, medidas como a apreensão dos passaportes de Flávio, a proibição de saída do país e a restrição de contato com outros investigados. A PF afirmou ter identificado risco de que o parlamentar deixasse o território nacional.
Após a decisão judicial, os passaportes comum e diplomático brasileiros foram cancelados e um alerta migratório foi inserido no sistema de controle da Polícia Federal. Na manhã de segunda-feira (26), Flávio também foi intimado a entregar eventuais passaportes de outras nacionalidades no prazo de 24 horas, o que, segundo a corporação, não ocorreu.
A Polícia Federal informou ainda que não existe registro oficial da saída do parlamentar pelos postos brasileiros de controle migratório e que investiga as circunstâncias do descumprimento das determinações judiciais.
A corporação fez, porém, uma ressalva importante: a existência das restrições de viagem, isoladamente, não caracteriza Flávio como foragido e não autorizava automaticamente sua prisão. Por esse motivo, é mais preciso afirmar que o senador deixou o país apesar de uma ordem que proibia sua saída do que classificá-lo juridicamente como foragido naquele momento.
Na carta, Flávio sustenta que decidiu deixar o Brasil por temer novas medidas judiciais e afirma considerar as investigações contra ele uma forma de perseguição política. Essa é a versão apresentada pelo senador e não uma conclusão reconhecida pelas autoridades responsáveis pelos processos.
O documento também anuncia que Flávio pretende comandar sua atuação política a partir dos Estados Unidos e manter articulação com parlamentares, governadores e apoiadores no Brasil.
Apesar da declaração do senador, o resultado proclamado pela Justiça Eleitoral permanece inalterado. Lula foi reconhecido oficialmente pelo TSE como vencedor do segundo turno e presidente reeleito para um novo mandato.
A versão atualmente disponível da carta não contém mais as frases em que Flávio se apresentava como presidente eleito, mas mantém os questionamentos sobre a legitimidade da eleição. As versões anteriores permanecem relevantes para compreender como o discurso foi alterado nas horas seguintes à divulgação do documento.
Veja a publicação original
Flávio Bolsonaro publicou a carta em seu perfil oficial no X, antigo Twitter. O conteúdo disponível atualmente foi editado após a primeira publicação, com a retirada das referências em que o senador se apresentava como presidente.
A versão publicada atualmente pelo próprio Flávio pode ser consultada na íntegra em seu perfil oficial no X.
CARTA À NAÇÃO BRASILEIRA 🇧🇷
28.10.26 https://t.co/QqOGZuF8G0— Flávio Bolsonaro (@FlavioBolsonaro) October 28, 2026
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