Toda palavra é um instrumento político. É do ser da palavra produzir convivência, continuidade, descontinuidades ou rupturas. Daí a relação intensa, profunda e profundamente íntima da palavra com a política. A palavra é, dessa maneira, o instrumento primaz e primordial da política.
Pela palavra construo alianças, consensos e unidades. Reforço convivências ( … ). Mais do que um ajuntamento de signos, com sentido objetivo e prático, a palavra é fluxo ininterrupto de símbolos e historicidades que confere existência inteligente e sensível àquele que a emite, bem como àquele que a recebe e, inevitavelmente, a internaliza. Por isso, ouvir algo pode ser uma experiência profundamente perigosa. (Do dito pelo não dito, 16 de Julho de 2015).
Em uma de suas máximas desafiadoras, o crítico americano Harold Bloom (1930-2019) fez uma observação sobre o poder de atração da literatura que pode ser estendida ao entretenimento em geral: “É difícil continuar vivendo sem alguma esperança de encontrar o extraordinário”, coisa que o autêntico poeta sabe fazer.
Quem escreve poemas, escreve, porque num tempo qualquer, na mais longínqua eternidade, se fez íntimo ou cúmplice das palavras, privilégio de Deus/dos deuses. É essa capacidade de conectar os humanos ao sublime, de comover, fazer sonhar, provocar o pensamento e surpreender é que torna o cinema, a TV, os livros, a música e as artes plásticas, itens tão relevantes na vida cotidiana, quanto os desdobramentos concretos da política ou da economia, contra os quais a poesia abre confronto, porque desprezou técnicas de oratória e discursos bem treinados.
A política e a oratória são o outro lado da moeda. Pertencem aos sofistas e não à poesia! Os sofistas correspondem aos filósofos que pertenceram à “Escola Sofística” (IV e V a.C), composta por um grupo de sábios e eruditos itinerantes, que dominavam técnicas de retórica e discurso, e estavam interessados em divulgar seus conhecimentos em troca do pagamento de taxa pelos estudantes ou aprendizes. Alguns os consideram os primeiros professores da humanidade, e aqueles, a incipiente classe dos educandos, que se expunham à mentira, ao conteúdo enganoso, a informações mal utilizadas, levando o estudante a confusões e equívocos dos confusos sofistas.
A palavra é, enfim, a nervura mais sutil da política e, definitivamente, não existe palavra sem uma densa substância política que lhe garanta conteúdo e autonomia, o que deve-se evitar sempre. Não é estranho dizer que fazer política, e seja em que nível ou dimensão que for, é de outro modo, disputar palavras, seus sentidos e compreensões, visando alterá-las em favor de si, de algo ou de alguma causa.
Assim, casualmente os “melhores” políticos são os que mais e melhor sabem andar nos delicados labirintos das palavras porque, se bem entendidas, enunciadas e comunicadas, elas, as palavras, adentram nos juízos alheios, impregnam as sensibilidades daqueles que as internalizam. E a metamorfose, mais fantástica e impressionante, ocorre no interior deste ser humano porque a “química das palavras” faz e refaz compreensões, condiciona comportamentos, altera sociabilidades. (CAVALCANTE, s/p, 2015).
Os sofistas podem parecer que sejam portadores de um combativo espírito de vanguarda, por se voltarem contra a tradição e os costumes. Os sofistas rompem com a tradição pré-socrática, ao criticar os costumes e as tradições da sociedade ateniense da época.
Note que a palavra “sofista”, de origem grega, “sophistes”, corresponde a um termo derivado de “sophia”, ou seja, que se traduz ‘sabedoria’.
Dessa maneira, os jovens gregos, bem-nascidos, buscavam os sofistas interessados em adquirir conhecimentos e, especialmente o “aretê” – era o conceito grego que denotava nobreza, excelência e virtude e, no caso dos sofistas, a união dos conhecimentos gerais indispensáveis – (mais precisamente nas áreas da oratória, retórica, ciência, música e filosofia), era sobremaneira relevante, uma vez que na Grécia Antiga a função política, era muito destacada, vai depender sempre do bom uso da palavra.
Política pressupõe o bom uso da palavra. Ou seja, a palavra é serva da política. Podemos afirmar que desde a Grécia Antiga, ao século XXI, a prática da fala inescrupulosa torna o ser humano portador dos mais mesquinhos instintos de fraude ou da dominação (e fake news, má utilização da informação, desinformação).
O que faz o marketing moderno? Diz palavras com cores, nuanças e efeitos especiais. Dá sabor para o texto, põe nuvens, praias e muito prazer em todas as sílabas de uma palavra. Em todas as palavras de uma oração e em todas as orações de uma ideia geral. O marketing adoça o que não tem gosto, põe fragrâncias naquilo que é inodoro e garante lastro para vazios presentes nos vernáculos. Daí vende pedra como se fora pão, imundícies como se alimentos fossem. (CAVLCNTE, 2015, p. 1). É uma química da transmutação que escreve outra realidade que deseja esconder o aretê. Uma realidade e seu aretê menos nobre e verídico.
Palavras podem ser simples, mas prenhes de sentido que, pela força poética do trovador, as faz suaves enunciação. Ao contrário da palavra no marketing, então, a palavra poética traz sua própria luz, no sema que carrega consigo, seja na epopéia da criação do mundo (GÊNESIS 1, vv 1-31; GÊNESIS 2, vv 19 e 20), ou seja, na lírica ceciliana, que é o que se vê/sente em seu Romance das palavras aéreas:
Ai, palavras, ai, palavras, que estranha potência, a vossa! ai, palavras, ai, palavras, sois de vento, ides no vento, no vento que não retorna, e, em tão rápida existência, tudo se forma e transforma! Sois de vento, ides no vento, e quedais, com sorte nova! Ai, palavras, ai, palavras, que estranha potência, a vossa! todo o sentido da vida principia à vossa porta; o mel do amor cristaliza seu perfume em vossa rosa; sois o sonho e sois a audácia, calúnia, fúria, derrota… A liberdade das almas, ai! com letras se elabora… E dos venenos humanos sois a mais fina retorta: frágil, frágil como o vidro e mais que o aço poderosa! Reis, impérios, povos, tempos, pelo vosso impulso rodam.
Rogério Salgado é um poeta nascido da poesia articulada com as genuínas e poderosas manifestações de sintagma, na verticalidade paradigmática.
Apresentar o trabalho palavra-síntese de conotação plurissignificativa, de onde se extraem os sentidos fundamentais, inéditos, de Rogério Salgado, que é quando podemos nos surpreender com o extraordinário, que arrebata toda a extensão do ordinário.
Mas também vemos que a poesia de nosso conterrâneo são palavras fluidas, frescas, leves, como quem vai fugir a qualquer hora. Podem ser pesadas por seu forte conteúdo de traduzíveis emoções.
O tempo está presente e o poeta não deixa de brincar com ele: presente-passado-futuro sem, no entanto, conjugá-los, escondendo qualquer atividade mesquinha, salvaguardando a excepcionalidade poética do mundo.
… A vida é feita de estradar
na busca de novos horizontes
do que se pode encontrar
… Meu coração tão instável
fadado a ser infeliz
honesto em suas certezas
… apertem o cinto:
a democracia sumiu!
Se você não segue a cartilha
tome cuidado, não vá chorar
pois farão de você, lobo morto na matilha
e não lhe deixarão voltar.
… a palavra dos velhos
(idosos ou jovens)
nos tira o direito legal de ser
o que podemos ser: nós mesmos
… e por mais que busquem entender:
a poesia liberta!
por isso deixem que o poeta
fique por aqui.
Os tempos foram outros
hoje podem ser os mesmos
felizes as crianças que inocentes
como borboletas no casulo
sobrevoam os jardins
passado 1968 presente / futuro passado
Amazônia 2020
poema sonoro – poema concreto
a mulher que me habita
faz-me mais homem do que sou
capaz de amar-me a mim mesmo
assim como todas as mulheres
O que me vem pela frente
passado presente futuro
só vendo só vendo
O cheiro de Barbacena carrega culpas
o ar de Barbacena ainda respira
corpos putrefação amontoados na memória
de seres humanos que não carregam culpa
em minhas veias corre sangue goytacá
nessa mistura com gosto de caldo de cana
essa menina dos meus olhos meretriz
Nessa transa que me envolve com força bruta
não tão careta mas bem mais sacana
dentro de mim
corre o Rio Paraná do Sul
afluente que é
em minhas veias
ao sul de lembranças
daquele cheiro doce do canavial
vi velhas fotografias
li velhas cartas
e retornei comigo
aos tempos que já se foram
revi fantasmas escondidos no porão
arrastando correntes de velhos hábitos
que cometi ou deixei de ter…








