Redução além do esperado prevê inflação abaixo da meta em 2017 em meio à recessão econômica que asfixia o setor industrial
Da Reuters
O Banco Central surpreendeu ao reduzir nesta quarta-feira (11/01) a taxa básica de juros em 0,75 ponto percentual, mantendo a Selic em 13% ao ano, intensificando o ritmo de afrouxamento monetário para além do esperado pelo mercado diante de sinais de retomada econômica mais demorada após dois anos de profunda recessão.
Também passou a ver a inflação abaixo do centro da meta neste ano, em 4% no cenário de referência, contra 4,4% antes, sugerindo espaço suficiente para mais cortes robustos na Selic. Para 2018, a estimativa também caiu a 3,4%, contra 3,6% anteriormente. A meta para esses dois anos é de 4,5% pelo IPCA, com margem de 1,5 ponto percentual.
“Diante do ambiente com expectativas de inflação ancoradas, o Comitê entende que o atual cenário, com um processo de desinflação mais disseminado e atividade econômica aquém do esperado, já torna apropriada a antecipação do ciclo de distensão da política monetária, permitindo o estabelecimento do novo ritmo de flexibilização”, afirmou o BC em comunicado, após reconhecer que chegou a avaliar a alternativa de reduzir a Selic em 0,5 ponto e sinalizar um corte maior para a próxima reunião.
“A extensão do ciclo e possíveis revisões no ritmo de flexibilização continuarão dependendo das projeções e expectativas de inflação e da evolução dos fatores de risco mencionados”, acrescentou.
Em pesquisa da Reuters, a grande maioria dos analistas consultados previu redução de 0,50 ponto percentual na Selic. Poucos, incluindo o maior banco privado do Brasil, Itaú Unibanco, estimaram corte mais agressivo, de 0,75 ponto.
“A inflação corrente caiu, e a esperada também. Lá fora o juro subiu e o mundo não acabou, a economia está em recessão e as reformas estão andando. Esse corte de 0,75 veio tarde”, avaliou o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco Gonçalves, que segue vendo a Selic em 9,75% ao ano já em outubro.
Em nota, o economista-chefe da Haitong, Jankiel Santos, afirmou que com a decisão desta quarta fica estabelecido um novo ritmo de corte de juros no curto prazo, com o BC repetindo a tesourada de 0,75 ponto percentual pelo menos nos próximos dois encontros do Copom.
“A continuidade deste ritmo ou a redução para um passo mais lento dependerá da evolução do cenário prospectivo, mas as chances de a taxa Selic atingir novamente o nível de um dígito ainda este ano aumentaram bastante”, escreveu ele, acrescentando que deverá revisar em breve seu cenário atual, de Selic em 10,50% ao fim de 2017.
O presidente Michel Temer, que vinha dizendo que a queda da inflação permitia o corte dos juros, comemorou a decisão do Copom.
“A decisão do Banco Central, que delibera de forma independente e com base em elementos exclusivamente técnicos, respalda a convicção do presidente Michel Temer no sentido de que estão dados os elementos para uma retomada do crescimento econômico e da criação de novos empregos ao longo do ano”, afirma nota do Palácio do Planalto.
JUROS MAIS BAIXOS
O ciclo de distensão monetária foi iniciado em outubro, com dois cortes de 0,25 ponto percentual cada na Selic, e com o BC apontando que flexibilização gradual nos juros era compatível com a convergência da inflação para o centro da meta em 2017 e 2018.
Em suas últimas comunicações, o BC ressaltou estar sensível ao nível da atividade econômica, reconhecendo recuperação mais lenta que o inicialmente estimado e já abrindo a porta para redução maior nos juros básicos. Agora, o BC assinalou que “a evidência disponível sinaliza que a retomada da atividade econômica deve ser ainda mais demorada e gradual que a antecipada previamente”.
Após martelar em diversas ocasiões que a recente ancoragem das expectativas era o que dava amparo a cortes na Selic e que havia visto surpresas positivas no processo de desinflação, o BC afirmou no comunicado que há evidências favoráveis inclusive sobre a inflação de serviços, em relação à qual vinha demonstrando preocupação.
A inflação medida pelo IPCA fechou 2016 em 6,29%, abaixo do esperado pelo mercado e dentro da meta do governo, o que não ocorreu em 2015.
Na pesquisa Focus mais recente, feita pelo BC com mais de uma centena de analistas todas as semanas, a expectativa era de alta do IPCA a 4,81% em 2017 e de 4,5% em 2018.
Para a economia, por outro lado, a projeção do mercado é de uma expansão de apenas 0,5 por cento do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano, após um tombo de 3,49% estimado para 2016. Em 2015, a atividade caiu 3,8%.
Em relação ao ajuste fiscal, a autoridade monetária voltou a afirmar que os passos no processo de encaminhamento e aprovação “têm sido positivos até o momento”, após o governo conseguir implementar um teto constitucional para o crescimento de gastos públicos e a reforma da previdência ter recebido o sinal verde na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados.
Sobre o cenário externo, o BC afirmou que, apesar de ainda ver incertezas, os efeitos do fim do interregno benigno têm sido limitados. O BC utiliza a expressão para designar o provável término do financiamento abundante para economias emergentes diante da elevação nos juros em países desenvolvidos, especialmente os Estados Unidos.
Analistas temem que Donald Trump, que assume o comando da maior economia do mundo no próximo dia 20, adote uma política econômica inflacionária e obrigue o Federal Reserve, banco central norte-americano, a elevar ainda mais os juros no país.








