Em uma das principais vielas do Jacarezinho, o mercadinho exibe nas prateleiras pequena variedade de produtos da cesta básica. O movimento nem é tão grande, em se tratando de uma favela com 80 mil habitantes. Uma situação muito diferente a polícia encontrou na conta bancária do estabelecimento, pela qual passaram R$ 30 milhões em dois anos. Outros três pequenos negócios na região faturaram mais R$ 10 milhões no mesmo período.
Ao seguir o rastro dos recursos, a Delegacia de Combate às Organizações Criminosas e à Lavagem de Dinheiro (DCOC-LD) chegou a um antigo conhecido da polícia e da Justiça: Marcos Vinicius da Silva, o Lambari, que já cumpriu pena de mais de dez anos por tráfico de drogas. As informações são do Extra.
Com informações do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e do Departamento Penitenciário Nacional, do governo federal, a delegacia especializada desencadeou ontem a operação Big Fish, para cumprir sete mandados de busca e apreensão, sendo três deles no Rio Grande do Norte, onde Lambari mora desde que foi solto. No Jacarezinho, onde o governo do estadual está implantando há 15 dias o programa Cidade Integrada, os agentes vasculharam quatro estabelecimentos.
A polícia investiga se Lambari montou um esquema para lavar o dinheiro obtido com o tráfico de drogas. Ele é suspeito, segundo a DCOC-LD, de lavagem de dinheiro, organização criminosa e associação para o tráfico de drogas. Sua prisão chegou a ser pedida à Justiça, mas foi negada. Já as contas investigadas foram bloqueadas pela 1ª Vara Especializada do Crime Organizado (TJ-RJ), com atuação da 1ª PIP Especializada do Ministério Público.
— O objetivo principal, neste momento, não é a captura do criminoso. Queremos mais elementos sobre a base financeira, para paralisar esse lucro e identificar a incompatibilidade entre o dinheiro que transitou nas contas e a vida financeira dessas pessoas — ressaltou o delegado Flávio Porto de Moura, diretor do Departamento-Geral de Combate à Corrupção, ao Crime Organizado e à Lavagem de Dinheiro.
Em suas redes sociais, o governador Cláudio Castro anunciou a ação na favela: “A Polícia Civil do Rio realiza operação para desarticular esquema de lavagem de dinheiro da facção criminosa que atuava no Jacarezinho. Também estão sendo cumpridos mandados de busca no Rio Grande do Norte, onde mora o traficante Lambari”, escreveu na postagem.
Os alvos da operação no Rio foram pequenos comerciantes suspeitos de serem laranjas do grupo. Lambari seria, segundo a polícia, um dos principais beneficiários do dinheiro repassado às contas desses estabelecimentos pelo tráfico. A investigação que deu origem à operação começou há três meses e teve como base relatórios da Subsecretaria de Inteligência da Polícia Civil.
A investigação descobriu inúmeros depósitos bancários — quase sempre de pouco mais de mil reais — feitos diariamente na boca do caixa nas contas dos estabelecimentos investigados. Segundo a polícia, os titulares dessas contas jurídicas teriam assinado procurações para agir em nome de Lambari.
— O objetivo dessa investigação é tirar o dinheiro da chefia da facção que atua no Jacarezinho. Descobrimos que comerciantes, muitos deles da favela, dariam o suporte para a quadrilha. São pessoas de confiança que utilizavam seus comércios para mesclar o dinheiro lícito com o ilícito, este oriundo do tráfico de drogas — explicou o delegado Gabriel Poiava Martins, da DCOC-LD.
O delegado explicou que o esquema foi montado para ocultar os bens de Lambari, uma estratégia adotada por chefes do tráfico que foram presos. Segundo ele, na operação de ontem, foram apreendidos procurações e outros documentos que vão provar o que a investigação aponta.
No Rio Grande do Norte, os mandados de busca e apreensão foram cumpridos num apartamento e num sítio de Lambari. Agentes também estiveram numa empresa de paisagismo que seria do investigado. No endereço onde ele mora foram apreendidos R$ 15 mil e um relógio avaliado em R$ 30 mil. Não existe hoje qualquer mandado de prisão contra Lambari.








