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Carla Zambelli engana com montagem que associa miocardite à vacina contra Covid-19

Deputada fez publicações que davam a entender que o jogador Alphonso Davies, do Bayern de Munique, teve miocardite após vacinação; veja por que a informação é enganosa

redacao Por redacao
30/01/2022 - 11:04
em Política
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Carla Zambelli fez publicações que davam a entender que o jogador Alphonso Davies, do Bayern de Munique, teve miocardite após vacinação; veja por que a informação é enganosa

Deputada Federal Carla Zambeli (PSL-SP) (Foto: Divulgação)

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É enganoso o post publicado pela deputada federal Carla Zambelli no Facebook, no qual ela faz uma montagem com títulos de reportagens dando a entender que o jogador canadense Alphonso Davies, do Bayern de Munique (Alemanha), teve miocardite por conta da vacina contra a covid-19.

O jogador teve este problema após contrair a doença, como mostra a íntegra de uma das notícias destacadas pela parlamentar. A conclusão sobre o diagnóstico do jogador foi divulgada oficialmente pelo Bayern de Munique.

No post publicado no Facebook, a deputada enfatiza o conteúdo com o comentário “Notícias que falam por si só! Tirem suas conclusões!”. Em contato com o Comprova, a assessoria de Carla Zambelli negou que ela tivesse relacionado este caso de miocardite à vacinação, mas foi esse o entendimento de diversos seguidores que comentaram o post da deputada.

O Comprova classificou o conteúdo como enganoso, porque tira de contexto as informações sobre a miocardite e o diagnóstico feito no jogador do Bayern de Munique, induzindo a conclusões equivocadas.

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Como verificamos?

Para realizar a verificação, procuramos as reportagens utilizadas por Carla Zambelli na montagem enganosa para entender o contexto em que foram publicadas e também o que os textos na íntegra diziam.

Na sequência, buscamos dados oficiais de órgãos como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o Ministério da Saúde, o Food and Drug Administration (FDA) – equivalente à Anvisa nos Estados Unidos – e o Programa Nacional para as Doenças Cérebro-Cardiovasculares da Direcção-Geral da Saúde, órgão de saúde do governo de Portugal.

Também foram procurados especialistas, informações no site oficial do Bayern de Munique e a deputada que publicou a montagem.

Reprodução de publicação feita pela deputada Carla Zambelli Reprodução/Projeto Comprova

Títulos tirados de contexto levam a falso entendimento

A montagem publicada pela deputada traz as imagens dos títulos de três textos diferentes. O primeiro é uma reportagem da agência alemã Deutsche Welle, de 22 de novembro de 2021, com a manchete “Bayern de Munique pune jogadores não vacinados”, que discute a possibilidade de o clube multar atletas que escolham não tomar a vacina e percam dias de trabalho caso tenham Covid-19.

Essa é uma situação prevista na legislação local e envolve corte de salário de funcionários não imunizados que faltarem ao trabalho por causa de infecção pela Covid-19.

O segundo texto é um alerta da Anvisa publicado em seu próprio site no dia 9 de julho de 2021, com o título “Anvisa alerta sobre risco de miocardite e pericardite pós-vacinação”. Ali, a agência informou que o órgão norte-americano FDA relatou a ocorrência de casos raros de miocardite (inflamação do músculo cardíaco) e de pericardite (inflamação do tecido que envolve o coração) após a vacinação contra Covid-19 com imunizantes de plataforma RNA mensageiro (RNAm), como as vacinas da Pfizer e da Moderna.

O texto destaca que esses problemas podem ser efeitos adversos das vacinas, mas mantém a recomendação da imunização, uma vez que os “benefícios superam os riscos” e que os dados sugerem a maior incidência em jovens e de forma leve.

O terceiro texto é uma reportagem do site Globo Esporte, de 14 de janeiro de 2022, com o título “Alphonso Davies é diagnosticado com miocardite e precisa ser afastado no Bayern de Munique”.

O texto é claro ao informar que o lateral-esquerdo teve a inflamação no coração como desdobramento da infecção pela Covid-19, e não por conta da vacinação. No mesmo dia, o Bayern de Munique confirmou o afastamento de Alphonso Davies dos treinamentos por conta de miocardite. O técnico do Bayern, Julian Nagelsmann, falou oficialmente sobre o caso.

“No exame de acompanhamento que fazemos com todos os jogadores infectados, encontramos sinais de miocardite leve em Alphonso. Ele está sem treinar. O ultrassom revelou que não é tão dramático o caso, mas ele vai precisar ficar fora pelas próximas semanas porque isso leva um tempo para recuperar”, explicou o treinador.

Ao jornal canadense The Star, o empresário do jogador, Nick Househ, afirmou no mesmo dia que Davies estava completamente vacinado, tendo tomado a dose de reforço em dezembro.

A notícia de que o atleta do Bayern de Munique teve Covid-19 também era conhecida desde 5 de janeiro, quando o clube alemão anunciou que Davies testou positivo.

Esses dois fatos públicos – que Davies teve Covid-19 e que a miocardite teve como origem a doença – não aparecem na montagem publicada por Zambelli em 15 de janeiro de 2022.

A deputada é integrante da bancada de apoio ao presidente Jair Bolsonaro (PL) e, assim como ele, tem uma atuação marcada pela divulgação de conteúdos contrários à vacinação contra Covid-19. Em dezembro de 2021, por exemplo, a Agência Lupa mostrou que a parlamentar usou conteúdo falso para atacar a vacinação de crianças contra a doença.

Procurada pelo Comprova, a assessoria da deputada negou que ela tenha afirmado que o problema de miocardite enfrentado por Alphonso Davies tivesse relação com a vacina.

Segundo a assessoria, a parlamentar postou uma informação que é um alerta da própria Anvisa sobre o risco de miocardite e pericardite. “Não houve qualquer afirmação dela de que foi devido à vacina”, comunicou.

Os títulos das matérias publicados de forma isolada, sem o conteúdo completo e de maneira consecutiva, levaram, no entanto, ao falso entendimento de que o jogador canadense desenvolveu uma doença cardíaca após se vacinar.

O comentário com mais interações no post de Zambelli no Facebook é de uma usuária que diz não ter tomado a vacina e que afirma estar observando “vários casos de mortes e reações da vacina”, que a “mídia não mostra”, deixando “o povo” sem saber “o que fazer”. Uma outra usuária diz: “Se não toma, não pode jogar. Se toma e fica com problema, não pode jogar. Tá osso!”

Ambos comentários foram respondidos por Zambelli. No primeiro caso, ela disse: “Devemos sempre defender a nossa liberdade! Sem ela não podemos fazer nada.” No segundo caso, afirmou: “Bem complicado não é mesmo? Por isso sigo defendendo a nossa liberdade!”

Em nenhum momento, a parlamentar esclareceu à leitora que o problema do jogador canadense fora detectado após ele ter contraído Covid-19, e não depois de ter se vacinado. A deputada também não informa seus seguidores que a miocardite eventualmente relacionada à vacinação tende a ter uma recuperação rápida e que o risco de uma pessoa ter miocardite após contrair Covid-19 supera em muitas vezes o risco de isso ocorrer como efeito adverso da vacinação.

Captura de tela da troca de mensagens de Carla Zambelli com uma usuária do Facebook feita em 28 de janeiro de 2022 / Comprova

Miocardite e Covid-19

Diversos especialistas apontam, utilizando estudos variados, que o risco de se desenvolver miocardite após a vacinação é bem inferior ao risco de ter esse problema após contrair a Covid-19.

Em setembro de 2021, por exemplo, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças, ligado ao FDA norte-americano, publicou um estudo segundo o qual a incidência da miocardite em vacinados é de 9 casos a cada 100 mil enquanto em pessoas que tiveram a doença e não se vacinaram são de 150 casos para cada 100 mil.

Segundo o infectologista André Ricardo Araújo da Silva, médico do Grupo Prontobaby e professor da Universidade Federal Fluminense, a miocardite é uma inflamação do músculo do coração, o miocárdio.

“Os sintomas geralmente são dor no peito, sensação de palpitação. A pessoa pode sentir falta de ar como alguma coisa apertando”, afirmou ao Comprova.

Em 4 de janeiro de 2022, durante uma audiência pública sobre a vacinação contra a Covid-19 de crianças e adolescentes, realizada pelo Ministério da Saúde, o representante da Sociedade Brasileira de Pediatria, Marco Aurélio Sáfadi, comentou essa questão.

“Um evento adverso que foi observado é a ocorrência da miocardite entre os vacinados. Mas é importante que se compreenda se esse risco é diferente pela própria Covid-19. Mesmo nos grupos com mais casos de miocardite com a vacinação, os números são dezenas de vezes inferiores ao risco de miocardite atribuído à própria Covid-19”, explicou o médico.

No último dia 25, um documento do Programa Nacional para as Doenças Cérebro-Cardiovasculares, da Direcção-Geral da Saúde, um órgão do governo de Portugal, concluiu que a “miocardite após vacinação é muito rara e geralmente ligeira, com rápida recuperação, parece não ter sequelas e atinge particularmente rapazes na adolescência e jovens adultos”, segundo o jornal Público.

Em julho do ano passado, o subcomitê para Covid-19 do Comitê Consultivo Global da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre Segurança de Vacinas (GACVS) emitiu uma declaração sobre notificações de miocardite e pericardite após vacinas de mRNA contra Covid-19.

O subcomitê também revisou dados da Austrália, Canadá, Israel e EUA e observou que alguns, mas não todos os dados, sugeriram maior incidência de miocardite após uma segunda dose da vacina da Moderna (Spikevax) do que a vacina da Pfizer (Comirnaty) em homens jovens, embora o risco geral seja pequeno.

Observou ainda que a miocardite pode ocorrer após a infecção pelo vírus da Covid-19 e que as vacinas de mRNA têm um benefício claro na prevenção de hospitalização e morte pela doença.

Os dados disponíveis sugerem que o curso imediato da miocardite e pericardite após a vacinação com ambos os imunizantes é geralmente leve e responde ao tratamento. O acompanhamento dos casos continua em andamento pelos órgãos locais e também entidades independentes para determinar os resultados a longo prazo.

Os indivíduos vacinados devem ser instruídos a procurar atendimento médico imediato se desenvolverem sintomas indicativos de miocardite ou pericardite, como dor torácica persistente, falta de ar ou palpitações após a vacinação.

De acordo com André Ricardo Araújo da Silva, professor da Universidade Federal Fluminense, em alguns casos de Covid-19, a inflamação é uma das complicações.

“A Covid-19 é uma doença respiratória que provoca sintomas de gripe em 85% dos casos, que evoluem de forma satisfatória. De 10% a 15% dos pacientes têm efeitos leves e moderados e, dentro deste grupo, a gente tem como uma das complicações as alterações cardiovasculares, incluindo a miocardite e fenômenos embólicos, como a trombose. A incidência exata ainda não é conhecida, tem diversos estudos que mostram um percentual pequeno”, disse o médico.

Ainda segundo o especialista, estudos apuram se a miocardite pode também ter relação causal com a vacina. “Já tem relatos na literatura casos que aconteceram em diferentes lugares do mundo, de pessoas que apresentaram inflamação após serem imunizadas.

Só que essa relação causa e efeito é meio complicada, é preciso tirar todas as outras causas possíveis, tirar coincidências temporais, nem sempre isso é possível”, diz André Ricardo.

Israel realizou um estudo com cerca de 5 milhões de pessoas que aponta uma incidência duas vezes maior em desenvolver a miocardite em pessoas que receberam as vacinas da Pfizer e da Moderna, desenvolvidas com a tecnologia do RNA mensageiro. Foram identificados 136 casos de miocardite entre os 5 milhões de pacientes.

Por que investigamos?

O Comprova tem o compromisso de investigar conteúdos suspeitos que tenham relação com a pandemia, políticas públicas do governo federal e eleições. A equipe tem como foco as publicações virais, que tiveram grande alcance nas redes sociais e podem causar desinformação.

A postagem da deputada ultrapassou as 30 mil interações até o dia 28 de janeiro e foi editada de forma que induz o leitor a questionar a eficácia da vacina e ainda alerta para um perigo de forma equivocada.

O Comprova já havia demonstrado anteriormente que as vacinas da Pfizer trazem menor risco de miocardite do que a Covid-19 e que a segurança das mesmas foi assegurada por diversas agências reguladoras pelo mundo.

Enganoso: Conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

* Investigado por Portal Norte Notícias, Poder 360 e CNN Brasil; verificado por rádio BandNews FM, Estadão, Nexo, jornal O dia, O Popular, Correio de Carajás e Metrópoles

Tags: #Carla Zambelli#Fake news#Negacionismo
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