Uma análise do pensamento conservador brasileiro e do movimento da direita católica, que garantiu apoio político ao golpe militar de 64, com marchas e discursos antisubversivos, passa, inevitavelmente, pela cidade de Campos.
Por lá andou o grande ideólogo e difusor deste pensamento: o professor Plínio Corrêa de Oliveira, fundador da Sociedade Brasileira de Tradição Família e Propriedade (TFP).
Nesta cidade ele acreditava existir uma mística: o potencial de reproduzir um movimento em nível global. Achava que esta mística originava-se do martírio de algum monge nesta planície na época das grandes cruzadas.
Por isso, criou na cidade um de seus melhores núcleos, sob a orientação espiritual do bispo Tradicionalista dom Antônio de Castro Mayer, com quem viria romper futuramente, em decorrência das divergências entre a corrente conservadora e o Vaticano.
Estava certo quanto a percepção de Campos como tambor para ecoar fatos. O movimento tradicionalista tornou-se um acontecimento entre católicos em nível mundial.
Mesmo divergindo das doutrinas pós Concílio do Vaticano II, durante a crise entre progressistas e tradicionalistas, o líder da TFP preferiu manter-se fiel ao Vaticano, ainda que se mantivesse fiel ao conservadorismo, enquanto que o então bispo de Campos acompanhou a corrente tradicionalista liderada pelo arcebispo francês dom Marcel Lefebvre.
Os Tradicionalistas se manteriam alijados do Vaticano por mais de 30 anos. A reaproximação se deu a partir do ano 2000 e o principal articulador desta distensão foi dom Fernando Arêas Rifan, bispo da Associação Apostólica São João de Maria Vianey.
Aliás, a partir da reaproximação, Campos passou a ser a única Diocese do mundo a ter dois bispos: atualmente dom Fernando e dom Roberto Ferreria Paz.
A dissertação de mestrado do antropólogo André Altoé, atualmente professor do Instituto Federal Fluminense (IFF), com passagens pela Universidade Cândido Mendes, analisa de forma pormenorizada o pensamento dessas correntes ideológicas e religiosas.
O que se revela é uma formidável base filosófica, inspirada em preceitos extraídos dos fundamentos do catolicismo da Idade Média.
Plínio Corrêa, ou doutor Plínio, como é chamado por seguidores que sobreviveram a uma divisão interna da TFP, foi um intelectual brilhante.
Seu carisma conquistou continentes. Talvez, por isso, a TFP sobreviva bem organizada em vários países do Leste Europeu, na França e nos Estados Unidos, definhando apenas no Brasil. Sobre Campos, costumava dizer que a cidade era “um farol que reluzia por todo o Brasil”.
Uma parte do trabalho de Altoé mergulha nas entranhas da administração da entidade depois da morte de doutor Plínio.
Revela os bastidores da briga entre os provectos, grupo mais ligado ao líder carismático e a ala mais jovem liderada por João Clá Dias. Este, posteriormente, foi sagrado padre, e fundou outra entidade de cunho conservador, Arautos do Evangelho, que já está em rota de colisão com Vaticano.
A luta pelo domínio da sigla fundada pelo professor Plínio Corrêa foi parar nas Cortes, em Brasília. O grupo de João Clá Dias ganhou o direito sobre a entidade, que vai morrendo a conta-gotas.
Por trás de tudo está um espólio valioso, que inclui vários imóveis na zona nobre de São Paulo e os direitos sobre a imagem de doutor Plínio.
Os provectos resistem. Eles criaram o Instituto Plínio Corrêa de Oliveira (IPCO).








