A ideia é um acontecimento vivo, que irrompe no ponto de contato dialogado entreduas ou várias consciências. (Mikhail Bakhtin)
Algumas obras de José J. Veiga, como Os cavalinhos de Platiplanto, A hora dos ruminantes, A estranha máquina extraviada, Sombras de reis barbudos, Os pecados da tribo e Aquele mundo de Vasabarros, como já explicitei anteriormente, despertam reminiscências.
Aproximando-nos de suas narrativas, intriga-nos a sua retextualização. Por conseguinte, nosso intento é verificar abordagens teóricas que com mais propriedade nos orientem na configuração do possível retexto, identificar as repetições em e entre as obras acima e o efeito de sentido provocado por essa retextualização, jogando os temas no Brasil de hoje.
Ademais, para falarmos de repetições “entre” as obras de um mesmo autor,no caso José J. Veiga, há um considerável caminho teórico a percorrer, sobretudo porque, inicialmente, será necessário recorrermos àquele em quem Julia Kristeva (1978) se inspirapara conceber a teoria do que ela chamaria de intertextualidade: Mikhail Bakhtin (1895-1975).
As reflexões desse teórico russo acerca da poeticidade do discurso literário,comumente, no meio acadêmico, são enleadas com os princípios da análise do discurso.Também com frequência sujeitam as categorias básicas de seu método crítico, em especial a carnavalização e o dialogismo, a reducionismos e generalizações.
Reconhecer as valiosas contribuições de Bakhtin aos estudos linguísticos não implica reduzir seus pressupostos a essa área. Mais que isso, esse pesquisador compreende a literatura como um fenômeno estético amplamente articulado ao contexto sociocultural e, com bastante competência, articula estética, ética e filosofia. Esse propósito conduziu-o na análise crítica de obras como as de Dostoiévski e Rabelais e na dedicação à teoria do romance.
Edward Lopes, em “Discurso Literário e Dialogismo em Bakhtin” (1994), reitera que em A Poética de Dostoiévski – referindo-se à primeira edição, publicada em 1929, Problemas da Obra de Dostoiévski, que em sua segunda edição, publicada em 1963, foi “corrigida e consideravelmente ampliada” e passou a se intitular Problemas da Poética de Dostoiévski –tem-se o “esboço da primeira teoria estrutural do funcionamento intertextual da narrativa”. E prossegue:
E não sem razão: todas as acepções com esse vocábulo, intertextualidade, [que] virá a ser proferido a partir da década de 60, encontram-se já prefiguradas, em termos daprópria terminologia bakhtiniana, como multidiscursividade, pluridiscursividade, dialogismo e polifonia, mais particularmente. (LOPES, 1994, p. 71, grifos do autor).
Portanto, é com a finalidade de melhor compreendermos a intertextualidade – e daíchegarmos à retextualização nas narrativas veiguianas – que nos utilizaremos da noção de dialogismo, termo de que Bakhtin se serviu para caracterizar o romance polifônico de
Dostoiévski e com o qual estabeleceu as diretrizes de uma poética estético-literária, entendida, inclusive, pelos seus aspectos históricos, sociais e culturais. Para Bakhtin (1990), a língua é fundamentalmente a manifestação de uma visão de mundo e tem uma realização efetiva no discurso. Todo evento da linguagem é a atualização de uma relação entre sujeitos históricos e sociais.
Em suas palavras, o discurso do sujeito falante no romance não é apenas transmitido ou reproduzido, mas representado artisticamente. […] O discurso exige procedimentos formais especiais do enunciado e da representação verbal. […] O sujeito que fala no romance é um homem essencialmente social, historicamente concreto e definido e seu discurso é uma linguagem social […] e não um dialeto individual. […]
O sujeito que fala no romance é sempre, em certo grau, um ideólogo e suas palavras são sempre um ideologema. Uma linguagem particular no romance representa sempre um ponto de vista particular sobre o mundo, que aspira a uma significação social. (BAKHTIN,1990, p. 135, grifos do autor). Problemas da Poética de Dostoiévski (1981), A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento – O Contexto de François Rabelais (2002) e Questões de Literatura e Estética – A Teoria do Romance (1990) são obras de Bakhtin que constituem, para a teoria da literatura,fontes de referência aos estudos sobre o romance, os gêneros, a polifonia, o riso, a carnavalização.
A essa lista acrescentaríamos Estética da Criação Verbal (2003), cujos fragmentos e notas são datados de seus últimos vinte anos de vida. Também atentamos para a relevância de Marxismo e Filosofia da Linguagem (1992) – em algumas edições assinadas por Bakhtin & Voloshinov – para os estudos linguísticos.
Bakhtin (2002; 1990; 1981) ocupa-se da constituição do romance polifônico à luz dadialogia interna do discurso romanesco, um tema peculiar da linguagem literária. Inquieta-se com os fenômenos da linguagem assimilados da cultura popular e assevera a indispensabilidade de os fenômenos literários serem estudados em sua relação com os demais fenômenos da cultura.
Sua abordagem vai além do domínio linguístico, na medida em que propõe uma análise estética inserida no contexto geral da cultura. Por isso critica a valorização formalista do material verbal ditado pela linguística. Convém evocá-lo:
“Não há território interior no domínio cultural: ele está inteiramente situado sobre fronteiras, fronteiras que passam por todo lugar, através de cada momento seu […].Todo ato cultural vive por essência sobre fronteiras: nisso está sua seriedade e importância; abstraído da fronteira, ele perde terreno, torna-se vazio, pretensioso, degenera e morre. (BAKHTIN, 1990, p. 29).
Postula Bakhtin (1990) que, por meio do conteúdo, elemento ético-cognitivo, evidencia-se a relação entre a ação humana e o mundo em que ela se desenvolve. Em sua filosofia, tudo o que é conhecido deve ser posto em correlação com o mundo onde se realiza a ação humana, deve estar intimamente ligado à consciência agente; é apenas por esse caminho que ele [o elemento puramente cognitivo] pode entrar na obra de arte. (BAKHTIN, 1990, p. 39).
Portanto, a capacidade potencial de o homem reagir ao meio em que vive está diretamente relacionada ao conhecimento. Tal reação instigou as reflexões de Bakhtin sobre a responsividade. Para ele, sem resposta não há vida, não há evolução e nem é possível definir o tipo de relação que o homem estabelece com o mundo. Em suas palavras, “todo discurso é orientado para a resposta” (BAKHTIN, 1990, p. 89). Podemos afirmar que, mesmo antes de o dialogismo tornar-se o conceito-chave de sua teoria, ele já se ocup
ava do estudo da resposta na relação dialógica do homem com o mundo. Por conseguinte, a responsividade é uma categoria essencial no pensamento bakhtiniano. O sujeito em Bakhtin (1992), contextualizado em seu espaço-tempo social, histórico e ideológico, é um ser de interação.
Logo, esse sujeito inseridose espatifarão no chão em situações insólitas, malucas, metido em fakes, angoriou fundos para seu próprio mundo em Vasabarros. O brasileiro de hoje, na era bozominion, começa a perceber que vive nesse Brasil de Vasabarros, atormentado por queimadas, neopentecostalismo no governo, bastardos safados que, um dia, se espatifarão no chão, quebrados na Operação Vasa-barros! Tenho dito!








