Temos gente na universidade federal que não devolve nada ao país”
(Hamilton Mourão, Vice-Presidente do Brasil)
Percebo nas formas culturais que os homens elegem para se expressar, nos significados e sentidos sociais de suas ações e relações em determinadas épocas e contextos que essas formas culturais revelam, uma motivação, um desafio, quando se propõe o pesquisador a estudá-las.
A Literatura, uma dessas formas culturais, é, a meu ver, um conhecimento de sintonia fina sobre o mundo, que não se atém a mensurar, a circunscrever as coisas, os seres e os entes do mundo, mas a ocultar/revelar os seus relevos, profundidades, as suas existências, os seus extravios, suas paixões, sua beleza, os seus sentidos.
Sendo um tipo de transgressão pela sua natureza, pode vir a ser mais transgressora pelo tema e pela techné. Enfim, é um conhecimento de sintonia fina que revela o detalhe a mais que o dado histórico, absolutizado, permitindo que se capte algo que se possa perder e que o olhar treinado do sociólogo não captara.
Assim, neste momento escuro e terrível para o Brasil, escolho José J. Veiga como o homem/autor que elegeu a Literatura para expressar-se e vou a sua obra, um rico manancial que nos oferece a oportunidade de perceber aquela sintonia fina acima delineada e interpretar os sentidos e significados sociais que a permeiam.
Muitos são os sentidos e significados sociais que a obra de José J. Veiga desvela. Isto porque o estranhamento e a rejeição às novas formas de socialidade, específicas da modernidade, surgem num contexto de um modo de vida permeado por relações tradicionais, tão bem retratados na obra do autor. Isso é o que buscarei mostrar em três diferentes artigos.
Cavalinhos de Platiplanto marca sua estreia na literatura em 1959, ao ganhar o segundo lugar do Concurso Monteiro Lobato e o primeiro lugar do prêmio Fábio Prado. Trata-se de uma obra que retrata as memórias de infância do autor. Logo em seguida vem A Hora dos Ruminantes, iniciada em 1961, no dia da renúncia de Jânio Quadros, e editada em 1966. Muitas leituras são feitas dessa obra relacionando-a ao momento político da ditadura militar. No entanto, segundo Potenciano (1990), sua escrita vai além de uma tradução direta de fatos e acontecimentos e possibilita diversas leituras além dos anos 64.
A meu ver, a universalidade dos temas que trata a obra veigueana permite as mais variadas leituras. No caso de A Hora dos Ruminantes, a dominação/subjugação é o tema recorrente e, por se tratar de um tema universal, pode se prestar à leitura do regime militar, bem como a outras situações de opressão, pois J. Veiga elabora uma literatura que evita lugares comuns e foge dos exageros até deixar a frase limpa, tão simples que se aproxima da fala comum do cotidiano.
Com receio de não corresponder à crítica favorável ao romance A Hora dos Ruminantes, Veiga escreve contos que depois seriam reunidos em A Estranha Máquina Extraviada (1968).
Na década de 70, José J. Veiga solta sua imaginação para lugares literários mais arrojados e sua imaginação está mais forte: o poder é tirado dos homens e assumido por um bicho, o uiua. O contexto não estava muito diferente, pois a opressão ainda é o tema dominante para o escritor situado no seu tempo.
Essas obras são vistas como parte de um “ciclo sombrio” que tem seu término em 1982 com a publicação de Aquele Mundo de Vasabarros, história de um reino “fora do mundo” que tem muito a ver com este mundo preso a sistemas de tirania – os interditos sociais, sobre o qual escreverei na continuidade deste artigo, na próxima semana. Obviamente, darei ao jogo uma aproximação ao Brasil de hoje, contextualizando-o e dando a Vasabarros a cretinice que contém toda ditadura, todo cinismo, toda roubalheira e inescrúpulo presente no Brasil de hoje.








