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Dois dias após explosões, drama de libaneses dá lugar à raiva

redacao Por redacao
06/08/2020 - 22:57 - atualizado em 07/08/2020 - 10:22
em Mundo
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Macron visita o Líbano

Presidente Emmanuel Macron é cercado por imprensa, cidadãos libaneses e segurança durante visita a Beirute ( foto: ANWAR AMRO STR)

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Dois dias após as grandes explosões na zona portuária de Beirute, o choque do povo libanês vai se transformando em raiva. Para parte da população, que vem assumindo a tarefa de limpar as ruas, o incidente é reflexo de décadas de má administração, negligência e corrupção do sistema político, pelo qual representantes de diferentes partidos de bases religiosas dividem o poder.

A revolta ficou clara durante a visita do presidente da França, Emmanuel Macron, nesta quinta-feira. O representante da antiga metrópole — o Líbano foi colônia francesa entre 1923 e 1946 — foi recebido com gritos contra autoridades libanesas. Macron prometeu ajudar, mas afirmou que o dinheiro não irá para “mãos corruptas”.

A destruição na cidade foi extensa: até o momento, há 137 mortes confirmadas, 5 mil feridos e cerca de 300 mil desabrigados. Os danos materiais iniciais são estimados entre US$ 3 bilhões e 5 bilhões e o porto, por onde chegavam dois terços das importações do país, foi completamente destruído. As buscas por dezenas de desaparecidos continuam.

— É revoltante ver que a ganância de um punhado de políticos corruptos e ávaros tenha nos levado a isso — disse ao jornal El Pais o universitário Albert Sehnaoui.

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Acredita-se que a explosão foi resultado da combustão de 2.750 mil toneladas de nitrato de amônio, material altamente inflamável que estava armazenado no porto desde 2014, após o navio que o transportava ser abandonado. Ainda não se sabe, porém, o que causou a denotação da substância, usada como fertilizante e altamente inflamável e tóxica.

Registrada por sensores sísmicos como um terremoto de 3,3 pontos na escala Richter, a explosão deixou uma cratera em seu marco zero e uma nuvem laranja se ergueu sobre a região. O presidente Michel Aoun prometeu castigar os responsáveis da “forma mais severa” e vários funcionários da Autoridade Portuária de Beirute foram postos em prisão domiciliar. Ainda assim, para muitos libaneses, a tragédia deve ser posta na conta da classe política.

O dia seguinte: Com luvas, máscaras e vassouras, população de Beirute se mobiliza para limpar destroços da explosão

Manifestantes foram às ruas nesta quinta protestar durante a visita de Macron, tida por críticos como um endosso ao governo. Frente a insatisfação, o líder francês propôs coordenar a ajuda internacional e prometeu que a ajuda humanitária será vinculada a reformas econômicas e medidas de combate à corrupção. Sem elas, afirmou, o país “continuará a afundar”.

— Eu garanto a vocês, essa ajuda não irá para mãos corruptas — disse Macron, primeiro líder estrangeiro a visitar o país depois da explosão e que defendeu “um novo pacto político”. — Para além das explosões, nós sabemos que a crise aqui é séria e envolve a responsabilidade histórica das lideranças.

Em meio à crise política, o Líbano atravessa sua maior crise econômica desde o fim da guerra civil (1975-1990). O apelo por ajuda, tida como essencial para a reconstrução, foi ouvido por diversos países: a União Europeia, por exemplo, disse estar mobilizando mais de 33 milhões de euros (R$ 209 milhões) em ajuda inicial e o Reino Unido, 5 milhões de libras (R$ 35 milhões). O presidente Jair Bolsonaro também prometeu ajudar.

Entenda: O que há por trás da ruína econômica e política do Líbano

Não há ponto da capital libanesa, na costa Leste do Mediterrâneo, que tenha sido poupado. Os bairros próximos ao porto foram os mais afetados, mas há danos estruturais por toda a cidade, com vidros estilhaçados e carros amassados. Hospitais estão superlotados e enfrentam escassez de produtos, segundo o ministro da Saúde, Hamad Hassan.

Com a capital em estado de emergência por duas semanas, o Exército usa equipamentos pesados para tentar abrir caminho e chegar às áreas mais afetadas. Nas ruas, a população usa vassouras e recursos à sua disposição para recomeçar, enquanto equipes de resgate ainda buscam desaparecidos.

— São os libaneses que estão nas ruas, mostrando muita solidariedade, e as autoridades estão simplesmente ausentes — disse ao New York Times Rima Tarabay, que mora perto do porto. — Por um lado, é impressionante. Por outro, desolador.

Entenda: Origem de material que explodiu em Beirute seria carga de navio abandonado em 2013

A desconfiança no futuro país também é grande. Uma das nações mais endividadas do planeta, o Líbano busca se organizar financeiramente e negociava um empréstimo com o Fundo Monetário Internacional, mas as conversas foram paralisadas em meio às disputas políticas.

A situação se agravou no fim do ano passado, quando protestos que superaram as divisões sectárias tomaram as ruas do país, forçando a renúncia do então premier Saad al- Hariri. O cenário põe em xeque o equilíbrio de poder estabelecido há décadas, pelo qual o premier é sempre muçulmano sunita, o presidente cristão e o presidente do Parlamento, xiita.

Desde então, a libra libanesa se desvalorizou em 80% e o desemprego e o custo de vida aumentaram rapidamente. A pandemia de coronavírus e as medidas de isolamento só complicaram a situação do país, que deverá ver sua economia contrair até 12% nos próximos meses.

As explosões de terça-feira destruíram o principal silo do país, com capacidade para armazenar 120 mil toneladas de grãos, ou 85% da capacidade libanesa. As 15 mil toneladas de trigo que estavam lá ficaram inutilizáveis. O Ministério da Economia garante que não há motivos para se preocupar com a escassez de comida, mas muitos temem o contrário.

Tags: #Explosão em Beirute#Libano
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